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Após caso George Floyd, EUA têm ataques de milícias e "vigilantes brancos"

Policiais federais enfrentam manifestantes durante um protesto contra a desigualdade racial e a violência policial em Portland, Oregon, EUA - CAITLIN OCHS/REUTERS
Policiais federais enfrentam manifestantes durante um protesto contra a desigualdade racial e a violência policial em Portland, Oregon, EUA
Imagem: CAITLIN OCHS/REUTERS

Alex Tajra

Do UOL, em São Paulo

09/09/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Após morte de Floyd, EUA registraram 64 casos de agressão por parte de membros de grupos de extrema-direita
  • Houve também 38 casos de pessoas que jogaram seus carros contra manifestações do Black Lives Matter
  • Os dados foram extraídos a partir de uma pesquisa do professor Alexander Ross, do Centro para Análise da Direita Radical

Enquanto o mundo assistia aos protestos antirracistas depois da morte de George Floyd, nos Estados Unidos, grupos de "vigilantes brancos" e milícias de extrema-direita se reuniam para "contramanifestações" em todo o país. Em três meses, foram pelo menos 497 atos públicos em oposição ao Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

Nestes movimentos, foram registrados pelo menos 64 casos de agressão e 38 incidentes de manifestantes que jogaram carros contra os protestos BLM, segundo levantamento feito pelo professor e pesquisador Alexander Ross, do Centro para Análise da Direita Radical nos Estados Unidos.

Os dados preliminares foram publicados pelo Huffington Post, e incluem nove casos de ataques com armas de fogo contra manifestantes antirracistas. Ao todo, seis pessoas foram baleadas e três morreram — duas delas em uma manifestação em Kenosha, no Wisconsin, no final de agosto.

Estes "vigilantes" normalmente são ligados a grupos supremacistas brancos e têm sido classificados pela imprensa norte-americana, incluindo o próprio Post e a CNN, como conservadores, em parte alinhados a ideias extremistas. Eles tendem a enxergar os protestos do BLM como um pressuposto para atos de vandalismo e destruição da propriedade.

Os dados elencados por Ross são ainda preliminares, e um mapa está sendo desenvolvido apontando para todos os conflitos que ocorreram nas cidades norte-americanas desde a eclosão dos protestos antirracistas.

O mapa aponta algumas localidades, como as cidades de Gresham (Oregon), Pasadena (Califórnia) e Seattle (Washington), que registram ao menos sete incidentes envolvendo os "vigilantes brancos" ou as milícias de extrema-direita, e figuram no topo da lista.

Mapa elaborado pelo pesquisador Alexander Ross, que elencou todos os incidentes envolvendo "vigilantes brancos" e milícias de extrema-direita nos EUA - Reprodução - Reprodução
Mapa elaborado pelo pesquisador Alexander Ross, que elencou todos os incidentes envolvendo "vigilantes brancos" e milícias de extrema-direita nos EUA
Imagem: Reprodução

Escalada de violência e protestos

A cidade de Kenosha, no Wisconsin, lidera uma segunda onda de protestos antirracistas pelo país após um caso de violência policial contra um homem negro chamado Jacob Blake. No levantamento de Ross, a cidade registrou seis incidentes do gênero, que envolvem "contramanifestações" destes vigilantes.

No último dia 24, em uma violenta abordagem, o policial branco Rusten Sheskey atirou sete vezes contra Blake em Kenosha. Ele foi atingido nas costas, está hospitalizado e corre o risco de perder os movimentos das pernas, segundo seu pai. A família alega que ele estava tentando separar uma briga quando foi alvejado. Milhares foram às ruas em novos protestos contra o racismo e a violência do Estado.

Durante uma dessas manifestações, Kyle Rittenhouse, 17, saiu às ruas da cidade com sua autoproclamada "milícia local" portando um fuzil de assalto tipo AR-15, mochila, boné para trás e o que aparentavam ser luvas cirúrgicas azuis.

Vídeos mostram o jovem de 17 anos e outros "vigilantes" andando entre os policiais sem ser questionado. As gravações teriam sido feitas na noite de terça-feira (25), antes de ele matar a tiros dois homens e ferir um terceiro.

A Divisão de Investigação Criminal do Departamento de Justiça de Wisconsin está apurando a atuação desta milícia de Kenosha e o assassinato em que Rittenhouse estaria envolvido. Ele foi preso e denunciado por homicídio. Alegou legítima defesa.

Na semana passada, o presidente Donald Trump comentou as mortes em Kenosha. Questionado por uma repórter, Trump não condenou Rittenshouse.

Levantamento desde 27 de maio

As informações sobre os ataques de vigilantes brancos e milícias de extrema-direita nos Estados Unidos estão sendo compiladas por Ross desde 27 de maio, dois após o assassinato de George Floyd por um policial branco em Minneapolis.

O estudo de Ross, ainda em progresso, envolve o monitoramento de redes sociais e de publicações sobre as contra-manifestações de direita nos EUA. As pesquisas nas redes sociais envolveram termos como "milícia armada", "vigilante" e "contra-protestantes".

"Acredito que estou subestimando o total, já que definitivamente existem incidentes que não são relatados e passam despercebidos", diz Ross ao UOL em uma entrevista por e-mail. "O ponto aqui é conseguir uma base de dados o mais robusta possível."

Os números mostram uma ascensão e diferentes modos e operação destes "vigilantes", desde milícias e grupos organizados até "lobos solitários".

"Lembro que, em junho, pensei que a taxa desses incidentes estava diminuindo. Eu estava errado. Houve alguns picos, para cima e para baixo, mas é possível falar que há um fenômeno mais ou menos consistente de um conflito prolongado de baixa intensidade e que, por vezes, transborda para uma violência descontrolada", afirma o pesquisador.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, a cidade de Gresham, fica no estado de Oregon. O texto foi corrigido.

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