Análise: 'Modelo Trump', adotado por Bolsonaro no Brasil, dá sinais de desgaste nos EUA

Marcelo Freire

Do UOL, em São Paulo

  • Mandel NGAN / AFP

    Donald Trump chega para entrevista coletiva após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, acompanhado do vice-presidente, Mike Pence

    Donald Trump chega para entrevista coletiva após as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, acompanhado do vice-presidente, Mike Pence

Jair Bolsonaro (PSL) utilizou muitas táticas de Donald Trump na última eleição presidencial no Brasil: rejeição à classe política tradicional; uso das redes sociais; retórica agressiva e ataques a opositores e à imprensa; discurso nacionalista e de exaltação às forças de segurança do país. Deu certo.

Mas o modelo popularizado por Trump dá sinais de desgaste -- e um deles é a perda da maioria do Partido Republicano na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos.

A derrota na Câmara está longe de significar uma rejeição massiva contra os republicanos nos EUA, por dois motivos. Primeiro: apesar de os democratas terem tomado 27 cadeiras dos adversários até o momento, havia a expectativa, de acordo com as pesquisas, que esse número fosse maior.

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Segundo: os republicanos ampliaram a maioria no Senado, tirando três cadeiras democratas e perdendo apenas uma - essa vantagem pode aumentar com o fim da apuração.

Mas a possibilidade de ser submetido a investigações em comissões comandadas pelos democratas na Câmara e o potencial de ver seus projetos legislativos barrados pela oposição significam, sem dúvida, um revés para o presidente que saiu atrás nas pesquisas em 2016 para vencer de forma surpreendente e chegar à Casa Branca com apoio numeroso no Congresso.

"Com o resultado na Câmara, os democratas podem rejeitar qualquer iniciativa do Executivo, seja o orçamento para a construção do muro no México, os cortes nos impostos para os ricos e a classe média, as mudanças nas políticas comerciais com outros países, como a China, ou qualquer iniciativa na área da saúde", diz o canadense Sean Purdy, professor do departamento de História da USP (Universidade de São Paulo) e especialista em história dos Estados Unidos.

"Claro que a maioria republicana no Senado pode barrar projetos democratas também, mas ainda assim o tamanho da perda na Câmara é importante. A eleição foi sim um referendo sobre o Trump, e ele sai mais fraco - não só simbolicamente, mas também na prática", acrescenta.

Segundo ele, é "interessante e irônico que o Brasil abraça um modelo que muitos nos EUA estão rejeitando". E, apesar do entusiasmo de Bolsonaro com Trump e sua intenção de aproximar os dois países, a vitória dos democratas pode atrapalhar esses planos.

"Vários deputados democratas na Câmara já se pronunciaram contra Bolsonaro e isso pode dificultar qualquer aproximação dos dois países mesmo que os líderes concordem em algumas políticas de direita, na área comercial, econômica ou de direitos humanos, entre outras", afirma.

O balanço do poder na política americana

Câmara dos Deputados

  • Em jogo: Todas as 435 cadeiras, renovadas a cada dois anos
  • Divisão até 2018: 235 republicanos, 193 democratas e 7 cadeiras vagas
  • Resultado parcial (até 15h20 desta quinta, segundo AP): 225 democratas, 197 republicanos (13 ainda indefinidos)

Senado

  • Em jogo: 35 de 100 cadeiras, incluindo dos 5 estados mais populosos (Califórnia, Texas, Flórida, Nova York e Pensilvânia)
  • Divisão atual: 51 republicanos e 49 democratas.
  • Resultado parcial (até 15h20 desta quinta, segundo AP): 51 republicanos e 46 democratas (ainda indefinidos)

Governos de estados

  • Em jogo: 36 estados (entre 50), incluindo os 5 mais populosos
  • Divisão atual: 33 republicanos, 16 democratas e 1 independente
  • Resultado parcial (até 15h20 desta quinta, segundo AP): 26 republicanos e 23 democratas (1 ainda indefinido)

O caminho democrata

Ao mesmo tempo que há uma união democrata contra Trump, agora até com potencial de um pedido de impeachment - 40% dos eleitores desejam que o presidente seja removido do cargo, segundo pesquisa boca de urna da CNN -, o partido agora precisa demonstrar uma agenda política alternativa à do presidente. "Os democratas precisam de um programa para ganhar o apoio da população. Ser anti-Trump não é suficiente", diz Purdy.

Outro aspecto evidenciado nas eleições foi a guinada dos democratas à esquerda, uma ameaça que já rondava o partido em 2016, quando Bernie Sanders teve chances de superar Hillary Clinton nas primárias para a presidência mesmo sem o apoio da cúpula.

"Muitos desses democratas que ganharam na Câmara defendem um salário mínimo maior para trabalhadores em situação precarizada e a ampliação do Obamacare [plano de saúde pública do ex-presidente que Trump busca encerrar]. Foram muitos ganhos dessa ala progressista, principalmente em grandes estados como Nova York e Pensilvânia. Não são maioria, claro, mas mostram os novos rumos políticos dos EUA estão mudando."

Teste para reeleição de Trump

Além da Câmara e do Senado, houve também a disputa em 36 dos 50 estados.

Considerando que os dois ainda indefinidos (Geórgia e Alasca) têm republicanos na frente na apuração, a conta final deverá ficar em 27 estados para o partido de Trump e 23 para os democratas.

Essa disputa é importante para Trump principalmente por causa de sua tentativa de buscar a reeleição em 2020. E três derrotas são preocupantes: Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, estados que escolheram o republicano há dois anos na eleição presidencial e que foram vencidos pelos democratas agora.

Em compensação, candidatos apoiados por Trump conseguiram vitórias importantes na Flórida e em Ohio, dois conhecidos 'campos de batalha' nas eleições presidenciais, variando suas escolhas entre republicanos e democratas em duelos geralmente apertados. "Nesses estados ficou meio empatado, talvez pendendo um pouco para o lado republicano. Foi uma das vitórias de Trump", diz Purdy.

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