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Desastre de Tchernóbil cria turismo por cidades fantasmas

Fernanda Ezabella/UOL
Cerca de dez empresas de turismo realizam passeios pela região de Tchernóbil, saindo de Kiev, capital da Ucrânia, a 150 km; em 2017, 60 mil turistas passaram pela cidade Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

Fernanda Ezabella

Colaboração para o UOL, em Prípiat (Ucrânia)

01/12/2018 04h00

A caminhada pelo mato é interrompida pela guia Tania Zdanevich: “Sabe onde estamos agora?”, pergunta. Ao redor, há apenas árvores e silêncio. Ela saca uma fotografia da bolsa e mostra a imagem de um enorme campo de futebol com uma pista de atletismo em volta.

Bem-vindos ao estádio Avanhard, ou o que sobrou dele. Estamos bem no meio do que foi, um dia, seu gramado verde bem aparado.

Sede do time FC Stroitel Pripyat, o local foi abandonado após o maior desastre nuclear da história, a apenas 3 km dali, no reator 4 da Usina de Tchernóbil, em 1986. O material radioativo expelido contaminou diversos países da Europa e foi 400 vezes maior que o da bomba de Hiroshima. 

Mais de 30 anos depois, resta do estádio apenas uma arquibancada de tijolos, além de alguns turistas que andam por seus assentos de madeira podre tirando fotos.

O estádio fica na cidade fantasma de Prípiat, que chegou a ser habitada por 50 mil pessoas e agora faz parte da Zona de Exclusão de Tchernóbil, uma área de 30 km de raio da usina nuclear. Cerca de dez empresas de turismo realizam passeios pela região, saindo de Kiev, capital da Ucrânia, a 150 km. Em 2017, 60 mil turistas passaram por aqui.

“A ideia das visitas veio do escritório das Nações Unidas na Ucrânia”, explica ao UOL Natalia Iletmish, gerente da SoloEast Travel, criada em 2000. A firma, que chega a levar até 180 turistas por dia no verão, tem nove guias e quer contratar mais para dar conta da demanda.

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A guia mostra em uma foto a sede do time FC Stroitel Pripyat, abandonada após o maior desastre nuclear da história Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

É preciso mostrar o passaporte para entrar na Zona de Exclusão, onde 3.000 pessoas trabalham diariamente, em turnos de 15 dias, seguidos de 15 dias de folga. Elas fazem manutenção e segurança das usinas (desativadas em 2000), operam centros de pesquisa, um mercado e até mesmo um hotel recém-construído.

Existe também um prédio dos correios na cidade de Tchernóbil, em frente a uma estátua de Lênin, a última em toda a Ucrânia que não foi derrubada. E há ainda um restaurante no qual o tour faz uma parada para almoço (frango e batatas). A guia logo tranquiliza: todos os ingredientes vêm de fora da Zona de Exclusão.

Parque de diversões parece ferro-velho

A cidade de Prípiat, fundada em 1970 como modelo urbano soviético, é o principal destaque do tour de cinco horas. Moravam aqui os operários da usina nuclear e suas famílias, retirados às pressas um dia depois do desastre, para nunca mais voltar.

Árvores crescem sem controle dentro dos prédios abandonados. O supermercado parece que foi bombardeado, com prateleiras se desintegrando no chão. Numa escola de jardim de infância, ainda restam camas sem colchões, livros rasgados e bonecas empoeiradas.

O mais cinematográfico, ainda que para filmes apocalípticos, é o parque de diversões de Prípiat, marcado para abrir quatro dias depois da explosão do reator 4. Os brinquedos então novinhos em folha hoje lembram um depósito de ferro-velho.

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Roda-gigante amarela de 26 metros marca o cenário apocalíptico de um parque de diversões 'fantasma' em Tchernóbil Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

A roda-gigante amarela de 26 metros virou capa da edição portuguesa de “Vozes de Tchernóbil” (Companhia das Letras), de Svetlana Alexiévitch, Nobel de Literatura. O livro traz depoimentos de cientistas, soldados e vítimas, muitos ex-residentes de Prípiat. O parque também está nos videogames “STALKER” e “Call of Duty 4”.

Ao redor das vilas abandonadas, florestas seguem intocadas pelo homem e cerca de cem espécies de animais voltaram a habitá-las. Há cavalos selvagens, javalis, alces e até uma raposa magrela que aparece para ganhar comida de um grupo de turistas.

Quanto de radiação é seguro?

Ainda que a Zona de Exclusão seja uma das áreas mais radioativas do mundo, as empresas de turismo afirmam que o passeio só passa por locais seguros.

“Algumas horas aqui é menos radiação do que tirar um raio-x”, repete Tania. Antes da saída da van, ela distribui ao grupo de 12 pessoas alguns dosímetros para medirmos a radiação durante o dia. Na praça central de Kiev, o aparelho indicava 0,13 microsievert por hora (μSv/h).

A taxa de dosagem é similar à velocidade de um carro: se o veículo roda a 100 km por hora, deve percorrer 100 km em uma hora. Então 0,13 microsievert por hora significa que, se a pessoa passar uma hora no local, vai receber uma dose de 0,13 μSv de radiação. Uma viagem longa de avião costuma expor o passageiro a 200 μSv, enquanto um raio-x abdominal, 600 μSv. A Solo East afirma que a dose recebida no tour é de cerca de 2 μSv.

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Dosímetro marca os níveis de radiação em Tchernóbil; para ir embora do local, é preciso passar por uma máquina para verificar a radiação Imagem: Fernanda Ezabella/UOL

O dosímetro varia bastante na Zona de Exclusão. Bem na entrada, na cidade de Tchernóbil, registra 0,18 μSv/h. No chão de terra ao redor da escola, bate 25 μSv/h e até apita. Debaixo de uma cadeirinha da roda-gigante, ultrapassa os 100 μSv/h.

Curiosamente, no portão a 270 metros do reator 4, o dosímetro mede meros 1,11 μSv/h. Embora o reator ainda guarde 200 toneladas de combustível nuclear, está protegido por uma gigantesca estrutura metálica inaugurada em 2016.

O número de mortes do desastre é alvo de debates. Oficialmente, 31 pessoas morreram devido à radiação imediata à explosão, mas há estimativas de milhares de mortos, principalmente entre os 600 mil soviéticos que ajudaram a apagar o incêndio, isolar o reator e limpar a região nos quatro anos seguintes.

Para participar do tour, é preciso usar roupas que cubram todo o corpo e sapato fechado. Ao final, antes de deixar a Zona de Exclusão, é obrigatório passar por uma máquina de corpo inteiro de controle de radiação. Tania alerta para não se sentar no chão durante o passeio para não arriscar contaminar as roupas. “Se acontecer e a máquina apitar, vai voltar para Kiev sem as calças”, avisa.

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