Após 3 anos de recessão, desabastecimento dá lugar à miséria na Venezuela

Paulo A. Paranagua

Em Caracas

  • Federico Parra/AFP

    20.out.2016 - Mulher conta as muitas notas para pagar por compras em supermercado estatal na favela San José, em Caracas (Venezuela)

    20.out.2016 - Mulher conta as muitas notas para pagar por compras em supermercado estatal na favela San José, em Caracas (Venezuela)

Embora o governo Maduro minimize a gravidade da crise, a economia venezuelana está prestes a entrar em colapso; recessão já dura três anos, a inflação passa dos 700% e a pobreza extrema avança

Pela primeira vez, deputados chavistas e a oposição têm trocado argumentos cara a cara, em vez de injúrias à distância. A Assembleia Nacional, controlada pela oposição de centro-esquerda, decidiu se debruçar sobre a crise econômica e social que vem devastando a Venezuela. Para demonstrar o quanto a chegada ao poder do ex-presidente Hugo Chávez (1999-2013) beneficiou os trabalhadores, um de seus partidários exibe um infográfico que mostra o aumento contínuo do salário nominal. Já o economista e deputado da oposição José Guerra mostra na tela da câmara os números do salário real, cujo poder de compra caiu 30% em três anos. O salário mínimo agora é menor que o de todos os outros países da região, inclusive do Haiti, independentemente da taxa de câmbio utilizada.

"Não conseguimos entrar em um acordo quanto ao diagnóstico da situação", lamenta o deputado Guerra, entrevistado após essa sessão de 8 de novembro. Mas há urgência, pois a recessão já dura três anos e o produto interno bruto (PIB) venezuelano deverá cair mais 10% em 2015. A inflação ultrapassou os 700% por ano, o que explica a desvalorização dos salários. "A hiperinflação não é um fenômeno estático, mas sim um tsunami implacável", afirma Orlando Ochoa, economista da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), ela deverá chegar a 1.660% em 2017.

O controle de câmbio imposto há tempos resultou em um diferencial desastroso para um país que precisa importar todos seus bens de primeira necessidade: o dólar é comercializado a 2 mil bolívares no mercado paralelo para uma cotação oficial de 10 bolívares. Resultado: todas as grandes transações se fazem em dólares, seja para imóveis, carros ou passagens de avião. Essa "dolarização" agora chegou aos alimentos, uma vez que o governo autorizou a importação e a venda de artigos a preço de mercado internacional como paliativo para o desabastecimento.

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Desnutrição visível

A dívida pública (45% do PIB) é de US$ 130 bilhões (R$ 135 bilhões), sendo que metade corresponde às dívidas da estatal petroleira PDVSA, que se encontra à beira da falência. A produção caiu para 2 milhões de barris por dia (contra 3 milhões em 1998). Apesar de um primeiro aumento, a gasolina sempre foi vendida a um preço irrisório, de 6 bolívares o litro. A eletricidade também é quase gratuita, como se o Estado pudesse subsidiar o consumo de energia sob pretexto de que ele dispõe de imensas reservas de petróleo.

Infelizmente a PDVSA não investiu o suficiente na manutenção, na segurança ou na melhoria das instalações, o que reduziu a produtividade dos poços tradicionais, enquanto empresas estrangeiras suspendiam seus investimentos na faixa do Orinoco, a nova fronteira do petróleo. A Total, praticamente em stand-by, reduziu sua equipe ao mínimo. Embora a queda do preço do petróleo tenha tornado menos rentável a exploração das areias betuminosas do Orinoco, as incertezas políticas e a insegurança também pesaram bastante: "Nenhum aumento no preço do barril é capaz de estabilizar a economia", alega Ochoa.

Caracas faz questão de pagar ou renegociar suas dívidas, pois um calote levaria à apreensão de seus bens no exterior, inclusive os cargueiros, e levaria à suspensão das exportações de petróleo. Só que sem as entradas regulares de petrodólares e sem sua impressão imoderada de cédulas, o governo não conseguiria evitar o colapso econômico.

"Os venezuelanos estão sofrendo um ajuste macroeconômico silencioso", diz com revolta José Guerra. "Isso se traduz na precarização e no empobrecimento da população. As pessoas estão passando fome, algumas delas não hesitam em remexer o lixo. A desnutrição e a perda de proteínas já estão se refletindo na altura e no peso das pessoas."

O desabastecimento é visível a olho nu, uma vez que filas se formam, escoltadas por policiais para evitar confusões, em frente a cada padaria ou loja assim que se espalha a notícia de alguma entrega de mercadoria. No entanto, a venda de produtos a preços "dolarizados" aumenta as desigualdades. As famílias têm gasto 80% de sua renda com alimentação. "A classe média agora vive como pobre, enquanto os pobres se afundam na extrema pobreza", observa Henkel Garcia, diretor do site Econometrica.

Expropriações e preços regulados

Uma dona de casa do bairro popular de La Candelaria descreve o resultado de suas compras: "O frango está 2.800 bolívares o quilo, o queijo 5.590, a carne moída 3.890, a farinha para fazer arepas (panquecas de milho) 1.800, o arroz e a massa 2 mil, o açúcar 3 mil, o café 12 mil: como vou fazer com meu salário de 90 mil bolívares?"

O café está impossível de achar, sendo que antes ele constava entre as exportações da Venezuela. As expropriações e os preços regulados precipitaram, em toda parte, o colapso da produção nacional.

O deputado chavista Julio Chávez admite "a falência do modelo econômico dependente da renda petroleira", mas ele joga a responsabilidade sobre o setor privado e lamenta que não haja mais nacionalizações. "Eles estão no poder há 18 anos e nunca assumem sua própria responsabilidade", se irrita José Guerra. "A culpa é sempre dos outros, seja a queda do preço do petróleo, seja as empresas privadas que eles detestam."

Várias firmas estrangeiras deixaram o país após a moratória parcial decretada sobre a dívida comercial, que as impede de repatriar divisas. A Air France e a Air Europa estão entre as últimas companhias aéreas a operar em Caracas. A construção civil deixou inúmeras obras no papel, entre elas a ampliação do metrô da capital. A Alstom vem sofrendo com as dificuldades da brasileira Odebrecht, que obteve contratos sem licitação. "É uma prática habitual na Venezuela chavista, um dos Estados mais corruptos do planeta", lembra Mercedes de Freitas, que dirige a filial local da ONG Transparência Internacional.

Os economistas da Universidade Católica e da oposição elaboraram um plano de recuperação, mas duvidam que ele possa ser colocado em prática sem uma alternância política. O governo de Nicolás Maduro se recusa a ver que 80% dos venezuelanos o responsabilizam por seus sofrimentos e querem uma mudança. Ele chegou a recusar a ajuda humanitária oferecida pela organização católica Cáritas e por diversos países.

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Tradutor: UOL

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