Militantes lucram com o tráfico de antiguidades, e podem esperar anos para vender uma peça

Steven Lee Myers e Nicholas Kulish

Em Shumen (Bulgária)

  • Laura Boushnak/The New York Times

    Tábua suméria encontrada pela polícia da Bulgária

    Tábua suméria encontrada pela polícia da Bulgária

Após receber uma dica, a polícia invadiu quatro casas no leste da Bulgária à procura de itens contrabandeados que atravessam regularmente o país a caminho de mercados na Europa Ocidental e na América. Em um galpão enferrujado atrás de um bloco de apartamentos, ela encontrou um esconderijo de antiguidades saqueadas: 19 estátuas clássicas e fragmentos de mármore ou calcário.

Entre eles havia uma tábua quadrada retratando uma procissão. Se for genuína, o estilo indica que ela não é romana nem grega, como o restante das peças, mas muito mais antiga, datada de cerca de 5.000 anos. A aparência sugere que ela veio da antiga cidade suméria de Lagash, no atual sul do Iraque.

A operação policial realizada em março foi anunciada como um sucesso raro contra o tráfico de antiguidades, um crime que atingiu outro patamar desde que o grupo militante Estado Islâmico assumiu o controle de partes da Síria e do Iraque, destruindo e saqueando locais antigos. No entanto, a ação também revelou os obstáculos que impedem o combate ao comércio ilícito, segundo dezenas de especialistas em arte e oficiais dos Estados Unidos e da Europa.

As leis no mundo todo são fracas e inconsistentes, e as alfândegas podem analisar apenas uma parte daquilo que cruza as fronteiras internacionais, de acordo com funcionários e especialistas em tráfico. Organizações estabelecidas de contrabando têm experiência em enviar os bens para pessoas dispostas a pagar por eles, e têm a paciência suficiente para esconder artefatos antigos em armazéns até que não sejam mais procurados. Apesar da indignação quase generalizada em relação às ações do Estado Islâmico, poucos países demonstraram interesse em impor novas restrições para combater o comércio crescente de antiguidades, estimado em bilhões de dólares por ano.

"É um sistema falho do qual o EI, ou qualquer um, pode se aproveitar", disse Donna Yates, arqueóloga do Centro Escocês para Pesquisa de Crimes e Justiça na Universidade de Glasgow.

Os funcionários ainda não sabem como os artefatos foram parar em Shumen ou se passaram por território do Estado Islâmico. Para cada confisco como este, acredita-se que muitas outras peças alcançaram revendedores e compradores em Viena, Munique, Londres e Nova York. Os negociantes se aproveitam do comércio legal de antiguidades para enviar objetos que foram saqueados durante anos em meio aos conflitos na Síria e no Iraque, bem como na Líbia, Iêmen e Egito, disseram funcionários e peritos.

Poucos objetos apareceram até agora que podem ser atribuídos à pilhagem por parte do Estado Islâmico. Embora o grupo seja iniciante na atividade, ele permitiu que ela acontecesse em escala industrial nos territórios que controla, tributando as escavações para levantar dinheiro para o califado que declarou em 2013.

É por isso que as antiguidades apreendidas aqui na Bulgária --junto com centenas de peças interceptadas na Turquia, perto da fronteira com a Síria, e pelo menos um objeto confiscado em Londres e agora guardado sob custódia do Museu Britânico-- são vistas como parte de uma onda que os especialistas acreditam que inundará os mercados da Europa e América do Norte nos próximos anos.

Fotografias de satélite têm documentado milhares de escavações ilegais na Síria e no Iraque, visíveis entre algumas das ruínas antigas mais importantes do mundo, como Mari e Dura Europos, na Síria. Rastrear o que foi saqueado nesses locais, porém, têm se mostrado difícil.

"Estamos diante da maior destruição do patrimônio cultural em grande escala desde a 2ª Guerra, e temos que fazer algo em relação a isso", disse France Desmarais, diretora de programas e parcerias do Conselho Internacional de Museus.

Acredita-se que alguns dos colecionadores dispostos a comprar artefatos no mercado negro estão em países do Golfo Pérsico. Mas muitos outros, dizem os especialistas, estão no Ocidente.

"Parece haver uma divisão geográfica interessante: objetos pré-islâmicos vão para a Europa e América do Norte, enquanto a arte islâmica vai para os países do Golfo", disse Markus Hilgert, diretor do Museu do Antigo Oriente Próximo, em Berlim, que coordena um projeto de pesquisa sobre o comércio ilícito.

Um relatório recente da Fundação pela Defesa das Democracias, com sede em Washington, observou que, no Ocidente, "os principais compradores são, ironicamente, entusiastas de história e aficionados pela arte que vivem nos Estados Unidos e na Europa --representantes das sociedades ocidentais que o EI prometeu destruir."

Muitos dos artefatos roubados recentemente, dizem os especialistas em antiguidades, estão provavelmente guardados em depósitos na Síria e no Iraque, ou nas proximidades, até que a atenção se dissipe.

"Damasco, Beirute, Amã --as primeiras paradas são sempre as mesmas", disse Matthew Bogdanos, coronel da reserva da Marinha que liderou a busca por objetos roubados do Museu Nacional do Iraque, em 2003, e é coautor de um livro sobre a iniciativa intitulado "Thieves of Bagdad" (Ladrões de Bagdá, em tradução livre).

"Não subestime o quão pacientes são esses negociantes que têm ligações internacionais", disse ele.

Depois que as antiguidades deixam o território do Estado Islâmico, os especialistas dizem que elas caem nas mãos de redes criminosas e de contrabando que têm experiência no tráfico de pessoas, drogas ou outros itens contrabandeados da Síria e do Iraque. "Quando chegam a essas redes, vão para toda parte, e é muito difícil rastreá-las", disse Brent Easter, um agente aduaneiro de Nova York que investiga o contrabando de arte.

A Bulgária, que abriga dezenas de sítios históricos, é conhecida por ser um canal para o contrabando, disseram autoridades. Quando as antiguidades ilícitas entram na Europa, fica mais fácil para os contrabandistas criarem documentos que as listam como descobertas autênticas que podem ser vendidas e compradas legalmente.

"Estamos na rota mais direta entre a Turquia e o Oriente Médio", disse Bozhidar Dimitrov, diretor do Museu de História Nacional, em Sofia.

Vladimir Kaidzhiyev, um inspetor de polícia em Shumen, disse que a polícia agiu a partir da informação de que uma rede de contrabando estava transportando um carregamento pela região. Numa manhã de março, dezenas de policiais invadiram o galpão e três outros lugares.

Eles confiscaram mais de 9.000 itens, incluindo estatuetas, joias e moedas com 2.000 anos de idade, bem como moldes e outros materiais que sugeriam que algumas das peças podiam ser falsificadas. Entre as 19 esculturas maiores, havia a cabeça de um leão, um relevo górgone e um painel funerário. Muitas peças tinham terra incrustada, sugerindo que haviam sido escavadas recentemente, e não retiradas de um museu.

"Vi algo parecido só em Roma", disse Kaidzhiyev, que geralmente investiga crimes mais comuns.

Por enquanto, os itens permanecem num depósito do museu regional de história em Shumen. O diretor do museu, Georgi Maystorksi, disse estar aliviado de que pelo menos elas não caíram em mãos de colecionadores particulares, o que impediriam que fossem vistas ou estudadas. "Há pouquíssimos casos de sucesso nesse mundo", disse ele.

Tradutor: Eloise De Vylder

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