Análise: Como uma mídia acrítica ajudou Trump a subir

Holger Stark*

Chefe da sucursal de "Der Spiegel" em Washington.

  • Rhona Wise/AFP

    O pré-candidato republicano Donald Trump dá entrevista após sua vitória nas primárias na Flórida (EUA)

    O pré-candidato republicano Donald Trump dá entrevista após sua vitória nas primárias na Flórida (EUA)

Donald Trump agride membros da mídia e quer limitar a liberdade de imprensa nos EUA, enquanto as explora para passar sua mensagem. Mas sua ascensão também pode ser atribuída às falhas dos jornalistas, que se mantiveram perturbadoramente acríticos por um tempo excessivo

A redatora da "Forbes" Clare O'Connor? "Boba." A repórter da AP Jill Colvin? "Um dos repórteres realmente ruins." A jornalista da CNN Sara Murray? "Absolutamente terrível." Arianna Huffington? "Palhaça liberal." A moderadora da Fox Megyn Kelly? "Uma piranha" com "sangue saindo dela em todo lugar."

Seria difícil superar os insultos que o pré-candidato presidencial republicano Donald Trump desferiu contra jornalistas mulheres. Trump é um chauvinista que não tolera críticas de mulheres autoconfiantes. Mas essas repórteres são apenas suas vítimas mais proeminentes. Trump exigiu a remoção de âncoras nos debates, processou canais de TV e durante suas aparições os jornalistas habitualmente se tornam alvo de ataques verbais. Em quase todos os seus comícios, há um momento em que ele faz uma pausa, aponta para os jornalistas espremidos atrás das barreiras da imprensa e diz: "Essas pessoas são miseráveis!"

Quanto mais esta eleição se estende, mais fica claro que esse candidato está mudando o relacionamento fundamental entre a mídia e o mundo da política americana. A esfera pública democrática, um dos pilares de toda democracia, está enfrentando duas ameaças: os ataques brutais de Trump e o fracasso da própria mídia.

Muitas redações não cumpriram seu dever democrático de monitorar Trump e realizar verificações e balanços, permitindo que saia impune de insultos, mentiras e promessas absurdas. Quando se trata de Trump, a esfera pública crítica se mostrou disfuncional com extrema frequência nos últimos meses.

Trump mantém uma relação esquizofrênica com a mídia. Por um lado, ele a explora para disseminar sua mensagem e propaganda. Por outro, só tem desprezo pelos jornalistas. Ele gostaria até de restringir a liberdade de imprensa, mais recentemente por meio de uma proposta para reforçar as leis de difamação, elevando as penalidades financeiras de tal modo que poderiam levar à falência organizações noticiosas inteiras.

A legislação proposta poderia ser descrita como uma arma dirigida aos críticos de Trump --ele citou até explicitamente como alvos "The New York Times" e "The Washington Post", dois dos jornais americanos que o vigiam de modo mais agressivo. A proposta oferece uma amostra do que seriam os EUA sob um presidente Trump. Hoje, os EUA se parecem um pouco com a Hungria.

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A eleição do Twitter

Trump também compreendeu melhor do que qualquer outro candidato como utilizar as redes sociais para contornar a esfera pública crítica. No Twitter ele tem hoje 6,7 milhões de seguidores, e mais de 1 milhão no Instagram. "The New York Times", em comparação, tem uma circulação total de cerca de 2 milhões.

Trump afirmou recentemente que ter sua conta no Twitter é como "ser dono do 'New York Times' sem os prejuízos". Ele adotou como política entreter seus seguidores regularmente, às vezes com mais de 20 tuítes por dia, o que lhe permite criar seu próprio fluxo de notícias.

O cálculo por trás disto é simples: com o Twitter e o Facebook, a mídia tradicional perdeu em parte sua função de guardas de portão. As redes sociais permitem a comunicação direta entre os políticos e a população. Os jornalistas não têm mais o monopólio da informação e da comunicação. Isso em si não é um mau avanço. A comunicação direta possibilitada pela internet é muito democrática, é claro --e até igualitária. Mas também pode resultar na perda de contexto, do discurso e da verificação de fatos normalmente associados ao debate político. Também desgasta a função de filtragem da mídia.

Barack Obama foi o primeiro político a utilizar esse princípio da comunicação direta durante sua campanha de 2008, e depois em seu período na Casa Branca. Mas Trump expandiu e aperfeiçoou esse método de contornar os jornalistas e assim criou sua própria esfera pública paralela, com seguidores totalmente dispostos a acreditar nele. E quando não tem mais argumento para atacar seus críticos ele pode escrever um tuíte duro e maligno afirmando que está simplesmente sendo atacado pela grande mídia liberal.

Não importa o que a mídia diga, se houver alguma dúvida é uma mentira. É a versão americana da "Lügenpresse", ou "imprensa mentirosa", uma acusação que se tornou comum durante os recentes protestos de direita na Alemanha.

Em seu desprezo pelo discurso democrático, Trump tem algumas semelhanças notáveis com o presidente russo, Vladimir Putin, que de certo modo serve como modelo para o americano. Putin disse certa vez a um jornalista francês que se ele sentia tanta pena das vítimas da guerra na Chechênia deveria se circuncisar. Era o discurso de Trump muito antes que o magnata dos imóveis tivesse pisado no cenário político.

Não é por acaso que Trump trata a Rússia com luvas de pelica. Ele diz que tem um bom relacionamento pessoal com Putin e que o russo é um líder nacional forte e marcante. Putin e Trump se unem no desprezo pela ideia de que uma esfera pública crítica faça parte de uma democracia funcional. Eles querem emitir ordens às pessoas, em vez de explicar as coisas. Esse desdém os torna fundamentalmente antidemocráticos. Até agora, porém, a revolta sobre o assunto nos EUA tem sido fraca.

Falha em conter Trump

Muitos canais de mídia americanos, especialmente as grandes estações de TV, viram Trump até agora como entretenimento. Nenhuma palavra é suja demais para ser posta no ar em algum lugar, e Trump tem uma presença na tela diferente de qualquer outro candidato.

O ex-presidente da Câmara republicano Newt Gingrich descreveu assim a mecânica desta eleição aos âncoras do programa "Fox & Friends", do arquiconservador canal Fox News: "Donald Trump se levanta de manhã, tuíta para o planeta inteiro sem custo nenhum, pega o telefone, liga para você, tem uma ótima conversa durante cerca de oito minutos, que lhe teria custado uma tonelada de dinheiro comercial, e enquanto isso seus adversários estão todos por aí tentando angariar dinheiro para publicar um anúncio".

Sobre o programa, que há muito oferece a Trump uma plataforma habitual, Gingrich disse: "Você poderia dizer que Trump é o candidato que o 'Fox & Friends' inventou".

Uma poderosa dinâmica de superioridade e subordinação surgiu entre Trump e alguns jornalistas que não deveria existir em uma democracia.

A reportagem investigativa é um dos elementos fundamentais da democracia. Ela existe para trazer à luz o tipo de informação que os poderosos muitas vezes prefeririam esconder. Em nenhum outro país essa tradição é tão forte quanto nos EUA, que foi o lar da investigação de Watergate.

Mas, quando se trata de Trump, o jornalismo investigativo falhou. Em comparação com Hillary Clinton nesta eleição, por exemplo, não houve grandes peças inovadoras de reportagem tratando de seu passado, seus graves erros financeiros e as falências que custaram muito ao Estado e à sociedade. Sobre a brutalidade que ele demonstra quando as pessoas o atrapalham. Quanto aos rumores sobre seus supostos laços com a máfia de Nova York. Sobre suas declarações de imposto de renda, que, ao contrário de todos os outros candidatos, ele ainda não divulgou.

Sua campanha prospera com base em sua aparência de figura todo-poderosa e empresário infalível. Suspeita-se que haja um outro Trump que opera no limite do que é permitido, e muitas vezes além dele. Mas a única imagem de Trump que existe é uma distorcida que ele criou e ele mesmo molda. A mídia não conseguiu corrigir essa imagem.

Por quê? Um importante jornalista de Washington afirma que é porque não foram só os jornalistas, mas também os estrategistas eleitorais dos outros candidatos, que subestimaram Trump. Normalmente, os diretores de cada campanha tendem a juntar o máximo de sujeira possível sobre seus adversários, que divulgam na hora certa. Isso não aconteceu com Trump, afirma ele, porque, como a maioria dos jornalistas, os outros candidatos acreditavam que Trump se queimaria sozinho. Ele afirma que muitas organizações noticiosas só recentemente despertaram. Talvez tarde demais.

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Herói improvável do noticiário

Vergonhosamente, foi a Fox News, de todos os lugares, que demonstrou que existe uma maneira diferente de lidar com Trump. O candidato ameaçou boicotar um debate na TV com seus adversários republicanos que a Fox exibiria pouco antes das primeiras assembleias partidárias em Iowa. O debate seria moderado por Megyn Kelly, que ousara fazer perguntas críticas a Trump em um debate anterior.

Antes do debate, o canal de TV divulgou uma declaração criticando Trump. Ele exigiu um pedido de desculpas. Se não viesse, ele não subiria ao palco. Roger Ailes, o poderoso chefe da Fox News, falou com Trump várias vezes ao telefone, mas não pediu desculpas e não retirou sua âncora. Kelly moderou o debate à noite e Trump não apareceu. Quatro dias depois, ele perdeu em Iowa.

Desde então Trump descobriu a conexão entre sua ausência da TV e seu resultado na assembleia. Ele participou do debate seguinte, organizado pela Fox no início de março. Megyn Kelly não se conteve, confrontou-o com citações de seus discursos anteriores que contradiziam suas posições atuais e o obrigou a admitir em público que é politicamente "flexível". Isso o prejudicou.

Não há garantia de que um confronto agressivo com Donald Trump levaria um número menor de pessoas a votar nele, ou mais pessoas a reconhecer seu estilo de política profundamente autoritário. A Fox, entretanto, mostrou a Trump como isso pode acontecer. Esperamos que na próxima vez que Trump se exaltar contra as minorias ou ameaçar membros da mídia os jornalistas presentes desliguem suas câmeras e deixem o recinto.

Se Trump realmente for o candidato de seu partido, ou, pior, se tornar o próximo presidente dos EUA, o dano à democracia seria significativo não só porque transformaria os EUA em um país autocrático, mas porque significaria que, nesta eleição, o princípio do escrutínio público teria falhado e, portanto, a democracia.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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