Oscar Niemeyer

Niemeyer, um dos grandes gênios da arquitetura mundial, foi guiado pela arte e paixão

Frédéric Edelmann

Uma das últimas grandes obras de Oscar Niemeyer, sem contar os desenhos e os sonhos, fica em sua querida cidade do Rio, o Sambódromo (1984). Essa invenção arquitetônica recebe o mais famoso carnaval do mundo. Vazia, a obra é desconcertante. Dependendo, ela lembra fragmentos de estádio enfileirados ao longo de uma estrada ou a linha reta das arquibancadas de um circuito da Fórmula 1, incluindo camarotes e frisas.  

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Niemeyer – e esse duplo, esse diabo que ele tinha em si – não conseguia imaginá-lo sem a multidão tórrida que o anima. Em fevereiro de 2012, ele assistiu em uma cadeira de rodas à reabertura do local agora fiel à simetria que ele queria lhe dar. E compatível com a realização em 2016 das provas olímpicas de tiro com arco e a chegada da maratona. Mas a última obra cuja realização ele pôde supervisionar foi o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (1996), uma taça de concreto de cor branca colocada sobre um rochedo à beira-mar, de frente para o Rio de Janeiro.

No filme de Marc-Henri Wajnberg para o canal Arte, "Un architecte engagé dans le siècle" (1999-2000), o museu se torna um disco voador, bem bobo, que gira tão rápido que não se consegue perceber a mediocridade do concreto. Se o Sambódromo se explica por sua função, o museu de Niterói se impõe por sua posição no cenário. 

O que o filme também revela é a surpreendente fortuna crítica de Niemeyer, que conheceu em vida o purgatório do artista e seu retorno à glória. E ele teve ciência disso? Nada indica que sim, nem em suas entrevistas com Édouard Bailby (1993), nem em suas memórias, "As Curvas do Tempo" (1999).  

Direto do croqui para a construção

Falecido em 1998, Lúcio Costa, urbanista de Brasília, não suportou bem o desencantamento sofrido pela nova capital. Altruísta mas narcisista, poeta lúcido, Niemeyer soube ver a lenta degradação da arquitetura brasileira, tão vigorosa e exigente até o início dos anos 1980. O Brasil possuía uma genialidade própria na arquitetura que tornava inútil a busca de uma especificidade local. Ele a imaginou por um tempo, antes de encontrar seu caminho em sua própria liberdade de estilo. Essa capacidade de invenção torna delicada a abordagem crítica de sua obra, sobretudo se nos limitarmos às suas construções francesas.

Para a sede do Partido Comunista Francês em Paris, com pendor para uma fortaleza proibida, Niemeyer imaginou um prédio ostensivamente fechado pelas cores do edifício de escritórios e ao mesmo tempo indicado pela singular cúpula que recobre a antiga sala do comitê central. A desenvoltura do conjunto, indiferente à topografia parisiense, hoje é aclamada.

Em Havre, ele adotou uma posição oposta, evitando qualquer conflito com a cidade reconstruída por Auguste Perret: ao enterrar a Casa de Cultura, ele lhe deu o espaço e a vida que ela não teria encontrado à sombra das torres do velho mestre francês.

No Brasil, foi a elegância que guiou seu lápis, quase que instintivamente, se considerarmos a passagem direita dos croquis para a construção, como ele pôde praticar em Brasília graças ao engenheiro Joaquim Cardoso. Teorizar sobre tais bases? Essa nunca foi a especialidade de Niemeyer, apesar de alguns artigos para a revista "Modulo". Isso também preservou sua liberdade.

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Tradutor: Lana Lim

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