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Improviso, perplexidade e gestão falha dão o tom à crise da água em SP

Simon Romero

Em São Paulo

18/02/2015 16h58

Além da Amazônia e de outros rios potentes, o Brasil tem uma série de grandes barragens e um oitavo da água doce do mundo. É tão rico no recurso cobiçado que alguns o chamam de “Arábia Saudita da água”, como se vivesse sobre um mar de água, como acontece com o petróleo.

Entretanto, na maior e mais rica cidade do Brasil, ocorre uma situação bem menos utópica: as torneiras estão começando a secar.

Enquanto o Sudeste do Brasil enfrenta sua pior seca em quase um século, um problema agravado por rios poluídos, desmatamento e crescimento populacional, o maior sistema de reservatórios que serve São Paulo está quase vazio. Muitos moradores já estão sofrendo cortes de água esporádicos, alguns passando dias sem água. As autoridades dizem que talvez seja necessário um racionamento drástico, com fornecimento de água em apenas dois dias por semana.

A portas fechadas, o retrato é mais sombrio. Em uma reunião gravada secretamente que vazou para a imprensa local, Paulo Massato, um alto funcionário da companhia de água de São Paulo, disse que talvez os moradores tenham que ser advertidos a fugir, porque “não há água suficiente, não haverá água para tomar banho, para limpar” casas.

“Estamos testemunhando uma crise de água sem precedentes em uma das grandes cidades industriais do mundo”, disse Marussia Whately, especialista em água do Instituto Socioambiental, um grupo ambientalista brasileiro. “Por causa da degradação ambiental e da covardia política, milhões de pessoas em São Paulo agora estão se perguntando quando a água vai acabar.”

Para alguns nesta megacidade sufocada pelo trânsito, com arranha-céus futuristas, condomínios fechados e largas favelas, a crise que se arrasta já significou ficar sem água corrente por dias a fio.

“Imagine ficar três dias sem água e tentando administrar um negócio de forma higiênica”, disse Maria da Fátima Ribeiro, de 51 anos, dona de um bar em Parque Alexandre, um bairro violento na periferia da Grande São Paulo. “Este é o Brasil, onde os seres humanos são tratados pior do que os cães por nossos próprios políticos.”

Alguns moradores começaram a furar seus próprios poços ao redor de casas e prédios de apartamentos, ou a juntar água em baldes para lavar a roupa ou os banheiros. As escolas públicas estão proibindo os alunos de usar água para escovar os dentes e mudando os seus cardápios para servir sanduíches em vez de refeições em pratos que precisam ser lavados.

As autoridades estão prometendo soluções ambiciosas, como novos reservatórios. Mas são soluções muito distantes, e as pessoas nesta vasta região metropolitana de 20 milhões estão temerosas diante das previsões do serviço de monitoramento de desastres naturais do Brasil de que o principal sistema de reservatórios de São Paulo poderá secar em 2015.

Os especialistas dizem que as origens da crise vão além da recente seca e incluem uma série de fatores interligados: a onda de crescimento da população da cidade no século 20; um sistema com vazamentos crônicos que desperdiça grandes quantidades de água antes mesmo que ela alcance as casas; a poluição notória dos rios Tietê e Pinheiros que atravessam a cidade (o seu aroma pode induzir náuseas aos transeuntes); e a destruição das florestas circundantes e das zonas úmidas que historicamente absorviam a água da chuva e a liberavam nos reservatórios.

O desmatamento na bacia do rio Amazonas, a centenas de quilômetros de distância, também pode estar agravando a crise hídrica de São Paulo. Ao se cortar a floresta, sua capacidade de liberar umidade no ar é reduzida, diminuindo as chuvas no Sudeste do Brasil, de acordo com um estudo recente realizado por um dos principais cientistas do clima do país.

As autoridades também apontam para o aquecimento global. “A mudança climática chegou para ficar”, disse neste mês o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin. “Quando chove, chove muito, e quando há seca, é muito seco.”

A queda no abastecimento de água está afligindo o Rio de Janeiro e Minas Gerais, dois outros Estados poderosos, enquanto algumas cidades menores da região cancelaram as festividades de Carnaval nesta semana por preocupações com a falta de água para limpar as ruas cheias de lixo após as comemorações.

A crise de São Paulo, contudo, é particularmente aguda. Funcionários da Sabesp, a companhia de água controlada pelo Estado, reconheceram que a pressão da água na rede de distribuição foi reduzida. Enquanto isso efetivamente restringiu a quantidade de água que flui através do sistema, as autoridades insistem que não é o mesmo que racionamento, semeando confusão e raiva entre os que não conseguem obter água.

A companhia de água diz que está estudando um projeto grandioso para tirar água de uma bacia hidrográfica próxima e construir novos reservatórios, mas alguns esforços não devem ser concluídos até meados do próximo ano.

“É um sistema hídrico que claramente não tem sido bem gerido”, disse Newsha Ajami, diretora de política de água urbana do Stanford Woods Institute for the Environment, que recentemente se reuniu com as autoridades locais. “Eles se voltam para esses megaprojetos, que deveriam ser a última solução, quando medidas agressivas já deveriam ter sido tomadas meses atrás para reduzir o consumo e os vazamentos."

Estima-se que mais de 30% da água tratada da cidade é perdida em vazamentos e furtos. Em um comunicado, a companhia de água disse que estava buscando reduzir os vazamentos. Ela vem oferecendo descontos para reduzir o consumo, enquanto começa a impor multas exorbitantes neste mês para o alto uso da água.

O racionamento propriamente dito -quando o serviço é cortado inteiramente por determinados períodos, não apenas reduzido- “ainda está em discussão e estudo”, disse a Sabesp, após as chuvas das últimas semanas terem elevado ligeiramente o nível dos reservatórios. Mas para as pessoas que já estão experimentando o que descrevem como um racionamento de fato, o posicionamento das autoridades tem causado perplexidade, na melhor das hipóteses.

“Eu sinto ódio, ódio do governador e da Sabesp”, disse Márcia Oliani, 54, gerente de finanças de uma galeria de arte que suportou seis dias sem água em seu apartamento. “Eu gostaria de levá-los para a rua e atear fogo neles. Eles simplesmente não nos avisaram e continuaram a mentir sobre isso o tempo todo.”

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