Com apoio de policiais, cidade turca 'prospera' com tráfico de refugiados

Marie Jégo

  • Ayhan Avci/Cihan News via AP

    8.fev.2016 - Equipe trabalha no porto de Bakilesir (Turquia), no resgate de corpos de migrantes que se afogaram ao tentar chegar à Grécia pelo Mar Egeu

    8.fev.2016 - Equipe trabalha no porto de Bakilesir (Turquia), no resgate de corpos de migrantes que se afogaram ao tentar chegar à Grécia pelo Mar Egeu

Autoridades turcas encontram dificuldades para desmantelar as redes que formam economia paralela

Não adiantou a unidade da Guarda Costeira de Dikili, um pequeno porto pesqueiro na província de Izmir, aumentar o número de patrulhas. Os naufrágios têm ocorrido em um ritmo assustador no Mar Egeu. Na segunda-feira (8), 38 refugiados que tentavam a travessia para as ilhas gregas na baía de Edremit e ao largo de Dikili se afogaram. Metade das vítimas era de crianças.

Mais de dois meses após a assinatura do "plano de ação" entre a União Europeia e a Turquia, nada tem desencorajado os candidatos de partirem para a Europa. A cada dia, o Mar Egeu carrega os restos mortais de novos pequenos Aylan Kurdi, o garotinho que foi encontrado afogado em uma praia turca no dia 2 de setembro de 2015 e cuja foto comoveu o mundo inteiro.

No dia 27 de janeiro, 6 corpos, incluindo o de uma criança, foram resgatados ao largo da ilha grega de Kos. No dia 28 de janeiro, 25 corpos, sendo 10 de crianças, foram encontrados pela Guarda Costeira turca perto de Samos. No dia 30 de janeiro, 39 corpos, sendo metade de crianças, em um naufrágio no litoral turco, perto de Lesbos.

"Atividade lucrativa"

Todos os restos mortais encontrados na costa do Mar Egeu da Turquia estão reunidos no instituto médico-legal de Izmir, onde um número é atribuído a eles, bem como uma ficha com o DNA. Passados 15 dias, os corpos não reclamados são enviados ao cemitério de Dogançay, na parte alta de Izmir.

"Quarenta e quatro novos túmulos em quatro meses. Há muitas crianças", lamenta o imame Ahmet Altan, que administra o local. Ele mostra os pequenos túmulos numerados: "Não temos seus nomes, somente suas impressões genéticas".

Recentemente, graças ao depoimento de um sobrevivente, ele conseguiu dar nomes aos túmulos de cinco membros da família Humra, mortos no mar no dia 24 de dezembro de 2015, sendo um menino de 2 anos e um de 9 meses.

Em Bruxelas, as autoridades turcas se comprometeram a fazer o possível para desestimular as partidas. Desde então, as forças de ordem foram colocadas em estado de alerta, e os refugiados tiveram seus deslocamentos limitados. Em Izmir, terceira maior cidade da Turquia na costa egeia, os motoristas de táxi foram instruídos a não mais levarem passageiros para além dos limites da cidade.

Para acabar com esse problema, as autoridades turcas deverão ter de enfrentar um grande desafio, que é por um fim à atividade dos coiotes, que continua incrivelmente intensa. "Cerca de 400 mil refugiados vivem na região de Izmir. O negócio dos clandestinos se tornou uma atividade lucrativa", afirma Cem Terzi, cirurgião em Izmir.

Militante de uma associação local de ajuda aos imigrantes, o médico descreve transações financeiras bem estabelecidas: "Os refugiados raramente transportam consigo grandes somas de dinheiro. Em caso de sucesso na travessia, as somas devidas aos coiotes são pagas a partir de outros países, em contas abertas em bancos turcos por meio de laranjas. Basta um telefonema."

A trajetória do refugiado começa em Izmir, no bairro de Basmane, situado em torno da ferroviária. Com seus hotéis decadentes, suas sex shops em cores berrantes, seus salões de chá enfumaçados, o lugar é o ponto de encontro dos desarraigados. Os coiotes ficam lá, de olho nos mais ricos, e os recém-chegados logo são notados. Toda uma economia paralela foi criada, com o tráfico de humanos alimentando os comerciantes, os prestadores de serviços, os hoteleiros, os coiotes e suas redes de informantes, sem que a polícia realmente consiga contê-los.

Em Izmir, oficinas clandestinas começaram a fabricar grandes quantidades de coletes salva-vidas baratos, que são vendidos em todos os bazares, mas não oferecem nenhuma proteção. Após o afogamento de 36 refugiados que vestiam esses coletes falsos, a polícia turca prendeu cinco traficantes (três cidadãos turcos, dois portadores de passaportes argelinos) entre Dikili e Ayvalik. Uma oficina de fabricação ilegal de coletes foi desmantelada em Izmir.

Desde então, as lojas de Basmane não oferecem mais coletes salva-vidas para vender, pelo menos abertamente. Os botes infláveis não ficam mais expostos, mas oficinas clandestinas continuam os produzindo. No sábado (6), a polícia fez uma busca em três delas em Izmir.

Coiotes em plena luz do dia

Na saída de Bademli, um pequeno vilarejo pesqueiro escondido em meio a olivais, a 177 km de Izmir, agricultores podam árvores enquanto contam ter visto mais de uma vez os coiotes em ação em plena luz do dia nas baías de Tosyali e de Zindancik, situadas pouco abaixo.

"Eles mostram para um ou dois refugiados como se maneja o barco. Depois chegam os mini-ônibus com os passageiros, entre 40 e 60 pessoas, sendo que os botes são previstos para 10 ou 20. Se eles se recusam a embarcar, apanham. A Guarda Costeira patrulha quando o mar está revolto, senão ela os deixa passar", explica Yücel, trabalhador rural. Um comerciante de Bademli confirma: "Todo mundo tem sua parte no tráfico, sejam os comerciantes, os pescadores, as forças policiais..."

No dia 23 de janeiro, um sargento da Polícia Militar de Izmir foi preso junto com seis outros traficantes, sendo quatro turcos e dois argelinos. O policial ajudava os coiotes a contornarem os dispositivos de controle, entregando os planos das operações de vigilância e recebendo 3.000 euros (mais de R$ 13 mil) por cada travessia. A rede tinha suas raízes em Izmir, em Ancara e em Berlim, e seu desmantelamento foi possível através de uma cooperação entre a Turquia e a Alemanha.

A Guarda Costeira, em alerta, questiona a finalidade de sua missão. Um oficial que prefere se manter anônimo explica: "A Guarda Costeira, que inspeciona uma dessas embarcações, terá de levar seus passageiros à terra, registrá-los, fazer com que eles sejam alimentados e recebam cuidados. Depois eles precisarão ser escoltados até Izmir, onde, no final, serão soltos para poderem recomeçar alguns dias depois. Qual o sentido de tudo isso?"

No dia 29 de janeiro, os policiais de Dikili interceptaram dois mini-ônibus de refugiados que se encaminhavam para uma enseada. Eles foram levados para um ginásio onde alguns de seus companheiros de infortúnio se encontravam detidos há alguns dias. Quando o grupo tiver pessoas o suficiente, ele será transferido para Izmir e tudo começará de novo.

Tradutor: UOL

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