Topo

Trump e Bolsonaro têm ideal fascista e contagiarão mundo, diz autor dos EUA

Em São Paulo, eleitor de Bolsonaro celebra resultado das urnas fantasiado de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos - MIGUEL SCHINCARIOL/AFP
Em São Paulo, eleitor de Bolsonaro celebra resultado das urnas fantasiado de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos Imagem: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP

Pedro Graminha

Do UOL, em São Paulo

16/12/2018 04h00

"Trump serve de exemplo para mim. Sei da distância minha para ele, mas pretendo me aproximar para o bem do Brasil e dos Estados Unidos", disse o então candidato Jair Bolsonaro, em outubro de 2017, durante evento nos Estados Unidos, terra do presidente republicano. Cerca de um ano depois, Bolsonaro seria eleito presidente do Brasil.

Trump sempre ficou presente: em junho de 2018, Bolsonaro aplaudiu a saída dos EUA do Conselho do Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas), declarando sua intenção de fazer o mesmo. Também parabenizou o republicano por seu encontro com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, no contexto da escalada de tensão entre os dois países.

Recentemente, Bolsonaro encontrou-se com John Bolton, assessor do norte-americano, confirmando o convite para uma visita aos EUA para reunir os dois líderes.

Mimetizando o que fez Trump, Bolsonaro ameaçou retirar o Brasil do acordo de Paris e disse ter interferido para retirar a candidatura para a COP-25, que aconteceria no país em 2019 --agora transferida para o Chile. O presidente da França, Emmanuel Macron, chegou a criticar as atitudes de Bolsonaro e ameaçou uma retaliação comercial por parte da União Europeia para países que não obedecessem às diretrizes estabelecidas no tratado.

Trump e Bolsonaro foram igualmente desacreditados no início da disputa eleitoral em seus respectivos países, mas acabaram conquistando a vitória em campanhas marcadas por polêmicas e um uso habilidoso da internet.

Apoiador de Bolsonaro usa máscara de Donlad Trump durante convenção do Partido Social Liberal (PSL) - Ricardo Moraes/Reuters
Apoiador de Bolsonaro usa máscara de Donlad Trump durante convenção do Partido Social Liberal (PSL)
Imagem: Ricardo Moraes/Reuters

Para Jason Stanley, filósofo norte-americano e professor da Universidade Yale, nos EUA, a semelhança principal entre Trump e Bolsonaro está na característica fascista de seus discursos.

Em seu mais recente trabalho, "Como o Fascismo Funciona", a ser lançado no Brasil pela editora L&PM, ele estudou diferentes governos considerados fascistas ao longo da história, estabelecendo dez características principais para dizer se um político é ou não fascista.

Em entrevista ao UOL, Stanley explicou que lideranças com discursos e práticas fascistas estão surgindo em várias partes do mundo, em resposta a uma ordem internacional preestabelecida e em reação ao crescimento de pautas identitárias, como o movimento LGBT+ e feminista.

"É um movimento global que eu acredito vir de um desejo de destruir uma estrutura internacional que estabeleceu um Estado de Direito ruim para alguns bilionários e oligarcas. É essa estrutura internacional que estabelece, por exemplo, uma regulamentação do trabalho, das pautas ambientais. Então eles buscam sentimentos nacionalistas para quebrar essa ordem, e esse tipo de liderança está aparecendo por todos os lugares: Rússia, Turquia, Hungria, Filipinas, EUA...", explicou o professor.

Nesse processo globalizado, o surgimento de um líder que represente esse discurso pode dar base para o surgimento de outros que pensem e digam as mesmas coisas. No Ocidente, Donald Trump teria representado um ponto de ruptura.

"Havia uma norma retórica, e Donald Trump a quebrou. Por muito tempo, nas democracias ocidentais, havia uma ideia de que certos tipos de retórica não poderiam ser ultrapassados. Quando você tem o líder dos EUA falando as coisas que fala sobre imigrantes, tortura, relativizando a morte de jornalistas, isso permite que pessoas, em outros lugares, que pensem parecido, digam: 'OK, nós podemos fazer o mesmo agora'. Antes, o obstáculo a isso era o choque das pessoas a essas ideias. Quando as pessoas param de se chocar, não há mais barreiras para o desmonte das estruturas democráticas."

E Bolsonaro parece repetir Trump, com ataques a veículos de imprensa, a direção apontada para uma política externa alinhada aos EUA. Uma ideia repetida foi a sinalização de mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém.

Jason Stanley diz ser possível que a eleição de Trump e de Bolsonaro estimulem o surgimento de outros líderes na América Latina de mesmo perfil: "Todo mundo vai olhar para o Brasil e tentar saber o que vai acontecer".

O que é fascismo?

Fascismo é o nome dado a uma ideologia política que surgiu na Itália em 1922 e tem como principais critérios a valorização da nação e a concentração do poder na figura de um líder através do uso da força.

"Os governos fascistas são uma máfia. Tudo é sobre lealdade e poder. Esses líderes só acreditam na lealdade a eles. Tudo o que eles querem é esmagar o outro, mostrar seu poder."

Outro ponto que diferencia um governo democrático de um fascista, segundo Stanley, é a relação desses governos com a verdade. "A democracia liberal tem dois ideais: a liberdade e a igualdade. Ambas precisam da verdade. Não se é livre quando mentem para você. Ninguém acha que os cidadãos da Coreia do Norte são livres, porque eles são enganados. Se alguém mente para você sobre o mundo, não se tem mais controle das próprias ações. A igualdade também precisa da verdade, porque ela necessita da capacidade de poder se falar verdadeiramente ao poder."

Um país também tem uma cultura democrática quando um político mentiroso é punido

Jason Stanley, filósofo

No Brasil, Bolsonaro não tem sido chamado de fascista, mas Stanley diz que ele usa os mesmos modelos. "Há uma distinção entre táticas e políticas fascistas e seu modo de governar. Não há dúvida de que Bolsonaro usa todas as táticas fascistas. Ainda não sabemos se ele vai governar como um", afirma Stanley. "No entanto, essas pessoas tendem a fazer o que dizem, porque eles não conhecem nenhum outro jeito de agir."

Jason Stanley descreve os 10 passos do fascismo

Poder no lugar da verdade

Para Jason Stanley, o centro de todos os pilares é a substituição da verdade pelo poder. "Há a ideia de que um líder poderoso deve determinar o que é a realidade, o que é tudo."

É a partir desse jogo de construção de verdades relativas que um governo com essas características pode estabelecer o poder de fato sobre o povo. "O fascismo precisa destruir a verdade, pois a verdade é uma maneira de abordar o poder", explica o filósofo.

Caminho místico

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

"O líder fala sobre um passado em que o país era grande e forte. Cria-se nostalgia sobre um tempo que nunca existiu, onde a família tradicional era intacta, todos eram felizes e o país funcionava.

Nesse processo, o caminho para se alcançar a verdade é um processo mentiroso; as formas com que se alcançava o conhecimento antes são atacadas, chamadas de mentiras."

Anticorrupção

Getty Images
Imagem: Getty Images

"Corrupção passa a significar as pessoas erradas no poder. O líder promete que, ao chegar ao poder, toda a corrupção será esmagada, mas por meios errados, como execuções extrajudiciais. Você apresenta a regulamentação governamental como corrompida, e os negócios privados como anticorrupção. Em outras palavras: a própria democracia é apresentada como algo corrompido. Nesse caso, o próprio povo é algo corrompido."

Teorias da conspiração 

Getty Images
Imagem: Getty Images

"O líder desestabiliza a realidade porque ele é a realidade. Então, se espalham teorias da conspiração sobre forças obscuras espalhando o globalismo, tentando enfraquecer a nação. Teorias da conspiração são um sinal do fascismo porque desestabilizam o senso de realidade das pessoas."

Anti-intelectualismo

Getty Images
Imagem: Getty Images

"A expertise, a inteligência, as universidades e a mídia passam a ser representados como algo desumano. O líder diz que não precisa dos especialistas, da política para fazer as coisas. Ele sabe o que fazer. Múltiplas perspectivas que constituem um pensamento reflexivo? Isso é fraqueza. Pensar e debater é uma fraqueza e o fascismo fala sobre poder."

Hierarquia

Getty Images
Imagem: Getty Images

"Um grupo é o grupo dominante: homens acima de mulheres, brancos acima de negros, heterossexuais acima de gays, e os movimentos pela igualdade são representados como um ataque aos grupos dominantes. Então feminismo se torna um ataque aos homens, movimentos pelas populações indígenas são representados como um ataque à nação. Mas a hierarquia é uma mentira, pois nenhum grupo é melhor do que outro."

Vítimas da igualdade

Bertrand Guay/AFP
Imagem: Bertrand Guay/AFP

"O líder faz o grupo dominante se sentir como uma vítima da igualdade. Por exemplo: se as pessoas pobres vão ganhar alguma coisa, então isso vai ser tirado de você. Ou, se as mulheres ganharem mais poder, a família tradicional vai ser destruída, o homem vai perder seu papel.

A ansiedade das pessoas sobre a economia global é transformada em medo. No Brasil já há violência, então se associa a ideia de que a igualdade fez o crime aumentar, como se os pobres sempre fossem criminosos.

O líder então se coloca como a lei e a ordem. Eles criam uma onda de medo sobre o crime, colocando a culpa em membros de grupos não dominantes. Líderes fascistas também falam em execuções extrajudiciais, em deixar a polícia solta: e isso não é lei e ordem."

Ansiedade sexual

Getty Images
Imagem: Getty Images

"O líder fascista espalha medo sobre estupro, sobre os homens não poderem mais proteger suas famílias. Você espalha medo sobre o estupro e também sobre a homossexualidade: os gays estão vindo transformar seus meninos em meninas. Isso deixa as pessoas amedrontadas diante de minorias sexuais: elas passam a temer pela masculinidade delas, por isso elas precisam de um protetor forte, masculinizado, para protegê-la contra homossexuais e estupradores."

Decadência

"Os verdadeiros valores do país estão no campo, e os problemas estão na decadência urbana, nos gays, nos intelectuais da cidade."

Meritocracia

Getty Images
Imagem: Getty Images

"O único valor é o trabalho duro. Tudo é meritocracia, tudo deve ser brutalmente privatizado. O sistema deve aderir ao livre mercado, onde ou se sobrevive ou não se tem valores. Os programas sociais são discriminados, pois as pessoas que são pobres não batalharam, então elas não têm vez. Isso é darwinismo social; o fascismo se baseia no darwinismo social. Por isso as elites econômicas muitas vezes apoiam os fascistas, por que eles enxergam a vida como uma luta e quem está fora dela não pode ter piedade."

Errata: o texto foi atualizado
Uma versão anterior deste texto informava que os Estados Unidos saíram do Conselho de Segurança da ONU. Na verdade, o país deixou o Conselho de Direitos Humanos da entidade. A informação foi corrigida.

Mais Internacional