EUA têm problemas para explicar aliança com Arábia Saudita

David E. Sanger

Em Washington (EUA)

  • Reuters

    O clérigo xiita dissidente Nimr Baqir al Nimr, executado na Arábia Saudita

    O clérigo xiita dissidente Nimr Baqir al Nimr, executado na Arábia Saudita

O governo Barack Obama enfrenta a contradição fundamental em seu relacionamento cada vez mais tenso com a Arábia Saudita. Ele não foi capaz, pelo menos em público, de condenar a execução de um religioso dissidente que desafiava a família real, por medo de minar a frágil liderança saudita na região, da qual precisa desesperadamente para combater o Estado Islâmico e pôr fim ao conflito na Síria.

Os EUA em geral olharam para o outro lado ou fizeram advertências cuidadosamente brandas em relatórios de direitos humanos quando a família real saudita reprimiu dissidentes e a livre expressão e permitiu que sua elite financiasse extremistas islâmicos.

Em troca, a Arábia Saudita se tornou o mais confiável posto de gasolina dos EUA, um fornecedor regular de informações e um valioso contrapeso para o Irã.

Durante anos, o petróleo forneceu o cimento para um relacionamento entre duas nações que têm poucos valores comuns.

Hoje, com o crescimento da produção de petróleo nos EUA e a liderança saudita fraturada, a dependência mútua que remontava ao início dos anos 1930, com o primeiro investimento americano nos campos de petróleo do reino, não une mais os dois países.

Mas o tumulto político no Oriente Médio, e a percepção dos EUA de que os sauditas são críticos para a estabilidade na região, continua preservando um casamento cada vez mais frágil.

Por isso, quando a Arábia Saudita executou 47 pessoas, inclusive o clérigo dissidente xeque Nimr al-Nimr, no último sábado (2), decapitando muitos deles no estilo que a maioria dos americanos associa ao Estado Islâmico, e não a um parceiro próximo dos EUA, as tentativas do governo americano de explicar o relacionamento se tornaram mais improváveis que nunca.

Na verdade, as execuções foram o apogeu de uma série de acontecimentos nos últimos anos que levaram a choques entre os dois países.

"Não estivemos na mesma página com os sauditas há muito tempo", disse Martin S. Indyk, o vice-presidente-executivo do Instituto Brookings e ex-assessor principal do secretário de Estado John Kerry. "E isso começa com Mubarak."

Em 2011, líderes sauditas censuraram Obama e seus assessores por não apoiarem o presidente do Egito, Hosni Mubarak, durante a Primavera Árabe, temendo que Obama fizesse o mesmo se os levantes se espalhassem para o reino.

O acordo nuclear com o Irã só intensificou a sensação saudita de que os EUA estavam repensando o relacionamento fundamental. As autoridades sauditas, em visitas a Washington, questionaram abertamente se podiam confiar em seu aliado americano.

O rei Abdullah foi citado em um telegrama do Departamento de Estado, divulgado dois anos depois pelo Wikileaks, exortando os EUA a "cortarem a cabeça da serpente" --o Irã-- com ataques militares.

Ele morreu antes do acordo no último verão, mas líderes sauditas, que ainda veem a mão do Irã por trás de todo ato desestabilizador no Oriente Médio, afirmaram que o governo é ingênuo ao pensar que o Irã cumprirá qualquer acordo negociado.

Por isso, desde que esse acordo foi fechado, em julho, o governo Obama vem fazendo gestos tranquilizadores. Obama convidou os sauditas a participarem de uma reunião em Camp David para garantir aos aliados árabes que os EUA não os estão abandonando --e lhes vender pacotes de armas maiores que nunca.

Mas o governo de Washington também criticou asperamente a intervenção saudita no Iêmen, considerando-a uma enorme distração da batalha maior contra o EI.

Segundo relatos de americanos, a nova liderança saudita que luta por influência sob o rei Salman é decidida, "mais interessada em ação que em deliberação", nas palavras de Indyk.

Quando Kerry advertiu os sauditas contra a execução de Al-Nimr, um religioso xiita nascido na Arábia Saudita que desafiou diretamente a família real, ele foi ignorado.

"Essa é uma preocupação que levantamos com os sauditas antecipadamente", reconheceu na segunda-feira o secretário de Imprensa da Casa Branca, Josh Earnest. Ele disse que a execução "precipitou os tipos de consequências que temíamos".

Mas isso foi o mais forte que o governo americano se dispôs a criticar os sauditas. Pressionadas a condenar a execução de Al-Nimr, as autoridades pediram calma a todos os lados. O porta-voz do Departamento de Estado, John Kirby, pediu que toda a região se dedique ao trabalho de confrontar o Estado Islâmico e lidar com a crise na Síria.

"Se vocês perguntarem se estamos tentando nos tornar um mediador em tudo isso, a resposta é não", disse Kirby à imprensa. "As soluções reais, de longo prazo, não serão ordenadas por Washington."

Em particular, várias autoridades dos EUA manifestaram irritação contra os sauditas por escolherem este momento para realizar as execuções.

Elas comentaram que Obama e Kerry estiveram em contato regular com membros da liderança saudita. Obama pediu que os sauditas participem das negociações para a paz na Síria --na mesma mesa que os iranianos.

Kerry viajou a Riad, a capital saudita, e mais tarde pediu que os sauditas organizem os rebeldes sírios em um único grupo para negociar um cessar-fogo com o ditador Bashar al Assad.

Mas os sauditas foram parceiros hesitantes, dizendo a seus colegas ocidentais que concordariam, mas prevendo que o esforço de Kerry desmoronaria porque o Irã jamais aceitaria um processo visando a deposição de Assad.

Enquanto isso, a participação inicial dos sauditas nos ataques aéreos contra o EI se reduziu quando eles deslocaram forças militares para a campanha contra os rebeldes houthis, apoiados pelo Irã, no Iêmen.

Outros que lidam com os sauditas dizem que há um grau de estresse na liderança de Riad que eles nunca viram.

"O reino enfrenta uma tempestade potencialmente perfeita de baixa renda do petróleo, guerra declarada no Iêmen, ameaças terroristas de diversas direções e uma rivalidade regional crescente com seu inimigo maior, o Irã", escreveu na segunda-feira Bruce Riedel, um ex-oficial graduado da CIA com longa experiência na região.

Patrick Clawson, do Instituto de Washington para Política no Oriente Próximo, viu um desejo de enviar uma mensagem firme a Washington. Os sauditas estariam dizendo, escreveu Clawson, que "se os EUA não confrontarem o Irã, Riad o fará por conta própria".

A preocupação saudita de que o governo Obama esteja prestes a abraçar o Irã é quase certamente exagerada. Desde o acordo nuclear, os iranianos testaram mísseis balísticos duas vezes, e o governo americano --após certa demora-- parece estar preparando sanções. E na semana passada navios da marinha iraniana dispararam foguetes a 1.500 metros de um grupo de porta-aviões americanos.

O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, descartou a cooperação com os EUA, mas os iranianos apareceram nas negociações com a Síria.

Às vezes as autoridades americanas se perguntam se os EUA e o Irã poderão um dia ser aliados mais naturais que os EUA e a Arábia Saudita. Mas isso parece distante.

"Não é como se houvesse uma alternativa ao Irã", disse recentemente uma importante autoridade árabe do Golfo. "E se não há alternativa a melhor opção é parar de reclamar dos sauditas."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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