Isolados, famintos e perdendo a esperança na Síria

Anne Barnard e Hwaida Saad

Em Beirute (Líbano)

  • Reuters

    Morador de Madaya, cidade na Síria onde as pessoas estão morrendo de fome

    Morador de Madaya, cidade na Síria onde as pessoas estão morrendo de fome

Nisrine continuou dando aulas na escola durante meses enquanto o cerco se fechava em torno da cidade síria de Madaya, mas teve de desistir algumas semanas atrás, quando seus alunos ficaram fracos demais, por causa da fome, para caminhar até a escola.

Um paramédico local está sobrevivendo com os sais de reidratação que dá aos pacientes, enquanto um administrador de empresas faz sopa de grama para seu pai de 70 anos, consultando os pastores sobre quais eram os capins mais apreciados por seus rebanhos, há muito abatidos.

As populações de Madaya e da vizinha Zabadani tentaram, desde o início do sítio das forças pró-governamentais, em julho, manter a sociedade em funcionamento e adaptar-se a suas novas e surreais condições. Há o mercado 'paralelo' do outro lado das linhas de bloqueio, por exemplo, e as maneiras silenciosas ou inesperadas de como esse tipo de guerra pode matar: infartos, bebês natimortos, uma pisada em uma mina terrestre enquanto se procura comida.

E há a incansável contração física e psicológica de suas comunidades, a apenas uma hora de carro de Damasco, a capital síria, e a duas de Beirute, mas subitamente isoladas do mundo.

"Eu não vou a lugar nenhum", disse Maleka Jabir, 85, que herdou a cidadania norte-americana de seu pai, um veterano da Primeira Guerra Mundial, e está tão enfraquecida pela fome e por problemas cardíacos que mal consegue andar. "Eu apenas me deito e fico na cama."

Comboios chegaram a Madaya e a duas cidades próximas na quinta-feira (14), levando alimentos básicos, remédios e ajuda pela segunda vez esta semana, quando o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou que "o uso de alimento como arma é um crime de guerra" e pediu que o governo sírio e todas as partes beligerantes suspendam seus cercos imediatamente.

Um número limitado de pessoas foi evacuado na segunda-feira (11), mas agentes de prestação de ajuda disseram que centenas de pessoas em Madaya continuam passando grande necessidade: pelo menos 28 morreram desde 1º de dezembro, segundo Khaled Mohammad, o profissional médico que sobrevive com sais, incluindo um homem de 37 anos na quarta-feira, Ali Awkar, que era de Zabadani e havia se refugiado em Madaya.

Hanaa Singer, principal autoridade do Unicef na Síria, disse que foi abordada durante a visita de ajuda a Madaya na segunda-feira por uma mulher com seis crianças desnutridas.

"Ela se jogou sobre mim, beijou meu ombro e se inclinou até minhas mãos", lembrou Singer. "Ela disse: 'Meu filho de 17 anos morreu de fome. Por favor, mantenha os outros vivos.'"

Este retrato da vida em Madaya é extraído de entrevistas com mais de dez moradores, realizadas durante vários meses e nos últimos dias por telefone e pela internet. Muitos falaram sob a condição de só serem identificados pelo primeiro nome, por segurança. Enquanto detalhes de suas experiências não podem ser confirmados de forma independente, profissionais de ajuda internacional que visitaram a cidade ou estiveram em contato direto com grupos locais forneceram relatos que confirmam os dos moradores.

Após quase cinco anos de guerra civil na Síria, a ONU estima que 400 mil pessoas estejam presas atrás das linhas de combate pelo governo, o Estado Islâmico ou insurgentes rivais.

Enquanto partes de Homs e os subúrbios de Damasco estão bloqueados há anos, Madaya conseguiu sobreviver relativamente ilesa até o último verão [no hemisfério norte].

Madaya e Zabadani ficam na extremidade sudeste das montanhas Qalamoun, na fronteira da Síria com o Líbano. Zabadani, onde rebeldes locais tomaram o controle em 2012, tornou-se um refúgio para insurgentes expulsos de outras áreas de fronteira pelo Hizbollah, a milícia xiita libanesa aliada ao presidente da Síria, Bashar al Assad.

Tanto moradores como autoridades do Hizbollah dizem que a maioria dos combatentes em Zabadani é afiliada a um grupo islamista sírio chamado Ahrar al-Sham, e um número menor ao mais moderado Exército Livre da Síria e à Frente al-Nusra, ligada à Al Qaeda.

Semanas de bombardeio pelo Hizbollah não desalojaram os insurgentes. Forças pró-governo aumentaram a pressão ao isolar Zabadani e Madaya, onde muitos civis de Zabadani, incluindo a professora Nisrine, haviam se refugiado. Tentando ganhar vantagem, rebeldes aliados aos insurgentes locais começaram a bloquear e bombardear Fouaa e Kfarya, duas cidades xiitas isoladas na província de Idlib, no noroeste da Síria.

E funcionou, parcialmente. Um cessar-fogo foi alcançado em setembro, mas com a nova campanha aérea da Rússia na Síria, as promessas de evacuar os feridos e suspender os cercos não foram cumpridas. Moradores de Madaya dizem que, pelo contrário, o sítio endureceu.

Nisrine deixou de receber seu salário. Sua escola foi bombardeada. Ela enviou o próprio filho à escola sem café da manhã, e os alunos começaram a perder a concentração.

"Como posso querer que ele aprenda, se está com fome?", disse ela em outubro.

A clínica médica em Madaya, que funciona com a organização Médicos Sem Fronteiras, foi bombardeada e transferida para um porão. Mohammad, um técnico anestesista que vem atuando como médico, disse que ficou assoberbado com casos que não pôde tratar adequadamente: fraturas, amputações, ferimentos abdominais. Ele realizou cesarianas primitivas. Ultimamente, recorreu a dar xarope às crianças sob maior risco, pela glicose, reduzindo ainda mais os estoques.

Certa vez, disse Mohammad, médicos convenceram guardas do Hizbollah a permitirem que um menino de 16 anos com infecção urinária saísse para receber tratamento.

"Nós beijamos seus sapatos", disse Mohammad mais tarde. "Estamos prontos para nos render, mas o regime congelou tudo", afirmou. "Peço que o regime de Bashar lance um foguete e acabe com nossas vidas."

Finalmente, em dezembro, algumas centenas de combatentes feridos foram evacuados de Zabadani, Fouaa e Kfarya. O marido de Nisrine, Ahmed, foi levado de ônibus de Zabadani a Beirute, depois voou para a Turquia e de lá chegou à província de Idlib, nas mãos de rebeldes. Nisrine e seu filho de 10 anos, Abdullah, continuaram presos em Madaya. Ahmed disse que recentemente falou com o menino.

"Sei que ele está faminto, mas não quer dizer", relatou o pai por telefone. "Até as crianças estão agindo como adultos. Ele não me pede mais para trazer doces, só pão." Seus vizinhos tinham acabado de abater o último cavalo da cidade. "Eu conhecia aquele cavalo", disse Ahmed tristonho. "Não sei o que o regime quer", disse. "Nós estamos prontos para partir, mas eles querem que morramos aqui."

Singer, a autoridade da ONU, disse que, quando chegou com ajuda na segunda-feira, bandos de crianças se reuniram a seu redor no escuro, suplicando: "Tia, tia, desculpe, desculpe, você tem um pedaço de pão?"

"Foi isso que me matou", disse Singer. "Elas pediam desculpas".

Nos pacotes de alimentos havia itens básicos, como farelo de trigo e óleo, alguns quilos por pessoa. Mas não farinha ou pão.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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