Polícia britânica pede desculpas a mulher que foi atacada por vizinho que denunciou 125 vezes

Christina Cauterucci

  • Connel_Design/iStock

A inglesa Helen Pearson suportou quase cinco anos de assédio de seu vizinho Joseph Willis desde que ela recusou seu convite para sair, em 2009. Então ele começou uma incansável campanha de perseguição. Cortou os pneus do carro dela, danificou o veículo, deixou um gato morto à sua porta, vandalizou o bairro com a frase "Morra Helen" e enviou cartas que sugeriam ataques iminentes.

Ela o denunciou à polícia 125 vezes, até que ele a atacou furiosamente com um par de tesouras em 2013.

Agora, a polícia de Devon e Cornwall, que deixou de proteger Pearson de seu agressor, pediu desculpas pela negligência. Em um relatório produzido depois que a família de Pearson apresentou uma queixa, a polícia alega que "diversas falhas, tanto de indivíduos como organizacionalmente" [sic] levaram ao ataque de Pearson, relata o jornal "The Guardian".

"A investigação e o cuidado da vítima não cumpriram os padrões elevados que esperamos", acrescentou a polícia. Três policiais envolvidos no caso estão sendo investigados por má conduta.

"Isso não me adianta nada", disse Pearson sobre o pedido de desculpas e o relatório. "Ainda sofro todos os dias com o que me aconteceu." Willis foi julgado por tentativa de homicídio e hoje cumpre pena de prisão perpétua.

Casos como o de Pearson, em que um agressor causa ferimentos ou morte antes que seja levado à Justiça, são demasiado comuns. Uma pesquisa de 1999 feita por cientistas da Universidade Johns Hopkins e outras descobriu que 75% das mulheres vítimas de assassinato e 85% das vítimas de tentativa de assassinato foram perseguidas antes por seus agressores.

Segundo os resultados desse estudo, feito em dez cidades, a perseguição é uma previsão de futuro assassinato, mais que a violência íntima de parceiros.

Mas os órgãos policiais raramente fazem o suficiente para proteger os alvos de perseguição. O estudo de 1999 concluiu que mais da metade das mulheres assassinadas tinham relatado anteriormente o assédio de seus perseguidores, geralmente à polícia.

Nos EUA, onde mais de 15% das mulheres dizem que foram vítimas de perseguidores, esse não é um crime fácil de se processar. Alguns Estados exigem que a vítima demonstre medo de morte real ou ferimento grave, e não apenas perturbação emocional.

Alguns Estados afirmam que para que o assédio valha como perseguição teria de assustar uma "pessoa razoável" ou a própria vítima. Alguns exigem que a vítima prove que o perseguidor tem no fundo uma intenção específica.

Em todo caso, a vítima deve manter um registro detalhado do assédio, o que muitas vezes significa esperar por várias ameaças assustadoras, incidentes de perseguição ou espionagem na internet antes de poder prestar queixa.

Muitas vítimas podem não se sentir seguras ao relatar perseguidores à polícia. Em reação às novas políticas de imigração draconianas de Donald Trump, as mulheres de origem hispânica e sem documentos estão denunciando menos casos de abuso doméstico e violência sexual, por medo de ser deportadas.

Outras pessoas podem ficar frustradas com a inação, ou uma sensação de que não são levadas a sério --nem todo mundo tem vontade ou é capaz, como Pearson, de fazer 125 denúncias.

Um relatório do Departamento de Justiça revelou que 3% das vítimas de perseguição denunciaram seus algozes à polícia mais de 15 vezes. Quantas desistiram antes do 15º incidente de assédio?

O estudo do Departamento de Justiça também relata que a metade das vítimas que denunciaram seus perseguidores à polícia sente que sua situação não mudou nada depois das queixas. As outras tinham a mesma probabilidade de achar que sua situação piorou ou melhorou depois de contatar os órgãos policiais.

As vítimas de assédio na internet têm probabilidade ainda menor de encontrar justiça pelos meios tradicionais. Uma especialista em ciberassédio disse à revista "Atlantic" em 2014 que conhecia apenas três ou quatro casos em todos os EUA em que um alvo de ameaças, espionagem e assédio online conseguiu indenização em um processo civil contra o perseguidor.

A Suprema Corte votou por grande maioria a reversão da condenação naquele ano de um homem cujas postagens violentas no Facebook pareciam ameaças de morte a sua ex-mulher.

O caso de Pearson é radical; poucas pessoas teriam a força e a capacidade emocional de documentar obstinadamente cinco anos de abusos e fazer em média duas queixas à polícia por mês, enquanto seu perseguidor continuava em sua escalada de assédio.

Mas o caso deveria servir de lição para policiais e assistentes sociais de todo lugar, um lembrete de que a perseguição é muitas vezes precursora de crimes muito mais graves, e que os temores de uma vítima podem ser um indício útil de futuros danos.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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