De saída da Casa Branca, Obama tenta reforçar seu legado

Marc Bassets

  • Yuri Gripas/Reuters

    Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, fala com jornalistas no Salão Oval da Casa Branca, em Washington (EUA)

    Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, fala com jornalistas no Salão Oval da Casa Branca, em Washington (EUA)

O presidente pretende ratificar no Senado o tratado de livre-comércio, conseguir a aprovação de Merrick Garland como novo juiz do Supremo e fechar a prisão de Guantánamo

Uma das tarefas de Obama consistirá em ajudar a equipe de seu sucessor no período de transição, um dos mais delicados na democracia dos Estados Unidos, visto que a interinidade na Casa Branca pode criar a impressão de um vácuo de poder.

Ao contrário de outros países, a passagem do bastão nos Estados Unidos não é imediata após as eleições. Há um extenso período no qual o antigo presidente ainda não saiu e o novo está por chegar. Entre esta terça-feira (8) e 20 de janeiro, dia da posse do próximo presidente, os Estados Unidos estarão em um caráter provisional.

Além da presidência, o Congresso também estará em estado provisório. Serão renovadas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 34 no Senado, de um total de cem. Muitos legisladores, como o presidente, estão de saída. A nova legislatura não começa até janeiro.

As sessões celebradas nesse período recebem o nome de "sessões do pato manco", no sentido de que se trata de um Congresso debilitado e sem futuro. Também se chama de "pato manco" o presidente em fim de mandato. Ou seja, nas próximas semanas coincidirão em Washington dois "patos mancos": Obama e o Congresso.

Obama teve dois mandatos de quatro anos para compor o legado que deixará. O que acontecer até janeiro não deverá modificá-lo de forma substancial, mas ele quer tentar. A pedra que Obama leva no sapato desde que chegou ao poder em janeiro de 2009 é Guantánamo, a prisão na base naval de mesmo nome em território cubano.

Depois dos atentados de 2001, os Estados Unidos prenderam ali suspeitos de combater pela Al-Qaeda e os talibãs. Guantánamo, símbolo dos excessos da administração Bush na chamada guerra contra o terrorismo, chegou a conter 780 presos. Hoje há cerca de 60 deles.

Em seu primeiro dia de trabalho como presidente, Obama assinou um decreto que estabelecia o fechamento de Guantánamo no prazo de um ano, mas a promessa foi frustrada. Primeiro, pelo obstrucionismo do Congresso, relutante ao translado para território americano de presos potencialmente perigosos. E segundo, pela distração do presidente com outras prioridades como a recessão econômica ou a reforma da saúde.

A questão, nas semanas do "pato manco", é se tentará encontrar cumplicidades no Congresso, que nesses oito anos não se materializaram, ou se procurará um caminho para fechar Guantánamo por decreto e enviar os presos restantes a outros países ou para os Estados Unidos.

Essa não é a única tarefa que ele assumiu para si. Ele também tentará aprovar no Senado o TPP, o tratado de livre-comércio com 11 países da bacia do Pacífico. Durante a campanha, Hillary Clinton se declarou cética quanto ao tratado, enquanto Trump o rechaçou frontalmente.

A outra prioridade é a votação de Garland, o novo juiz do Supremo. A maioria republicana no Senado se negou nos últimos meses a sequer considerar a nomeação, com o argumento de que o próximo presidente é que deveria nomear o substituto do falecido juiz Antonin Scalia.

Nos Estados Unidos, o Supremo modelou a sociedade americana tanto ou mais do que os presidentes. Por seu impacto político, a batalha pelo posto vago --e os outros que possam vagar nos próximos anos-- foi um dos argumentos da campanha.

Obama não deu sua presidência por acabada. Na próxima semana fará uma viagem que o levará até a Grécia, Alemanha e Peru, sua despedida de um mundo que, com exceções, viu sua vitória oito anos atrás como um sinal de esperança.

Depois ele deverá preparar tudo para a passagem de poder e o discurso de despedida, sua última oportunidade para se dirigir a uma nação na qual sua popularidade é alta (56%), e que começa a sentir saudades suas.

Tradutor: UOL

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