Políticos do Brasil costumam fazer papel de palhaço em propagandas

Simon Romero

No Rio de Janeiro

  • Reprodução

    12.ago.2014 - Em horário eleitoral, Tiririca faz paródia com Friboi e Roberto Carlos

    12.ago.2014 - Em horário eleitoral, Tiririca faz paródia com Friboi e Roberto Carlos

Um auditor voa pelo ar como o Superman, disparando raios laser de seus olhos. Um palhaço encarna um astro pop septuagenário. Uma dermatologista conclui um discurso irado simplesmente gritando para os espectadores, "Meu nome é Havanir!"

Sim, é época de campanha eleitoral no Brasil, uma democracia vibrante onde os candidatos à margem são uma tradição resistente e o desencanto com o sistema político é grande. Para superar a confusão e chamar a atenção dos eleitores, os candidatos estão apresentando algumas mensagens de campanha de cair o queixo --propagandas que em outros lugares poderiam ser confundidas com peças de arte conceitual ou divagações de mentes perturbadas.

"O método genérico, neutro, de apelar aos eleitores é uma forma medíocre e fracassada de fazer política", disse Paulo Batista, um auditor imobiliário que se descreve como libertário, que está concorrendo a deputado estadual em São Paulo.

As propagandas de Batista, nas quais aparece como um super-herói usando sua visão de laser para privatizar trens do metrô dilapidados, são populares no YouTube. E fazem parte de um subgênero crescente de propagandas que se inspiram nas páginas de histórias em quadrinhos. Outro exemplo recente: o candidato a vereador de Catalão que se vestia como Homem-Aranha e derrotava os patifes usando uniformes listrados de prisão com golpes precisos.

E há as propagandas de candidatos que expressam uma profunda indignação com o status quo, como as de Tiririca, um palhaço de 49 anos cujo nome artístico significa "irritado". (Seu nome verdadeiro é Francisco Everardo Oliveira Silva.) Em suas propagandas de televisão deste ano, ele faz uma imitação de fazer encolher de Roberto Carlos, o titã de 73 anos da música popular brasileira. Ele está concorrendo contra o sistema, apesar de estar buscando a reeleição: os eleitores de São Paulo o elegeram como o deputado federal mais votado em 2010.

"Há uma rica história dos eleitores brasileiros expressarem seu descontentamento nas urnas", disse David Fleischer, professor de ciência política da Universidade de Brasília. Em 1959, o Cacareco, um rinoceronte de um zoológico brasileiro, recebeu mais de 90 mil votos como candidato a vereador de São Paulo, superando todos os candidatos humanos na disputa.

Um pioneiro mais recente foi Enéas Ferreira Carneiro, um cardiologista neofascista com barba longa escura, ao estilo ZZ Top, que fundou o Partido da Reedificação da Ordem Nacional, conquistando uma cadeira no Congresso em 2002 com 1,5 milhão de votos. Suas raivosas propagandas de televisão terminavam com a mesma frase rosnada: "Meu nome é Enéas".

Enéas morreu em 2007, aos 68 anos, mas outros candidatos continuaram imitando seu estilo, incluindo Havanir Nimtz, uma dermatologista de 60 anos de São Paulo que está concorrendo a deputada federal neste ano. Ela passa sua mensagem em um discurso veloz e termina gritando seu nome para os espectadores.

Candidatos de todo tipo podem exibir essas propagandas no Brasil porque a legislação obriga as emissoras de televisão a fornecerem horário gratuito aos candidatos durante a campanha. Restando um mês antes da eleição de 5 de outubro, assistir TV no horário nobre aqui pode ser uma experiência surreal. Às vezes as propagandas malucas levam um candidato à vitória, como aconteceu com Tiririca, o palhaço. Mas na maioria das vezes não parecem ajudar, mesmo em um país onde o voto é obrigatório e o espectro político está fragmentado entre mais de 20 partidos representados no Congresso.

Dado os apelidos que alguns candidatos adotam para se destacar na multidão, isso não causa surpresa. Entre a safra deste ano há propagandas de candidatos com apelidos como Bin Laden, Barack Obama e Jesus.

E há Nancildo Luiz da Silva, um vendedor de rua concorrendo a deputado estadual em Pernambuco, um Estado no Nordeste do Brasil. Em suas propagandas, ele chama a si mesmo de Dengue, a doença dolorosa e às vezes fatal transmitida por mosquito. "Vote em Dengue", ele diz em sua propaganda, exibindo um sorriso enquanto mata um mosquito incômodo com suas mãos.

* Paula Ramon, em São Paulo, contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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