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Governo corre risco de ficar sem OCDE, Eduardo nos EUA e acordo Mercosul-UE

19.mar.2019: na data, Trump prometeu a Bolsonaro apoio à entrada na OCDE - AFP
19.mar.2019: na data, Trump prometeu a Bolsonaro apoio à entrada na OCDE Imagem: AFP

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

10/10/2019 17h23Atualizada em 10/10/2019 19h13

Resumo da notícia

  • EUA priorizaram Argentina e Romênia no processo de entrada na OCDE
  • Acesso ao grupo havia sido prometido por Trump
  • Governo também tenta aprovar Eduardo Bolsonaro em Washington e acordo com a União Europeia
  • Ricupero classificou atuação de Bolsonaro de "ingênua" no caso

Com a recusa dos Estados Unidos de priorizar a entrada do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), revelada hoje, o governo corre o risco de perder as principais apostas de Jair Bolsonaro (PSL) em política externa.

Além do ingresso à OCDE, o país vê patinar a aprovação do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) como embaixador do Brasil nos Estados Unidos e a ratificação do acordo entre Mercosul e União Europeia — em xeque devido à crise ambiental na Amazônia e a disputas econômicas.

Os três itens já foram defendidos ou elogiados publicamente por Bolsonaro, que chegou a celebrar o avanço dessas pautas como trunfos seus e resultado da mudança na condução das relações exteriores. Para conseguir apoio dos EUA na OCDE, o Brasil chegou a anunciar que abriria mão de privilégios na Organização Mundial do Comércio.

Na avaliação do diplomata e ex-ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, a falta de perspectiva para essas pautas reflete uma política externa "sem resultado" e "ingênua" ao colocar todas as fichas no governo Trump. Ele afirma que o governo norte-americano é extremamente pragmático e só promove seus próprios interesses.

OCDE: EUA prometeram apoio

Ricupero diz que Bolsonaro foi "ingênuo" ao apostar fichas em Trump - Eduardo Knapp - 8.mai.15/Folhapress
Ricupero diz que Bolsonaro foi "ingênuo" ao apostar fichas em Trump
Imagem: Eduardo Knapp - 8.mai.15/Folhapress
Mais cedo, foi revelado hoje pela agência de notícias Bloomberg que o governo norte-americano dará prioridade à entrada da Argentina e da Romênia na OCDE, em detrimento da candidatura brasileira. Atualmente, a OCDE tem 36 países membros.

Embora o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a embaixada dos EUA no Brasil tenham endossado publicamente o apoio à entrada do Brasil no grupo quando da visita de Bolsonaro à Casa Branca, em março deste ano, não há prazo para uma iniciativa efetiva por parte dos norte-americanos.

"Já na época da visita [de Bolsonaro a Trump], eu tinha comentado que o Brasil tinha aceitado renunciar algo de concreto, que era o estatuto de país em desenvolvimento na OMC [Organização Mundial do Comércio] em troca de promessa vazia. Era de apoio eventual", disse Ricupero.

Após a publicação de reportagens, a embaixada americana no Brasil publicou nota dizendo que o país apoia a entrada brasileira na OCDE, mas não citou data.

Argentina e Romênia estão com os processos de pedido de entrada mais avançados do que o Brasil, que formalizou a requisição em 2017. Hoje o Brasil é parceiro estratégico da OCDE e não há perspectiva de mudança dessa situação em curto prazo.

Ricupero também diz que a entrada do Brasil na OCDE não depende apenas da vontade dos Estados Unidos, e que o voto da França e da Alemanha vale tanto quanto o dos estadunidenses.

"Dificilmente vão aprovar a entrada do Brasil. Foi feita uma simplificação para enganar a opinião pública. Não vejo vantagem nenhuma na entrada do Brasil, que já faz parte de mais de 20 comitês da OCDE. A Grécia, país falido, é membro da OCDE há décadas. O preço que se exigiu do Brasil foi exorbitante", falou Ricupero.

Procurada pelo UOL, a Presidência respondeu por meio de nota do Ministério das Relações Exteriores. O governo defende que a matéria inicial sobre a questão "faz uma interpretação totalmente equivocada do comentário americano sobre Argentina e Romênia" e "nada mudou no apoio americano ao Brasil".

"A Argentina já tinha o apoio americano antes do Brasil e não vemos problema algum com o início de seu processo de adesão junto com a Romênia. Não há um tempo definido para a duração do processo de adesão, sendo possível que um país inicie o procedimento posteriormente. Continuamos nos preparando para ingressar na Organização e já temos grau elevado de preparação e de incorporação das normas", completou.

Eduardo em Washington: depende do Senado

Outra iniciativa em espera é a aprovação de Eduardo Bolsonaro como embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Sem votos garantidos para ter o nome aprovado no Senado, onde precisa passar por sabatina na Comissão de Relações Exteriores e pelo plenário, ainda não foi nem indicado formalmente.

A vontade de Bolsonaro em indicar o filho para o cargo foi divulgada há três meses e é vista com ressalvas por Ricupero, que duvida dos benefícios práticos que a indicação traria ao país.

Enquanto isso, Eduardo tenta passar a imagem de que está estudando relações exteriores e é próximo da família Trump, entre outras pessoas de peso na política norte-americana.

Ele chegou a viajar para se reunir com Trump em Washington, percorrer gabinetes no Senado em busca de apoio e a divulgar cada ação no Twitter. Embora brigado com Trump, o ex-estrategista do norte-americano Steve Bannon foi convidado por Eduardo a participar de seminário no Senado.

Se a proximidade com o presidente dos Estados Unidos deveria ser uma vantagem, o fato de Trump estar sofrendo processo de impeachment e poder perder as eleições do ano que vem é visto com cautela. Uma preocupação dos senadores brasileiros em relação à indicação de Eduardo, caso Trump deixe a Casa Branca, é em relação ao trânsito do filho de Bolsonaro com integrantes do Partido Democrata, de oposição a Trump.

Mercosul e UE: declarações de Bolsonaro e meio ambiente são entraves

Festejado na época do anúncio pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL), o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE) ainda precisa ser aprovado pelos parlamentos dos países e enfrenta dificuldades na Europa.

A comissária de comércio da União Europeia, Cecilia Malmstrom, já indicou que a crise em torno dos focos de incêndio na Amazônia pode afetar o diálogo em prol da ratificação absoluta. Declarações controversas de Bolsonaro sobre o caso da Amazônia acabaram servindo de combustível para quem é desfavorável ao acordo.

A avaliação é que o Brasil precisa reforçar o compromisso com a preservação do meio ambiente e o estímulo ao desenvolvimento sustentável. No momento, não há previsão de quando o acordo será analisado por todos os países implicados.

Sobre o tema, Ricupero avalia que o acordo está "congelado por muito tempo" se o Brasil não mudar a política perante a Amazônia.

Mês passado, o parlamento austríaco sugeriu veto ao tratado sob o argumento de que "a floresta tropical é incendiada na América do Sul para criar pastagens e exportar carne com desconto para a Europa".

Além disso, setores da França e da Irlanda, especialmente agropecuários, se opõem ao texto por interesses econômicos.

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