Uma visita a Kallstadt, o lar ancestral de Donald Trump

Kevin Hagen

  • Lisa Norman-Hudson/Reuters

    Pré-candidato republicano à Presidência, Donald Trump faz comício em Knoxville (EUA)

    Pré-candidato republicano à Presidência, Donald Trump faz comício em Knoxville (EUA)

A aldeia de Kallstadt é famosa na Alemanha por sua especialidade local: barriga de porco recheada. Também é o lugar que o avô de Donald Trump chamava de lar antes de emigrar para a América. Os moradores são ambivalentes sobre a política do homem e sua aposta na Presidência dos Estados Unidos.

Os EUA poderiam ser um lugar diferente hoje se não fosse pela aldeia de Kallstadt, no Estado alemão de Renânia-Palatinado (sudoeste). É um lugar sonolento, localizado a oeste de Mannheim, entre morros cobertos de vinhedos. Uma igreja se ergue no centro, rodeada por alguns bares e telhados vermelhos. A padaria local fecha no início da tarde.

Cerca de 1.200 pessoas chamam Kallstadt de lar. Os moradores gostam de fazer piadas e se orgulham de sua especialidade culinária: Saumagen, ou barriga de porco recheada. É o prato favorito do ex-chanceler Helmut Kohl, e dizem que ele costumava vir aqui para comprá-lo. Mas os habitantes se orgulham de sua família mais famosa? Afinal, a aldeia é o lar ancestral dos Trump.

"Meu pai é primo em terceiro grau de Donald Trump", diz Bernd Weisenborn, 54, parado na frente de seu restaurante com um grande sorriso no rosto.
Um vento gelado de janeiro sopra pelas ruas estreitas da aldeia, mas Weisenborn está de mangas curtas. Ele é louro, tem mãos fortes e óculos pendurados do pescoço.

Weisenborn, que é viticultor, resmunga que não sabe muito sobre seus ancestrais. Diz que seu pai falava de vez em quando sobre os antigos Trump, mas não era um assunto que surgisse com frequência.

Weisenborn diz que não se importa com a proximidade dos laços com Trump, o magnata dos imóveis bilionário que hoje disputa a Presidência dos EUA com uma retórica linha-dura.

Obviamente, é uma coisa especial quando uma pessoa famosa tem raízes no mesmo lugar de onde você vem, diz ele. Mas gostaria de conhecer Trump? "Sim, se surgisse a oportunidade", diz Weisenborn. E se Trump viesse visitar a cidade? "Eu não me incomodaria", acrescenta ele. Mas quando perguntado sobre a atual campanha de Trump, Weisenborn é decididamente menos entusiástico.

Uwe Anspach/EFE
Lápide da família Trump no cemitério de Kallstadt (Alemanha)

Trump, que atualmente instiga os sentimentos contra imigrantes nos EUA, também é um produto da imigração. A história remonta a 1885. Foi o ano em que as pessoas daqui afirmam que o avô de Donald Trump, Friedrich, fez as malas e partiu repentinamente para a América. Ele tinha 16 anos. Ao chegar, primeiro trabalhou em Nova York como barbeiro e depois foi gerente de hotel na costa oeste, antes de abrir um bar para garimpeiros em Yukon (Oklahoma). Friedrich comprou propriedades em Manhattan com o dinheiro que ganhou. Os lugares onde se situam hoje as torres brilhantes de Trump não valiam nada na época.

Mas Friedrich Trump voltou à Alemanha, onde se casou com Elisabeth, sua vizinha. Elisabeth queria ficar em Kallstadt, mas Friedrich não podia. O reino da Baviera, que controlava o Palatinado na época, declarou que Friedrich havia perdido a cidadania ao emigrar. Então, o jovem casal navegou para os EUA, onde, depois de alguns anos, Trump morreu. Para sustentar seus filhos, Elisabeth fundou a E. Trump & Son Company, cujas bases se tornariam o atual império imobiliário.

"Esta é a casa", diz Romy Feuerbach, apontando para uma construção modesta onde viviam os ancestrais de Trump. Uma placa azul no portão de entrada diz: "Deus vê tudo, mas meu vizinho vê ainda mais".

Feuerbach é uma funcionária municipal graduada. Seus óculos de aros vermelhos escurecem sob o sol. Quando fala sobre Kallstadt, os floristas da cidade, suas diversas organizações, ela sorri. "Este ainda é o tipo de aldeia onde todo mundo cuida dos outros." Quando o assunto de Donald Trump vem à tona, ela fica silenciosa, depois diz que não quer falar sobre política. "Não é que não nos importemos" com a conexão famosa da cidade, "apenas não damos muita importância a isso".

Hoje, em Kallstadt, o único lugar em que ainda se encontra o nome Trump é nas lápides. Não há informação sobre a família ou alguma rua que leve seu nome. Não muito tempo atrás, porém, a aldeia começou a redescobrir seu passado.

A jovem cineasta Simone Wendel, que também é parente distante dos Trump, fez um documentário sobre sua cidade natal em 2012, chamado "Os Reis de Kallstadt", que explorava seus filhos mais famosos. Além dos Trump, a família bilionária do ketchup Heinz também é originária da aldeia.

Durante a realização do filme, Wendel viajou a Nova York para entrevistar Trump. O bilionário aparentemente sabia muito pouco sobre o passado de sua família e disse a ela que nunca tinha visitado a aldeia. Depois da guerra, ele explicou, sua família afirmou durante muito tempo que vinha da Suécia. Mas Trump disse no filme de Wendel: "Eu amo Kallstadt".

Muitos moradores da cidade têm ligações familiares com os Trump. E alguns temem que esses elos possam se tornar incômodos se os comentários vulgares do político republicano chamarem uma atenção indesejada, especialmente de aldeias rivais. É costume na região as aldeias fazerem piadas sobre as outras, e as vizinhas de Kallstadt acusam seus moradores de serem fanfarrões. Estes não estão contentes com o fato de que Trump não desmente essa imagem.

"Ele é cheio de ar quente", diz uma vendedora em um açougue. "Não combina com nosso jeito", diz outra mulher que passeia com o cachorro. Sobre a campanha eleitoral de Trump, o viticultor Weisenborn diz que "não é algo de que a gente possa se orgulhar".

Mas há um homem na cidade que vê as coisas de modo um pouco diferente. Adolf Sauer, 75, de cabelos e bigode brancos, mora nos arredores da aldeia com sua mulher. A casa tem pratos de estanho pendurados das paredes e um armário pesado de carvalho em um canto. Sauer explica que ele também tem emigrantes em sua família. Embora não sejam parentes do pré-candidato presidencial, Sauer diz que gosta da história de Trump. Então, ele mostra um livro que ganhou de um amigo norte-americano: "Crippled America" (ou América aleijada), escrito por Trump.

Sauer não pretende lê-lo, porque não entende inglês. Mas ainda gosta da ideia de que alguém com um pouco do sangue de Kallstadt leve uma vida glamourosa nos EUA, apesar dos deslizes de Trump. Afinal, quando as pessoas em Kallstadt fazem coisas, tendem a fazer com grande dedicação, diz Sauer. Não é de surpreender, afirma, que alguém encontre a fama como resultado. Afinal, acrescenta: "Espero que Donald Trump se torne o chefe dos EUA".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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