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Disputa de terras entre Guiana e Venezuela vira luta por petróleo

Meridith Kohut/The New York Times
Bartica, a última cidade antes do que os moradores de Guiana chamam de "o interior" Imagem: Meridith Kohut/The New York Times

William Neuman

Em Bartica (Guiana)

2015-11-23T06:00:00

23/11/2015 06h00

Em um pequeno bar com teto de zinco na margem ocidental do rio Essequibo, Rawle Huggins relaxava em um banco de madeira e pensava sobre a escalada da briga de fronteira de seu pequeno país com sua vizinha muito maior, a Venezuela.

"Aqui é Guiana", disse Rawle, que às vezes garimpa ouro, referindo-se às terras sob seus pés e tudo ao seu redor. "Eu não vivo na Venezuela. Eu vivo na Guiana. Eles vivem para lá", ele acrescentou, gesticulando para além da floresta à beira da cidade.

Bartica, a uma distância de 2 horas e meia de carro e barco da capital da Guiana, Georgetown, é o ponto de partida para o que os guianenses chamam de "o interior", uma região esparsamente povoada de floresta e savana que possui aldeias indígenas, campos de mineração e depósitos de ouro, diamantes, bauxita e outros minérios.

Essa mesma região está no centro de uma batalha amarga entre vizinhos. Em uma disputa que remonta mais de cem anos, a Venezuela insiste que é dona por direito de tudo a oeste do Essequibo, reivindicando quase dois terços do território da Guiana, incluindo Bartica.

A disputa se acalorou nos últimos meses, depois que a Exxon Mobil, trabalhando para o governo guianense, anunciou em maio que descobriu uma grande reserva de petróleo em alto-mar além da costa do território disputado.

"A Venezuela está reivindicando o petróleo que encontramos", disse Towannh John, a garçonete de uma barraca de refrescos próxima, a Palm Court, onde miniaturas da bandeira guianense balançavam no teto.

Para enfatizar sua indignação, Towannh começou a cantar uma canção folclórica popularizada durante uma disputa anterior com a Venezuela em torno do mesmo território: "Não abrirei mão da montanha, não abrirei mão do mar, não abrirei mão do rio que me pertence".

Disputa tem mais de cem anos

A disputa data do século 19, quando a Guiana era uma colônia britânica e o Reino Unido buscava expandir sua presença na América do Sul, fazendo reivindicações agressivas a respeito das fronteiras da colônia. A Venezuela fez objeção e buscou ajuda dos Estados Unidos, que em um teste chave da Doutrina Monroe, pressionou o Reino Unido a levar a disputa a um painel de arbitragem.

O painel se reuniu em Paris em 1899. Ele era composto de quatro juízes, dois do Reino Unido e dois dos Estados Unidos, além de um diplomata russo que daria um quinto voto em caso de necessidade de desempate. Um ex-presidente americano, Benjamin Harrison, foi o principal advogado da Venezuela.

Quando o painel anunciou sua decisão, ela foi vista como altamente favorável ao Reino Unido, que ficou com quase todas as terras que buscava.

Esse pareceu ser o fim da controvérsia até 1949, quando uma carta de um advogado americano que atuou no processo se tornou pública, afirmando que os juízes britânicos estavam em conluio com o diplomata russo para forçar um resultado favorável ao Reino Unido.

As autoridades venezuelanas declararam inválida a decisão de 1899 e insistiram na devolução do território, uma exigência que persistiu após a Guiana ganhar a independência do Reino Unido em 1966.

A disputa entrou em uma de suas fases mais furiosas nos últimos meses, tendo como pano de fundo o aprofundamento da crise econômica e política da Venezuela.

Crise econômica e política

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, há muito acusa os Estados Unidos de conspirarem contra ele. Neste ano, ele fechou as principais travessias de fronteira para a Colômbia, acusando o governo deste país de apoiar conspiradores que planejavam matá-lo.

Agora ele voltou sua atenção para a Guiana, o único país de língua inglesa na América do Sul.

Após o anúncio pela Exxon Mobil, Maduro emitiu um decreto estabelecendo zonas de defesa marítimas que penetravam nas águas guianenses, assim como em águas territoriais de outros vizinhos caribenhos e sul-americanos. Apesar de posteriormente ter retirado o decreto, uma sonora declaração foi feita.

Mais ou menos ao mesmo tempo, a Venezuela deixou de fornecer petróleo subsidiado à Guiana em troca do arroz guianense, parte de um programa venezuelano de apoio a muitos países menores da região.

Maduro também convocou de volta o embaixador da Venezuela em Georgetown, e a Guiana posteriormente também retirou seu embaixador de Caracas.

E não se limitou a isso. A Venezuela fez objeção aos esforços do Brasil para ajudar a Guiana a desenvolver projetos hidrelétricos na zona disputada. Ela enviou uma carta à Exxon Mobil fazendo objeção à prospecção de petróleo. E enviou uma carta semelhante a uma empresa canadense, a Guyana Goldfields Inc., ameaçando impedi-la de operar uma grande mina de ouro a oeste de Bartica.

As autoridades dos dois países também iniciaram uma feroz guerra de palavras. Maduro acusou o presidente da Guiana, David Granger, de representar a Exxon Mobil em vez de seu próprio povo.

Granger alertou há poucos meses que a Venezuela estava reunindo tropas e equipamento militar na fronteira, enquanto a Venezuela disse que estava apenas realizando exercícios militares.

Maduro e Granger se encontraram em setembro em Nova York, mas pouco resultou fora um acordo para retorno dos embaixadores.

Na Venezuela, mapas mostram rotineiramente a terra disputada como parte do território venezuelano, às vezes coberto de listras, com a legenda de "Zona Reclamada". Ela costuma ser tratada como Essequibo, mas devido ao formato alongado da área, alguns venezuelanos a chamam de "a tromba do elefante".

Por direito

Mas apesar de ser ensinado desde cedo aos venezuelanos nas escolas que o território é deles por direito, poucos de fato botaram os pés ali.

"Todas essas pessoas que falam sobre Essequibo nunca estiveram lá", disse Charles Brewer-Carías, um explorador venezuelano e fã de atividades ao ar livre.

Brewer-Carías era um jovem ministro em 1981 quando liderou um grupo de cerca de 50 venezuelanos jovens em uma excursão secreta além da fronteira e penetrando na floresta guianense, plantando bandeiras venezuelanas enquanto prosseguiam.

Ele também sobrevoou a Guiana em um pequeno avião para mapear instalações estratégicas, como pistas de pouso. Na época, ele esperava incitar seu governo a invadir, mas em vez disso ele foi demitido. Ele começou pensando que a área era uma floresta vazia, mas descobriu que era ocupada pelo povo guianense, cidades, fazendas e minas.

Ele diz que a Venezuela deve aceitar o status quo e enfatizar relações amistosas.

"É impossível retirar terras de um país que as desenvolveu", disse Brewer-Carías. "Somos tão dados a coisas mágicas que achamos que as conseguiremos e ficaremos com seus poços de petróleo e minas de ouro."

Em um porto ao longo do Essequibo, em uma cidade chamada Parika, Mike Prince, 61 anos, um veterano do Exército Guianense, estava sentando observando passageiros subirem a bordo das embarcações com destino a Bartica.

"Eu me alistaria de novo para expulsar esses filhos de volta ao lugar de onde vieram", ele disse, gentilmente omitindo a palavra obscena. Ele disse que tudo se resume ao petróleo.

"A ganância é uma coisa terrível", ele acrescentou.