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'Negros deveriam andar': imigrantes relatam racismo ao fugir da Ucrânia

1.mar.2022 - Desembarque de refugiados na estação ferroviária na cidade fronteiriça húngara-ucraniana de Zahony - Attila Kisbenedek/AFP
1.mar.2022 - Desembarque de refugiados na estação ferroviária na cidade fronteiriça húngara-ucraniana de Zahony Imagem: Attila Kisbenedek/AFP

Leonardo Martins

Do UOL, em São Paulo

03/03/2022 04h00

Para além da própria guerra e da destruição causada pelos ataques da Rússia à Ucrânia, imigrantes negros moradores de cidades ucranianas têm relatado racismo de autoridades de países da Europa que, segundo eles, estão insultando essas populações e dificultando a entrada delas nos países vizinhos.

Os relatos apontam desde horas esperando no final das filas para embarcar em trens para fora da Ucrânia até agressões físicas. Pelo menos 660.000 pessoas fugiram da Ucrânia nos cinco dias após o início da invasão da Rússia. A maioria é ucraniana, mas boa parte dos migrantes são estudantes ou trabalhadores vindos da África, Ásia e Oriente Médio.

Mapa Rússia invade a Ucrânia - 26.02.2022 - Arte UOL - Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Um homem identificado como Alexander Somto no Twitter publicou um vídeo, segundo seu próprio relato, gravado na fronteira da Ucrânia com a Polônia.

Nas imagens, que viralizaram nas redes sociais, viaturas bloqueiam uma estrada com policiais armados. Jovens aparecem nos vídeos gritando e avisando que são apenas estudantes.

  • Veja as últimas informações sobre a guerra na Ucrânia e mais notícias no UOL News com Fabíola Cidral:

"Veja como eles estão ameaçando atirar em nós! Estamos atualmente na fronteira Ucrânia-Polônia. Sua polícia e exército se recusaram a deixar os africanos atravessarem, eles só permitem ucranianos. Alguns dormiram aqui por 2 dias sob este frio escaldante", diz Alexander Somto na publicação.

A hashtag #AfricansinUkraine tem sido usada para denunciar casos de racismo semelhantes. Basta pesquisar no Twitter para encontrar vídeos de pessoas negras passando graves apuros para conseguir deixar a Ucrânia.

Um outro usuário publicou um vídeo em que homens negros discutem com um militar fardado em uma estação de trem. Ele afirma que os oficiais estavam barrando o embarque de africanos nas locomotivas.

Em entrevista à BBC, a estudante de medicina nigeriana Jessica Orakpo também diz que sofreu racismo ao tentar deixar a Ucrânia.

"Eu estava implorando. O oficial literalmente olhou nos meus olhos e disse, em sua língua: 'Apenas ucranianos. É isso'. Disse que se você for negro, você deveria ir andando", contou Orakpo ao jornal britânico.

O jornal norte-americano The New York Times conversou com Chineye Mbagwu, uma médica nigeriana de 24 anos, que disse ter ficado presa na fronteira da Polônia com a Ucrânia, na cidade de Medyka, porque autoridades deixavam apenas ucranianos cruzarem a fronteira.

"Os guardas ucranianos não nos deixaram passar. Eles estavam espancando as pessoas com paus. Batiam neles e os empurravam para o final da fila. Foi terrível", contou a médica.

Também ao Times, Taha Daraa, um estudante marroquino de 25 anos, disse que ele e seus colegas foram maltratados. Ele disse que viu guardas atirando para o ar para provocar o recuo de um grupo com outros dois marroquinos e africanos que tentavam sair da Ucrânia.

"Nunca senti tanto medo na minha vida. Ele nos pediu para voltar. A neve estava caindo sobre nós. À medida que a multidão aumentava, eles desistiram e deixaram todos passar", disse Daraa ao NYT.

O jornal inglês The Guardian publicou que grupos nacionalistas poloneses também começaram a divulgar falsos crimes atribuídos a imigrantes — desmentidos pela própria polícia polonesa.

A União Africana, organização internacional de países africanos, disse estar acompanhando essas denúncias de perto.

"Relatos de que africanos são selecionados para tratamento dissimilar inaceitável são chocantemente racistas e uma violação da lei internacional", diz o comunicado, assinado por Macky Sall, presidente da entidade e do Senegal, e por Moussa Faki Mahamat, presidente da Comissão da União Africana e ex-primeiro ministro do Chade.

Para a doutoranda em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (PPGRI-UERJ), Raquel Araújo de Jesus, os relatos refletem o racismo estrutural. "Isto tudo é constitutivo da própria ideia de modernidade, que surge na Europa, ao menos a partir do século XVI, e cujo projeto ordenador é estruturado em lógicas binárias, que contrapõe, por um lado, o 'eu' moderno, o sujeito europeu, branco, e o 'outro', a quem é negada a própria condição de humano através do processo de racialização", explicou.

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