Jornalista sírio conta como sobreviveu na fuga pela estrada 'mais perigosa do mundo'

Benjamin Barthe

  • KARAM AL-MASRI/AFP

    Aleppo, cidade massacrada pela guerra na Síria

    Aleppo, cidade massacrada pela guerra na Síria

Alaa al-Jaber conseguiu deixar a cidade cercada de Aleppo, no dia 12 de julho, em meio a bombardeios do regime de Assad

O jornalista sírio Alaa al-Jaber foi salvo por um milagre. Esse jovem de 30 e poucos anos conseguiu sair, na terça-feira (12), dos bairros do leste de Aleppo, cercados pelas forças leais ao presidente Bashar al-Assad. Ele caiu nessa armadilha através da famosa estrada de Castello, nome de um restaurante hoje destruído, que marca seu ponto de partida, na periferia norte da metrópole.

Durante meses, essa estrada foi a última via de abastecimento das zonas rebeldes de Aleppo, onde vivem 200 mil pessoas, antes que as tropas de Assad se aproximassem no dia 7 de julho e interditassem o tráfego, ameaçando com seus canhões.

Sírios que tentaram fugir nos dias seguintes encontraram a morte ali dentro de seus veículos, destruídos por morteiros ou foguetes. "Sinto como se tivesse sobrevivido à estrada mais perigosa do mundo", exclama Jaber, em uma entrevista por telefone a partir da cidade de Gaziantep, no sul da Turquia, onde ele se refugiou.

Foi no dia 11 de julho que Alaa al-Jaber decidiu dar uma mãozinha a seu destino e sair de Aleppo, custe o que custasse, na companhia de três vizinhos. "Tinha a impressão de que o cerco ia durar e que precisava escapar, enquanto ainda era tempo", ele explica em bom francês, aprendido no Senegal, onde ele viveu nos anos 2000.

Foi uma decisão inspirada: no domingo (17), o Exército regular e seus aliados xiitas estrangeiros (libaneses, iranianos e iraquianos) venceram os 500 últimos metros que os separavam da estrada de Castello. Os setores rebeldes de Aleppo agora estão totalmente cercados.

"Nós rodamos até Sakhour, o último bairro antes da estrada de Castello", conta o jornalista. "Lá, homens armados nos pararam. Eles estavam de preto, com o rosto coberto, como os combatentes da Frente Al Nusra (afiliada síria da Al-Qaeda) e do Daesh (acrônimo árabe da organização Estado Islâmico), mas não havia bandeira que permitisse certificar sua afiliação. Eles nos trancaram em uma loja abandonada. 'Não façam perguntas, senão perderão a vida', ele diziam. Eles me criticaram por trabalhar com a imprensa ocidental. Entendi que eles eram próximos da Nusra."

Conheça a lista de castigos do Estado Islâmico

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"Corpos em decomposição"

Em setembro de 2015, enquanto trabalhava como correspondente da rede de televisão Halab Today, leal à oposição, Alaa al-Jaber havia recebido ameaças dessa formação jihadista. Por medo de ser sequestrado, ele havia deixado sua cidade uma primeira vez e entrado para a colônia de sírios exilados em Gaziantep, que se tornou a base de apoio dos grupos armados e das ONGs ativas no norte da Síria.

Na Turquia, ele havia servido de guia e de tradutor para vários jornalistas franceses, antes que o custo de vida, elevado demais, o obrigasse a voltar para Aleppo na primavera.

"Na terça-feira de manhã, meus três vizinhos foram soltos e desistiram de partir", diz Alaa al-Jaber. "Os homens de preto continuaram me interrogando, me perguntando se eu havia deixado entrar jornalistas ocidentais em Aleppo, o que neguei. Meus argumentos devem tê-los convencido e por fim eles me ofereceram a saída de Aleppo junto com vários deles, em uma de suas picapes. Aceitei. Primeiro esperamos duas horas até que os bombardeios se acalmassem. Depois, em vez de pegar a estrada de Castello sem proteção, que tem cerca de 5 km de extensão, o motorista encontrou um caminho mais discreto, através das fábricas desativadas à beira da estrada."

Aqueles que fugiram da "prisão" de Aleppo não eram os alvos diretos, mas bombas explodiam ao seu redor, a cerca de 500 m. A área está na mira tanto dos curdos do bairro de Sheikh Maksoud, a oeste, quanto das forças pró-regime, a leste.

"Nós voltamos a pegar a estrada de Castello propriamente dita pelos últimos 700 metros", continua Alaa al-Jaber. "O motorista acelerava com tudo, ziguezagueando entre os buracos abertos pelos bombardeios. Era metade do dia, e esperávamos que por causa do calor, os atiradores estivessem menos precisos do que o normal. Cruzamos com pelo menos sete carros carbonizados. Sentimos o cheiro de corpos em decomposição. Vi cadáveres que nenhuma ambulância se atrevia a vir buscar."

"Rezei para que Deus nos protegesse. Vi a morte, mas graças a Deus conseguimos passar. Esses 5km duraram 12 minutos, os mais longos da minha vida. Uma vez no vilarejo de Babis, a oeste de Aleppo, deixei os homens de preto. Peguei um outro carro, que me levou, após cinco horas de estrada, a Khirbet al-Joz, um pequeno vilarejo do monte Turkmen, que serve de ponto de passagem clandestino para a Turquia. Paguei ao coiote US$ 250 (R$ 820). Dois anos atrás, ele cobrava somente 100 libras turcas (R$ 112). Caminhamos pela floresta durante várias horas, e, apesar dos tiros dos agentes da fronteira, entramos na Turquia."

Nas prateleiras do leste de Aleppo, os legumes e ovos já começam a rarear. Os preços de produtos básicos, como pão e arroz, dispararam.

Além do desabastecimento, que pode se agravar em breve, há os bombardeios incessantes, que resultaram em cerca de 50 mortes durante o fim de semana, a maioria deles civis, segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos. Dez pessoas, incluindo crianças, também foram mortas nos bairros do oeste, controlados pelo governo, com tiros de morteiro vindo de posições rebeldes.

Mesmo tendo saído desse inferno, Alaa al-Jaber não se sente seguro. "Na Turquia, os jornalistas militantes como eu estão na mira do Estado Islâmico. Vários deles foram assassinados no meio da rua. Os turcos não têm como nos proteger. É por isso que quero ir embora, para a Europa ou para a África."

Tradutor: Lana Lim

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