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Bolsonaro usa táticas muito parecidas com as utilizadas por Donald Trump

7.out.2018 - Flavio e Jair Bolsonaro na chegada para votar no primeiro turno, no Rio - Fernando Souza/AFP
7.out.2018 - Flavio e Jair Bolsonaro na chegada para votar no primeiro turno, no Rio Imagem: Fernando Souza/AFP

Sarah Dilorenzo e Peter Prengaman

Da AP, em São Paulo

08/10/2018 14h53

Muito antes da eleição de domingo (7) em que Jair Bolsonaro obteve 46% dos votos no primeiro turno da corrida presidencial, muitos observadores já consideravam a ideia de que o deputado de extrema-direita seria um Trump “tropical”.

Bolsonaro, que agora disputará um segundo turno no dia 28 de outubro, se apresenta como alguém que fala como as coisas são ao mesmo tempo em que promete desmontar um sistema político disfuncional e procura cativar muitos cidadãos que têm medo de perder seu lugar em uma sociedade cada vez mais diversa e inclusiva.

Embora haja muitas diferenças entre o presidente americano, Donald Trump, e Bolsonaro --antes de concorrer, Trump era um empresário bilionário, enquanto Bolsonaro era um deputado com muito tempo de casa e poucas vitórias legislativas-- muitas das táticas usadas em suas campanhas foram notavelmente similares.

“Fala sem rodeios”

Talvez a maior semelhança e provavelmente aquela que causou inicialmente as comparações entre Bolsonaro e Trump seja o fato de que nenhum dos dois parece medir suas palavras.

Nas eleições americanas em 2016, o atual presidente americano muitas vezes se vendeu como o homem que não tinha medo de dizer o que todos estavam pensando. Bolsonaro tem essa mesma falta de filtro. Alguns de seus comentários polêmicos refletem posições ideológicas antigas, como seus repetidos elogios à ditadura militar do Brasil entre 1964 e 1985. Outros comentários podem ser mais espontâneos e corroboram sua reputação de alguém que vai contra o “politicamente correto”, como quando ele disse a uma plateia que teve uma filha “em uma fraquejada” depois de quatro filhos homens.

Ambos “gostam de ser ofensivos e dar declarações para chocar”, disse Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute no think tank Wilson Center em Washington.

Atacar a grande mídia

Bolsonaro e seus três filhos mais velhos, que também são políticos, atacam os principais veículos de mídia do Brasil, acusando-os de tudo, desde contar mentiras sobre o candidato até ignorar sua subida nas pesquisas e o apoio de outros políticos. Assim como Trump, eles acusam a mídia de apoiar a elite tradicional do país e de tentar sabotar uma campanha que poderia ameaçá-la.

Carlos Bolsonaro, que é vereador do Rio de Janeiro, tuitou recentemente que a mídia e um importante instituto de pesquisas “ignoram manifestações em prol de Bolsonaro, até nos longínquos rincões do Brasil, e tentam criar uma narrativa de estagnação de Bolsonaro (nas pesquisas). Eles creem realmente que a população é cega e idiota!”

07.out.2018 - Jair Bolsonaro concede live após resultado do primeiro turno - Reprodução/Facebook/Jair Bolsonaro
07.out.2018 - Jair Bolsonaro concede live após resultado do primeiro turno
Imagem: Reprodução/Facebook/Jair Bolsonaro

Uso das mídias sociais

Para candidatos que não confiam na mídia, as redes sociais oferecem a saída perfeita. Bolsonaro, assim como Trump, usou muito o Twitter e o Facebook para falar diretamente com os eleitores. Isso se tornou especialmente importante depois que o candidato foi esfaqueado no dia 6 de setembro e ficou internado no hospital por mais de três semanas.

Na semana passada, mesmo depois de receber alta do hospital, Bolsonaro não foi ao debate mais importante na TV promovido pela rede Globo, alegando ordens médicas. Em vez disso ele fez sessões ao vivo no Facebook com aliados políticos e deu entrevistas a emissoras favoráveis a ele.

“A ideia de que se falte ao debate por motivos de saúde mas depois se façam três entrevistas de dez minutos a emissoras de TV simpáticas é muito trumpiana em sua essência.”

Matthew Taylor, professor associado de política latino-americana na American University,

Segundo Taylor, para ambos esse uso intenso das mídias sociais os ajudou a superar uma resistência inicial às suas candidaturas.

Insinuar fraude

Bolsonaro levantou a possibilidade de fraude e disse que isso poderia lhe custar a eleição. Uma semana antes da votação, ele disse a um canal de TV que não aceitaria nenhum outro resultado que não fosse sua própria vitória, sugerindo que o tamanho do apoio que ele viu nas ruas indicava que ele venceria, apesar do que diziam as pesquisas.

Alguns dias mais tarde, ele voltou atrás nesses comentários, dizendo que aceitaria os resultados das eleições, mas não ligaria para o adversário para cumprimentá-lo por uma vitória. Parece familiar? Trump trilhou um caminho muito parecido.

“Bolsonaro está basicamente dizendo, ‘Legitimidade é eu vencer. Qualquer outra coisa é fraude’”, disse Jason Stanley, autor de “How Fascism Works: The politics of us and them” (“Como funciona o fascismo: a política do nós contra eles”, em tradução livre).

Eleitor ao lado de Flávio Bolsonaro - Rodrigo Mattos/UOL
Eleitor ao lado de Flávio Bolsonaro
Imagem: Rodrigo Mattos/UOL

Uso de representantes

Similar à forma como a campanha de Trump incluiu Donald Trump Jr. e outros filhos falando em nome de seu pai, Bolsonaro usou muito seus três filhos mais velhos para aventar ideias, negar notícias críticas a ele e fazer alegações bizarras. Como exemplo mais recente, no domingo, enquanto os brasileiros iam às urnas, Flavio Bolsonaro, que concorre ao Senado, compartilhou um vídeo no Twitter que supostamente mostrava uma urna adulterada.

Em poucas horas o Tribunal Superior Eleitoral anunciou que se tratava de uma denúncia falsa. No entanto, àquela altura o vídeo certamente já havia sido visto por milhões de pessoas pelo Twitter e pelo WhatsApp.

“A técnica é usar pessoas que falem por você, em vez de você mesmo falar”, disse Taylor. “Trump ou Bolsonaro sempre podem dizer: ‘Eu nunca falei e nunca falaria isso’”.

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