Historiadora alemã acusa norte-americanos de milhares de estupros no pós-guerra

Klaus Wiegrefe

  • Creative Commons - Getty Images

    Capital do nazismo, Berlim sofreu grandes danos durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente na reta final do conflito

    Capital do nazismo, Berlim sofreu grandes danos durante a Segunda Guerra Mundial, principalmente na reta final do conflito

No imaginário popular, os soldados norte-americanos na Alemanha do pós-guerra eram bem vistos e comportados. Mas um novo livro afirma que os soldados norte-americanos estupraram até 190 mil mulheres no final da Segunda Guerra Mundial. Há alguma verdade por trás da afirmação controversa?

Os soldados chegaram ao anoitecer. Eles invadiram a casa e tentaram arrastar as duas mulheres para o andar de cima. Mas Katherine W. e sua filha de 18 anos, Charlotte, conseguiram escapar.

Os soldados não desistiram facilmente, no entanto. Eles começaram a procurar por todas as casas na região e, finalmente, encontraram as duas mulheres no armário na casa de um vizinho, pouco antes da meia-noite. Os homens as puxaram para fora e jogaram-nas em duas camas. O crime que os seis soldados perpetraram ocorreu em março de 1945, pouco antes do fim da Segunda Guerra Mundial. A menina gritava por socorro: "Mama. Mama". Mas ninguém veio.

Centenas de milhares, talvez milhões de mulheres alemãs tiveram um destino semelhante na época. Muitas vezes, essas violações em grupo foram atribuídas às tropas soviéticas no leste da Alemanha. Mas, neste caso, foi diferente. Os estupradores eram soldados dos Estados Unidos da América e o crime ocorreu em Sprendlingen, uma vila perto do rio Reno, no oeste.

Até o final da guerra, cerca de 1,6 milhão de soldados norte-americanos avançaram pela Alemanha até, por fim, encontrarem-se com os soviéticos no rio Elbe. Nos EUA, aqueles que libertaram a Europa da praga dos nazistas passaram a ser conhecidos como a "Grande Geração". E os alemães também desenvolveram uma imagem positiva dos seus ocupantes: soldados legais que distribuíam chicletes para as crianças e empolgavam as frauleins (senhoritas) alemãs com jazz e meias de nylon.

Mas será que esta imagem é consistente com a realidade?

A historiadora alemã Miriam Gebhardt, conhecida na Alemanha por seu livro sobre a líder feminista Alice Schwarzer e o movimento feminista, publicou uma nova obra lançando dúvidas sobre o papel dos EUA na história do pós-guerra alemão.

Relatórios do Arquivo Católico

O livro, que saiu em alemão na segunda-feira (2), estuda mais de perto o estupro das alemãs por todas as quatro potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial. No entanto, sua visão sobre o comportamento dos soldados norte-americanos em particular deve gerar espanto. Gebhardt acredita que integrantes das forças armadas norte-americanas estupraram cerca de 190 mil mulheres alemãs até a Alemanha Ocidental recuperar a soberania em 1955, sendo a maior parte dos ataques nos meses imediatamente após a invasão norte-americana da Alemanha nazista.

A autora baseia suas alegações, em grande parte, nos relatórios mantidos pelos padres da Baviera, no verão de 1945. O arcebispo de Munique e Freising havia pedido ao clero católico que mantivesse registros sobre o avanço aliado, e a arquidiocese publicou trechos do seu arquivo alguns anos atrás.

Por exemplo, Michael Merxmüller, um padre da vila de Ramsau, perto de Berchtesgaden, escreveu em 20 de julho de 1945: "Oito meninas ou mulheres estupradas, algumas na frente dos pais".

O padre Andreas Weingand, de Haag an der Amper, uma pequena vila localizada ao norte de onde fica hoje o aeroporto de Munique, escreveu em 25 de julho de 1945: "O evento mais triste durante o avanço foram três estupros: de uma mulher casada, de uma mulher solteira e de uma menina pura de 16 anos e meio. Eles foram cometidos por norte-americanos muito bêbados."

O padre Alois Schiml, de Moosburg, escreveu em 1º de agosto de 1945: "Por ordem do governo militar, uma lista de todos os moradores e suas idades deve ser pregado na porta de cada casa. Os resultados deste decreto não são difíceis de imaginar... Dezessete meninas ou mulheres... foram trazidas ao hospital, tendo sido abusadas sexualmente uma ou várias vezes."

A vítima mais jovem mencionada nos relatórios é uma criança de sete anos de idade. A mais velha, uma mulher de 69.

Fantasias machistas

Os relatórios levaram a autora do livro, Gebhardt, a comparar o comportamento do Exército norte-americano com os excessos violentos perpetrados pelo Exército Vermelho na metade oriental do país, onde a brutalidade, os estupros grupais e os saques dominaram a percepção pública da ocupação soviética. Gebhardt, no entanto, diz que os estupros cometidos na Alta Baviera mostram que as coisas não eram muito diferentes no sul e no oeste no pós-guerra da Alemanha.

A historiadora também acredita que os motivos eram semelhantes. Para ela, os soldados norte-americanos, assim como seus colegas do Exército Vermelho, estavam horrorizados com os crimes cometidos pelos alemães, amargurados com seus esforços inúteis e mortais para defender o país até o fim e furiosos com o grau relativamente elevado de prosperidade no país. Além disso, a propaganda na época transmitia a ideia de que as mulheres alemãs eram atraídas pelos soldados norte-americanos, alimentando ainda mais suas fantasias machistas.

As ideias de Gebhardt estão firmemente enraizadas no pensamento acadêmico atual. Na esteira do escândalo de tortura em Abu Ghraib e de outros crimes de guerra cometidos por soldados dos EUA no Iraque e no Afeganistão, muitos historiadores estão tendo um olhar mais crítico sobre o comportamento dos militares norte-americanos durante os dias que vieram logo antes e logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial na Alemanha. Estudos nos últimos anos lançaram luz sobre os incidentes envolvendo soldados que saquearam igrejas, assassinaram civis italianos, mataram prisioneiros de guerra alemães e violaram mulheres, mesmo enquanto avançavam pela França.

Apesar dessas descobertas, ainda se considera que os norte-americanos foram relativamente disciplinados em relação ao Exército Vermelho e aos militares franceses --uma opinião comum que Gebhardt espera questionar. Entretanto, a compilação de todos os relatórios elaborados pela Igreja Católica da Baviera só somam algumas centenas de casos.

Além disso, os clérigos frequentemente elogiavam o comportamento "muito correto e respeitável" das tropas norte-americanas. Seus relatórios fazem parecer como se os abusos sexuais cometidos pelos norte-americanos eram mais a exceção do que a regra.

Como, então, a historiadora chegou ao número chocante de 190 mil estupros? Há provas suficientes?

O total não é o resultado de uma profunda pesquisa em arquivos de todo o país. Pelo contrário, é uma extrapolação. Gebhardt faz a suposição de que 5% dos "filhos da guerra" nascidos de mulheres solteiras na Alemanha Ocidental e em Berlim Ocidental em meados da década de 1950 resultaram de estupros. Isso leva a um total de 1.900 filhos de pais norte-americanos. Gebhardt assume, ainda, que, em média, há 100 incidentes de estupro para cada nascimento. O resultado obtido, portanto, é de 190 mil vítimas.

Esse total, porém, não parece plausível. Se o número fosse tão elevado, é quase certo que haveria mais registros de estupro nos arquivos de hospitais ou das autoridades de saúde ou relatos de testemunhas. Gebhardt é incapaz de apresentar tais provas em quantidade suficiente.

Outra estimativa, do professor de criminologia norte-americano Robert Lilly, que examinou casos de estupro julgados por tribunais militares norte-americanos, chega a um total de 11 mil graves agressões sexuais cometidas até novembro de 1945, um número terrível por si só.

Mas Gebhardt certamente está certa em um ponto: por muito tempo, a pesquisa histórica tem sido dominada pela noção de que era pouco plausível a ideia de soldados norte-americanos cometendo estupros, porque as mulheres alemãs queriam pular na cama com eles de qualquer maneira.

Como, porém, deve-se interpretar a queixa apresentada por uma hoteleira em Munique no dia 31 de maio de 1945? Ela relata que soldados norte-americanos haviam confiscado alguns quartos e que quatro mulheres estavam "correndo completamente nuas" e eram "trocadas várias vezes". Seriam realmente voluntárias?

Mesmo que seja pouco provável que os norte-americanos tenham cometido 190 mil crimes sexuais, não é menos verdade que, para as vítimas de estupro pós-guerra --que foi, inegavelmente, um fenômeno de massa no final da Segunda Guerra Mundial--, não há "nenhuma memória nem reconhecimento público, muito menos um pedido de desculpas" por parte dos agressores, como observa Gebhardt.

E hoje, 70 anos após o fim da guerra, infelizmente não parece que essa situação vai mudar em breve.

Tradução: Deborah Weinberg

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