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Internacional

Sem base científica, chanceler diz ser normal alta de mortes com vacinação

Carolina Marins

Do UOL, em São Paulo

05/03/2021 18h46Atualizada em 06/03/2021 07h44

Após o Brasil registrar dois recordes consecutivos no número de mortos pela covid-19 esta semana, o chanceler Ernesto Araújo normalizou a situação da pandemia no país. O ministro de Jair Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira ser "normal" o aumento de casos de infecção e de óbitos após o início da vacinação em massa — declaração que não tem sustentação científica.

Sobre os números de casos e morte, é muito trágico, mas aparentemente é normal após o início de uma vacinação em massa os casos subirem nos países e então abruptamente caírem"
Ernesto Araújo, ministro de Relações Exteriores

Especialistas alertam que ainda não há dados suficientes de vacinados para se observar o impacto nas curvas de contaminados e mortos. O único país a apresentar dados preliminares até o momento foi Israel, que registrou queda na contaminação e nas internações entre os idosos. Mesmo países como Estados Unidos e Reino Unido ainda não possuem dados suficiente para análise devido à baixa quantidade de pessoas vacinadas até então.

A declaração de Araújo foi dada em uma palestra sobre as relações entre o Brasil e os EUA, destinada a um público formado sobretudo por empresários americanos, no evento "Brazil-U.S. Relations: A Conversation with Ernesto Araújo" (Relações Brasil-EUA: Uma conversa com Ernesto Araújo), promovido pelo "Council of the Americas". O embaixador do Brasil em Washington, Nestor Forster, também estava presente.

O ministro ainda acrescentou acreditar ser possível que, em duas ou três semanas, o Brasil veja sua curva de casos cair semelhante aos demais países que estão aplicando vacinas. A fala, no entanto, vai de encontro ao que vem alertando médicos e pesquisadores. A previsão é que o Brasil tenha o pior mês em óbitos desde o início da pandemia.

O chanceler reconheceu que a velocidade da vacinação no Brasil tem sido aquém da necessária e comparou o ritmo da imunização local com a de outros países numa tentativa de mostrar que a situação brasileira não está ruim.

"A vacinação está ganhando velocidade. Claro que gostaríamos que fosse mais rápido. É lento se comparado com os EUA, mas se você comparar com a Europa não é tão lento. Os países europeus têm um pouco mais de 5% da população já vacinada. No Brasil temos cerca de 4%.

O Brasil vacinou até o momento 3,62% da população com apenas uma dose das vacinas de Oxford e CoronaVac. Na Europa, a porcentagem tem variado de 3% a 12% de vacinados com a primeira dose a depender do país.

Assim como o Brasil, a Europa tem chamado atenção pela lentidão na vacinação e líderes têm avaliado a promessa de ter 70% da população imunizada até o final do verão no Hemisfério Norte.

Na avaliação do ministro, o sistema de saúde brasileiro tem aguentado a pressão da demanda. "O sistema de saúde está sobrecarregado, mas está aguentando bem. Há alguns problemas em alguns estados, mas no geral o sistema está aguentando bem."

Após o Norte do país ver um colapso em seu sistema de saúde, agora o Sul e alguns estados do Nordeste também caminham para o mesmo destino. No Sudeste, São Paulo e Minas Gerais já manifestaram o risco de também ver seus sistemas cheios.

Alinhado ao que tem dito o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Araújo se mostrou contra o lockdown no país. "As pessoas querem tomar vacinas, mas também querem trabalhar. Há uma forte pressão popular para não ter lockdown ou acabar com os lockdowns que já foram impostos por alguns estados".

Questão climática

O chanceler celebrou durante todo o evento as relações entre Brasil e Estados Unidos, embora tenha evitado falar sobre a ruptura de sua estratégia de política externa após a chegada de Joe Biden ao poder

Ele voltou a dizer que o governo de Bolsonaro foi responsável por aproximar os dois países e rechaçou as críticas de que o Brasil não tem sido beneficiado pelos acordos feitos durante a administração de Donald Trump.

Hoje o maior ponto de preocupação entre especialistas e diplomatas a respeito da política externa brasileira é a ambiental. Araújo disse que ambos os países estão alinhados neste tema e citou a reunião que teve ao lado do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, com o enviado especial para o clima dos EUA, John Kerry.

"Estaremos juntos em tudo com a administração Biden", disse. "Estamos absolutamente juntos na questão climática, isso é importante de dizer. As conversas que eu e o ministro Salles tivemos com John Kerry mostraram que nós podemos trabalhar como parceiros centrais para implementar completamente intrumentos de acordos climáticos."

Estavam preocupados que isso poderia ser um impedimento para a continuação dessa aliança, isso foi tirado do caminho, estamos totalmente juntos nesse assunto.
Ernesto Araújo

"No geral, a disposição para cooperar na questão do desmatamento, por exemplo, está completamente na mesa. Disposição sobre o investimento significativo em desenvolvimento sustentável na Amazônia parece estar totalmente na mesa."

Na semana da reunião, o colunista do UOL Jamil Chade revelou que o encontro não foi visto com a mesma positividade pelos americanos. Os técnicos da administração Biden adotaram cautela e não se deixaram convencer com a versão do Brasil de que o governo de Bolsonaro está lidando de forma eficiente com o desmatamento no país.

Questionado sobre um possível encontro bilateral entre o presidente Jair Bolsonaro e Joe Biden, Araújo se limitou a dizer que possui "grandes esperanças" de isso acontecer e ainda brincou com os nomes de ambos: "eles têm as mesmas iniciais, J.B.".

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