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A trajetória de Chávez, do garoto pobre ao político que polarizou um continente

Simon Romero

06/03/2013 02h34

Hugo Chávez, que ascendeu da pobreza em uma casa de adobe e chão de terra até uma influência sem igual na Venezuela como seu presidente, consolidando o poder e fazendo uso das reservas de petróleo do país como ferramenta para suas mudanças de inspiração socialista, morreu na terça-feira, anunciou o vice-presidente Nicolás Maduro. Ele tinha 58 anos.

Maduro disse que Chávez morreu em um hospital militar em Caracas, onde estava sendo tratado das complicações resultantes de sua longa luta contra o câncer.

Com o dom de oratória de um televangelista, Chávez liderou um movimento nacional que atacava o governo dos Estados Unidos, os venezuelanos ricos e seus próprios seguidores desiludidos, a quem ele frequentemente rotulava de traidores.

Ele foi um sonhador com apelo junto às pessoas comuns e com uma ambição enorme. Ele manteve uma conexão quase visceral com os pobres, explorando o ressentimento deles, ao mesmo tempo em que andava empertigado como um homem forte de um romance de caudilho. Seus seguidores o chamavam de Comandante.

Mas ele não foi uma figura comum. Ele cresceu pobre em um país rico em petróleo que prezava o consumo ostentoso. Ele foi um homem de origem miscigenada – africano, indígena e espanhol – que desprezava a estrutura de poder dominada pelas elites europeizadas. Como soldado, ele detestava caçar os guerrilheiros, mas não teve escrúpulos em pegar em armas para tomar o poder, como ele e um grupo de co-conspiradores militares tentaram sem sucesso em 1992. Mesmo assim, ele chegou ao poder por meio de eleições democráticas, em 1998.

No poder, ele subverteu a ordem política doméstica e fez uso da receita do petróleo para financiar Estados clientes na América Latina, notadamente a Bolívia e Nicarágua. Inspirado por Simón Bolívar, o aristocrata venezuelano que liderou as guerras pela independência da América do Sul no século 19, Chávez buscava unir a região e minar a influência de Washington.

"As pretensões hegemônicas do império americano estão colocando em risco a própria sobrevivência da espécie humana", ele disse em um discurso em 2006 na ONU. No mesmo discurso, ele chamou o presidente George W. Bush de "o diabo".

Por anos, ele teve sucesso em coibir a influência americana. Ele injetou vida em Cuba, o único país comunista do hemisfério, por meio de assistência econômica; seu líder revolucionário, Fidel Castro, não foi apenas um aliado, mas também uma inspiração. Ele forjou uma aliança bolivariana com alguns dos países exportadores de energia da América Latina, como o Equador e a Bolívia, e aplaudiu quando eles expulsaram os embaixadores americanos, assim como ele fez. Ele promoveu um maior controle estatal sobre a economia da Venezuela, ao nacionalizar dezenas de ativos de propriedade estrangeira, incluindo projetos de petróleo controlados pela Exxon Mobil e outras grandes empresas americanas.

Apesar de enfrentar oposição em casa, ele desfrutava de grande apoio, em parte ao visitar as favelas para construção de clínicas de saúde dotadas de médicos cubanos e lojas do governo que vendiam alimentos subsidiados. Esses e outros programas de bem-estar social podiam ser corruptos e ineficientes, mas eles fizeram os pobres se sentirem incluídos em uma sociedade que por muito tempo os ignorou.

Ao mesmo tempo, ele estava determinado a manter e ampliar seu poder. Ele se tornou obcecado por mudar as leis da Venezuela para assegurar indefinidamente sua reeleição e se tornou, de fato, um caudilho, às vezes capaz de governar por decreto. Ele celebrou seu passado como oficial militar e encheu seu governo de generais, coronéis e majores, inspirado pelos oficiais militares esquerdistas que governaram o Peru e o Panamá nos anos 70.

Um aparato de governo bizarro, submisso aos seus caprichos, se formou ao seu redor. As câmeras das emissoras estatais de TV registravam cada aparição pública dele, muitas delas feitas de surpresa, anúncios improvisados, frequentemente trajando uniforme militar e sua boina vermelha de soldado-paraquedista. Ele podia protestar contra o alto consumo na Venezuela de uísque escocês - ele não bebia álcool, diziam seus assessores – ou contra a grande procura por cirurgia para aumento das mamas. Certa vez ele surpreendeu os cidadãos ao decretar um novo fuso horário para o país, meia hora atrás do anterior. Ministros de governo se abanando ficavam sentados durante seus sermões televisionados, enquanto ele os intimidava por objetivos não cumpridos.

O Dr. Edmundo Chirinos, um psiquiatra que conheceu Chávez como paciente, o descreveu em um perfil para o "New York Times" em 2001 como sendo "um homem hiperativo e imprudente, não pontual, alguém que reage exageradamente às críticas, nutre ressentimento, é politicamente astuto e manipulador, detentor de tremendo vigor, nunca dormindo mais do que duas ou três horas por noite".

Chávez tinha prazer em enfurecer seus críticos nos países ricos. Ele encheu de elogios, por exemplo, Ilich Ramírez Sánchez, o terrorista venezuelano mais conhecido como Carlos, o Chacal, com quem se correspondia.

"Eu o defendo", disse Chávez sobre seu amigo, que estava preso na França pelo assassinato de dois policiais franceses e um informante libanês em Paris, em 1975. "Eu não me importo com o que digam amanhã na Europa."

Nenhum mentor deu mais apoio do que Fidel Castro, que entendia muito bem quão importante era o envio de petróleo subsidiado da Venezuela para a frágil economia de Cuba. Um aliado desde o início da presidência de Chávez em 1999, ele ofereceu ajuda em um dos momentos mais difíceis de Chávez, um golpe de Estado que o tirou do poder por 48 horas em abril de 2002. Castro telefonou para os altos oficiais militares da Venezuela, os pressionando a ajudarem Chávez a retornar ao seu cargo.

Exercendo o poder
O fracasso do golpe, que acredita-se que tenha recebido apoio tácito do governo Bush, e o rápido retorno de Chávez ao poder sinalizaram uma mudança em sua presidência. Aparentemente tendo aprendido a lição, Chávez prometeu concessões e harmonia no futuro. Mas em vez de reconciliação, a resposta dele foi retaliação.

Ele começou a descrever seus críticos como "golpistas", ao mesmo tempo em que começou a tratar seu golpe fracassado em 1992 como sendo um levante patriótico. Ele demitiu seus oponentes da companhia estatal de petróleo, expropriou terras de outros e prendeu oficiais militares reformados que ousaram se erguer contra ele. O debate político no país se tornou cada vez mais tóxico, a um custo sério para o país.

Os investidores privados, incomodados com as nacionalizações e ameaças de expropriação de Chávez, suspenderam projetos. Centenas de milhares de cientistas, médicos, empreendedores e outros cidadãos da classe média partiram da Venezuela, ao mesmo tempo que um grande número de imigrantes do Haiti, China e Líbano se estabeleciam aqui.

A taxa de homicídios subiu às alturas durante seu governo, transformando Caracas em uma das cidades mais perigosas do mundo. Gangues armadas davam as cartas nos presídios, como faziam em governos anteriores, desafiando a autoridade do Estado. Tarefas simples, como a transferência do documento de um carro, permaneciam odisseias de pesadelo, aliviadas apenas com o pagamento de propina para burocratas grosseiros.

Outros setores do governo sempre se curvavam à sua vontade. Ele demitiu cerca de 19 mil funcionários da PDVSA (Petróleos de Venezuela SA), a companhia estatal de petróleo, em resposta a uma greve em 2002 e 2003. Em 2004, ele destituiu a Suprema Corte de sua autonomia, minando a independência do Judiciário. Os oponentes diziam que eram frequentemente discriminados nos negócios envolvendo o governo. E nas eleições legislativas em 2010, seus apoiadores mantiveram a maioria na Assembleia Nacional por fraude eleitoral.

Enquanto isso, Chávez reescrevia as regras sobre o uso da mídia para ampliar seu poder. Como o "Aló Presidente", seu programa de televisão dominical, ele falava por horas com os telespectadores. Seu governo ordenou que as emissoras de televisão privadas transmitissem seus discursos. Apesar de inicialmente ver as redes sociais com ceticismo, ele adotou o Twitter, atraindo milhões de seguidores.

Ele também desfrutava dos confortos que a condição de chefe de Estado de uma nação com algumas das maiores reservas de petróleo fora do Oriente Médio lhe proporcionavam. Ele viajava em um luxuoso Airbus A-319, completo com uma sala de estar privada. Em um passeio pela Venezuela em 2007 com o ator Sean Penn, ele percorreu o avião regalando os jornalistas estrangeiros a bordo com histórias de seus tempos como soldado e alegando que a inteligência americana estava rastreando seus movimentos por satélite.

Esse passeio foi um raro vislumbre de um homem –casado duas vezes e pai de quatro – que guardava sua privacidade. Na maior parte das vezes seu governo nem mesmo dizia em que residência oficial ele dormiria, apesar de seus assessores terem revelado que ele fumava cigarro na privacidade e gostava de café; em um ponto no início de sua presidência, ele chegou a consumir até 26 xícaras de café espresso por dia.

Chávez entendia o valor do humor em seus discursos e o usava livremente. Mas ele também foi um mestre dos insultos políticos. "Apátrida" e "esquálido" – apenas dois dos termos pejorativos que ele usava para seus oponentes – se tornaram parte do vocabulário venezuelano. Outro insulto foi usado contra aqueles que ele via como imitando os costumes culturais norte-americanos. "Pitiyanqui", ele os chamava, que poderia ser traduzido como "ianquezinhos".

A ascensão de um rebelde
Hugo Rafael Chávez Frias nasceu em 28 de julho de 1954, o segundo dos seis filhos de professores primários que viviam em uma casa de adobe em Sabaneta, uma cidade no Estado venezuelano de Barinas, no oeste, uma região conhecida por suas fazendas de gado. Seus pais pobres o enviaram com seu irmão mais velho, Adán, para viver com a avó. Chávez jogava beisebol quando era menino, antes de se matricular na academia militar da Venezuela aos 17 anos.

Após se formar, ele se juntou à unidade de contra insurreição que patrulhava o Estado de Anzoátegui, no leste da Venezuela, com a tarefa de combater um grupo rebelde maoísta chamado "Bandera Roja" (Bandeira Vermelha). Lá, no final dos anos 70 e início dos anos 80, Chávez, na época um oficial de comunicações, começou a reclamar do tratamento brutal dado aos guerrilheiros e a questionar a desigualdade na sociedade venezuelana, que o Bandera Roja esperava eliminar.

Logo ele ajudou a criar uma célula clandestina de jovens oficiais de mentalidade semelhante dentro do exército, com base nas orientações de Douglas Bravo, um líder guerrilheiro esquerdista que defendia o uso das reservas de petróleo do país como ferramenta para mudanças radicais. Ele chamou seu grupo de Movimento Bolivariano Revolucionário.

Lendo vorazmente sobre a história venezuelana e a política global, Chávez começou a articular uma ideologia nacional, assim como Castro fez em Cuba. Um de seus biógrafos, Cristina Marcano, disse que Chávez disse ter sido influenciado pelo "Livro Verde", o tratado político em três volumes do coronel Muammar Gaddafi da Líbia.

Assim que assumiu o poder, Chávez estabeleceu laços com Gaddafi e outros líderes do Oriente Médio que usavam de modo semelhante os recursos do petróleo para escorar governos nacionalistas.

Aqueles que conheciam bem Chávez, antes dele sair do anonimato durante a tentativa fracassada de golpe de 1992, viram outro lado de seu desenvolvimento intelectual.

Herma Marksman, uma professora de história que foi amante de Chávez de 1984 a 1993, disse que ele adorava que ela lesse para ele os livros em voz alta enquanto ele dirigia a esmo pelas ruas de Caracas. "Ele se agarrava a cada palavra, especialmente se fosse ficção de autoria de García Márquez", disse Marksman em uma entrevista de 2006, referindo-se ao escritor colombiano ganhador do Nobel, Gabriel García Márquez.

Ao longo dos anos 80, Chávez e seus companheiros conspiradores aguardaram pelo momento certo para tentar tomar o poder. Os venezuelanos estavam ficando cada vez mais rebeldes com um sistema político permeado de corrupção e dominado por dois partidos – o Copei, um grupo democrata cristão, e o Ação Democrática. A queda nos preços do petróleo nos anos 80, juntamente com anos de má gestão fiscal, deixaram a Venezuela perpetuamente à beira da crise. Em 1989, centenas morreram em protestos contra o governo.

'Por Ahora'
Em fevereiro de 1992, Chávez e seus associados do exército decidiram que era hora de agir. A rebelião deles ganhou um controle tênue sobre várias cidades importantes, incluindo Maracaibo e Valencia, mas Chávez, no comando de cinco unidades do exército, não conseguiu capturar a capital, Caracas. O presidente Carlos Andrés Pérez conseguiu evitar a captura. Chávez, ciente de que o golpe tinha fracassado, se rendeu.

Mas antes de sua rendição, ele fechou um acordo astuto que abriu o caminho para sua ascensão mais à frente na década; ele persuadiu as autoridades a deixarem que ele aparecesse brevemente na televisão. Magro em seu uniforme de oficial e usando uma boina, ele olhou para a câmera e se dirigiu aos seus apoiadores.

"Companheiros, infelizmente, por ora, os objetivos que estabelecemos para nós mesmos não foram possíveis de ser atingidos", ele disse, acrescentando que "novas possibilidades surgirão de novo". As duas palavras, "por ora", ficaram gravadas nos venezuelanos.

Ele e os outros oficiais rebeldes foram enviados para corte marcial e Chávez foi enviado para a prisão. Mas dois anos depois ele foi solto pelo presidente Rafael Caldera em cumprimento a uma promessa eleitoral. Após sair da prisão, Chávez se divorciou de sua esposa, Nancy Colmenares. Ele deixa três filhos, Rosa Virgínia, María Gabriela e Hugo Rafael; e outra filha, Rosinês, de seu segundo casamento, com Marisabel Rodríguez, que o deixou em 2002.

Após sua soltura, Chávez passou 100 dias percorrendo a Venezuela, formando uma ampla coalizão de apoio. Após fundar um partido político, o Movimento Quinta República, ele concorreu à presidência em 1998, em um momento de intensa insatisfação com a elite política venezuelana. Ele derrotou facilmente seus rivais, Henrique Salas Romer, um economista formado em Yale, e Irene Sáez, uma ex-Miss Universo.

Na época de sua ascensão, Chávez conseguiu obter apoio para uma nova Constituição. Mas suas tentativas de consolidar o poder plenamente seriam bloqueadas, à medida que persistia a oposição ao seu governo.

Ainda assim, ele criou o que poucos achavam possível em uma economia de mercado no início do século 21: uma estrutura de governo apoiada em torno de uma única personalidade obstinada e volúvel – um homem que parecia acreditar em seu próprio mito. Entre as viagens para Cuba para tratamento do câncer, essa força da personalidade o ajudou a vencer a campanha para reeleição em outubro de 2012. Em uma referência às planícies de sua terra natal, ele agradeceu aos "espíritos da savana" por lhe ajudarem a resistir, como se sugerisse que apenas as forças da natureza poderiam subjugá-lo.

Até mesmo um revés só o encorajava. Após ser derrotado inesperadamente em um referendo da reforma constitucional em 2007, ele recordou os cidadãos de que seus esforços para implantar uma nova ordem não tinham acabado. Em outdoors por toda Caracas apareceram as palavras "por ora".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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