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Império de guru da ioga racha em meio a queixas de estupro e abuso sexual

Bikram Choudhury, fundador da Bikram Ioga, acusado de abuso sexual nos EUA - Piotr Redlinski/The New York Times
Bikram Choudhury, fundador da Bikram Ioga, acusado de abuso sexual nos EUA Imagem: Piotr Redlinski/The New York Times

Jack Healy

Los Angeles (EUA)

02/03/2015 06h00

Ele é o guru de ioga que construiu um império com suor e soberba. Ele tem um estábulo de carros de luxo e uma mansão em Beverly Hills. Durante os treinamentos para professores de ioga esperançosos, ele caminha pelo palco com uma sunga preta Speedo e fala longamente sobre a vida, o sexo e o poder transformador de seu estilo de ioga. “Eu curo vocês totalmente”, disse ele aos entrevistadores. “Qualquer que seja o problema que tiverem.”

Mas o dia do acerto de contas jurídico está se aproximando para o guru Bikram Choudhury. Ele está enfrentando seis processos civis de mulheres que o acusam de estupro ou abuso sexual. O mais recente foi registrado em 13 de fevereiro por uma iogue canadense, Jill Lawler, que disse que foi estuprada por Choudhury durante um treinamento para professores na primavera de 2010.

Este mês, um juiz de Los Angeles recusou vários pedidos de objeção a um processo de uma ex-aluna que disse que Choudhury a estuprou durante outro programa de treinamento de professores em 2010.

A primeira queixa foi registrada há dois anos. À medida que mais vinham à tona, e mais mulheres falavam publicamente sobre acusações de abuso ou assédio sexual, seus relatos criaram fissuras no mundo fechado dos estudantes e professores de ioga que gastaram milhares de dólares para estudar com Choudhury, abriram estúdios que levam o nome dele e encontraram força, flexibilidade e saúde em sua fórmula de 26 posturas de ioga em uma sala abafada.

Muitos permaneceram leais ao homem a quem chamam de “chefe” e o reverenciam como um guru excêntrico. Outros estão indo embora.

“Muita gente tem uma venda nos olhos”, disse Sarah Baughn, 29, que já foi devota e competidora internacional de Bikram Ioga, cujo processo contra Choudhury em 2013 foi como um terremoto para os seguidores desse estilo de ioga. “Isso é o mundo para eles. Eles não querem aceitar que isso aconteceu.”

Choudhury, que continua sendo a face de seu império de ioga, com uma foto sorridente colocada na homepage do Bikram's Yoga College of India, nega qualquer má conduta e diz não enfrentar nenhuma acusação criminal.

Uma declaração feita por advogados de Choudhury e sua escola de ioga, que também é citada como ré nos processos, disse que “o sr. Choudhury não violentou sexualmente nenhuma das reclamantes” e que as mulheres estavam explorando “injustamente” o sistema jurídico para obter ganhos financeiros.

“As queixas delas são falsas e desonram a Bikram Ioga e a saúde e benefícios espirituais que ela trouxe às vidas de milhões de praticantes em todo o mundo”, diz a declaração. “Depois de uma investigação detalhada, o promotor distrital do condado de Los Angeles recusou-se a entrar com acusações de abuso sexual contra o sr. Choudhury ou contra a escola por falta de provas.”

O julgamento foi marcado para agosto no caso de Baughn. Em sua queixa, ela diz que Choudhury começou a persegui-la durante um treinamento para professores do qual ela participou em 2005, quando ela tinha 20 anos. Ela disse que ele sussurrava cantadas sexuais durante as aulas, e a atacou e apalpou em um quarto de hotel e na casa dele.

Embora os processos contra Choudhury tenham se multiplicado ao longo dos últimos dois anos, novos estúdios de Bikram Ioga continuam abrindo, juntando-se a uma lista de centenas de estúdios administrados de forma independente em lugares como Buenos Aires e Xangai. Choudhury está listado como diretor de sua sede em Los Angeles, e supervisiona pessoalmente os exaustivos treinamentos para professores, que duram semanas e custam US$ 12.500 por aprendiz.

“Milhares de professores de Bikram Ioga, donos de estúdios e praticantes enviaram mensagens de apoio e encorajamento”, diz a declaração dos advogados.

Mas vários donos de estúdios decidiram tirar o nome Bikram de sua ioga, dizendo que agora se sentem incomodados com a associação. No litoral sul da Califórnia, Tiffany Friedman mudou o nome de seu estúdio Bikram para Haute Yogi Manhattan Beach e começou a oferecer sua própria mistura de estilos de ioga.

Friedman pratica a Bikram Ioga há anos, e disse que depois de comprar um estúdio em 2008, decidiu participar de um treinamento para professores em San Diego. Ela esperava aprender mais sobre a filosofia, anatomia e os fundamentos de uma prática física que ela tinha passado a amar. Disse que não encontrou nada disso. “Eu fiquei muito assustada”, disse ela. “Era muito parecido com um culto.”

Friedman disse que entrou em conflito com Choudhury quando começou a oferecer uma versão abreviada da aula de 90 minutos dele, e decidiu abandonar a marca Bikram depois de ler os detalhes dos processos. “Eu parei de mandar pessoas para o treinamento”, disse ela. “Mudei o nome.” Mas outros donos de estúdio estabeleceram uma fronteira entre o homem e seu estilo de ioga, dizendo que os métodos dele funcionam. E continuaram a usar o nome dele em seus estúdios.

Repletos de detalhes, os processos civis acusam Choudhury de assediar, perseguir e atacar mulheres jovens que antes o reverenciavam. A queixa mais recente, feita por Lawler, descreve como ela sentia que a “Bikram Ioga era o seu chamado, e que seu propósito era compartilhá-la com o maior número de pessoas possível”. Aos 18, ela se inscreveu em um treinamento para professores na primavera de 2010 em Las Vegas. Os advogados de Choudhury dizem que ele ainda não foi notificado formalmente do processo.

De acordo com a queixa, Choudhury elogiou a forma como Lawler recitou o roteiro de aula que acompanha as posturas de ioga. Ela o massageou por horas enquanto ele assistia a filmes de Bollywood, diz o processo, e em determinado momento, ele começou a apalpá-la.

Lawler ficou com medo de falar, dizem os documentos do tribunal, e depois de ter gasto US$ 10 mil de seu fundo para a faculdade no treinamento, sentiu que tinha completado o curso. Choudhury puxou-a de lado uma noite, pediu desculpas por tê-la tocado e prometeu “transformá-la em uma campeã”, diz o processo.

Semanas mais tarde, Choudhury pediu para Lawler acompanhá-lo a seu quarto de hotel, onde ele a violentou sexualmente, diz a queixa. De acordo com o processo, Lawler continuou participando do mundo Bikram por anos depois disso; a queixa acusou Choudhury de atacá-la sexualmente em várias ocasiões subsequentes, mais recentemente em fevereiro de 2013.

Em julho de 2014, ela deu sua última aula de Bikram Ioga, diz o processo, e passou a trabalhar como garçonete.

Baughn, que antes adorava ensinar ioga e ganhava elogios por sua força e flexibilidade no tapete de ioga, também deixou o mundo da atividade. Ela não ensina nem pratica mais, e diz que jamais poderia voltar. “Eu passei por um verdadeiro inferno”, disse ela, acrescentando: “o que aconteceu comigo foi horrível. Provavelmente sempre terei pesadelos.”

Tradutora: Eloise De Vylder

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