Derbent, cidade mais antiga da Rússia? Nem tanto, diz Moscou

Neil Macfarquhar

Em Derbent (Rússia)

  • James Hill/NYT

    Portal com arcos em Derbent, cidade que se considera a mais antiga da Rússia

    Portal com arcos em Derbent, cidade que se considera a mais antiga da Rússia

Não muitos anos atrás, Derbent fervilhava com os planos de comemorar seu aniversário de número 5.000, antevendo o dia em que reivindicaria o título de "cidade mais antiga da Rússia". "Não tão rápido", foi a resposta de Moscou.

Como um cirurgião plástico com um toque sobrenatural, o governo central removeu séculos de vida. Sumiram os planos de comemorar 5.000 anos e apareceu a grande festa para marcar o aniversário de número 2.000.

A mistura de muçulmanos, cristãos e judeus que vivem nesta cidade do Daguestão, no sudoeste da Rússia, à margem do mar Cáspio, reagiu coletivamente com um "Quê?" atônito e continuou acalentando a data mais antiga.

"Em todo o período soviético, eles disseram que tinha 5.000 anos, e de repente mudaram", resmungou Alex Abdulfez, um jovem guia turístico na antiga fortaleza chamada Naryn-Kala, que domina a cidade. "Eu não reconheço qualquer outra data. Não aceito, ninguém aceita. Todo mundo em Derbent diz que ela tem 5.000 anos."

O debate sobre a data é um exemplo pequeno, mas revelador, da tensão que há muito marca as relações entre Moscou e as regiões mais distantes de seu vasto império, particularmente em áreas de maioria muçulmana como esta.

Muitos em Derbent estão convencidos de que o Kremlin 'furtou' 3.000 anos de sua idade para que uma cidade muçulmana não fosse a mais antiga de um país que se apresenta como defensor dos valores cristãos tradicionais.

"Eu diria que 95% dos daguestaneses acham que foi uma decisão política, e não científica", disse Alexander A. Kudryavtsev, renomado arqueólogo que apoia a reivindicação mais antiga.

A verdade é meio complicada.

Ninguém questiona que Derbent foi um importante polo em tempos antigos. Ela domina uma faixa de terra entre o mar Cáspio e as escarpadas montanhas do Cáucaso por onde passava a Rota da Seda, a principal via das caravanas internacionais entre a Ásia e a Europa Ocidental.

Era impossível contornar Derbent. Sua imponente fortaleza e as muralhas duplas que cercam a cidade até o mar basicamente formavam um enorme posto de pedágio, muito cobiçado. Seu nome, em várias línguas, é uma variação de "portal", incluindo Bab al-Abwab, ou Portão de Todos os Portões, em árabe.

Com sua localização militar e economicamente estratégica, Derbent prosperou, tornando-se um grande centro administrativo e religioso. O cristianismo e o islamismo penetraram inicialmente no Cáucaso por Derbent. Era uma megalópole medieval, com uma população estimada em 60 mil.

Então hordas mongóis saquearam o lugar no século 13. O tempo e a história foram lentos para reagir. Derbent tornou-se um lugar atrasado, com a magnífica cidadela em ruínas e apenas uma das muralhas de pé.

Hoje, com uma população de 120 mil, ela é listada pela Unesco como um sítio do Patrimônio Mundial, mas não recebe muitos turistas. O guia Abdulfez disse que viu cerca de 15 ocidentais no lugar em 2015. Se pudesse chamar a si mesma de cidade mais antiga da Rússia, dizem os moradores, talvez os visitantes não dessem importância à insurgência islâmica que se avoluma em segundo plano.

Quanto ao motivo pelo qual não pode, os moradores tendem a acusar o presidente Vladimir Putin. "Isso foi decidido no mais alto nível", disse Dmitry Dunaev, o vice-prefeito que aceitou mudar a data. "Putin assinou um decreto que oficialmente marca o aniversário 2.000, com base em pesquisas científicas."

Sendo a Rússia, a questão da data provocou uma elaborada teoria da conspiração. Em resumo: Putin é um entendido em história. Depois que ele anexou a Crimeia em 2014, surpreendeu os historiadores ao batizar Chersonesus, fundada há cerca de 2.500 anos, como a origem histórica da Rússia, tão sagrada quanto Jerusalém.

Além disso, o elenco de governantes árabes, persas e turcos de Derbent há muito apreciaram seu papel como gargalo que impedia que os nômades do que se tornou a Rússia saqueassem os impérios muito mais civilizados do Oriente Médio.

Em outras palavras, muitos moradores de Derbent estão convencidos de que lhe negaram sua idade real porque ela se chocava com vários mitos de fundação que Putin queria para a Rússia.

Na cidadela, o chamado à oração muçulmana se ergue da mesquita de Juma, do século 8º, a mais antiga da Rússia. A fileira de plátanos em seu amplo pátio tem 800 anos, segundo Farhat Aliev, o guia da mesquita.

Enquanto mostrava o complexo criado pelos primeiros conquistadores árabes, no século 8º, Aliev citou uma frase que, segundo ele, foi dita pelo profeta Maomé e gravada no Hadith, a compilação de seus ditos, considerada uma escritura sagrada: "Os muçulmanos não terão descanso enquanto não capturarem Derbent".

Como o calendário islâmico começa em 622 da era cristã, porém, tal frase não comprovaria uma antiga linhagem.

O sentimento de que Derbent é mais antiga que sua idade oficial se estende a outras fés. A comunidade judaica encolheu de mais de 13 mil pessoas em 1989 para apenas 1.345 em 2010, pouco antes que se abrissem as portas para a emigração, segundo números do censo russo. No museu no porão de sua sinagoga reformada, judeus mostraram seus prezados artefatos comunitários. O mais antigo era uma Torá de 1516.

Na principal catedral russa ortodoxa, uma mulher que limpava a poeira da parede de ícones escutou uma pergunta sobre a idade da cidade, feita ao arcebispo Nikolai Kotelnikov. "Cinco mil anos", afirmou ela, repetindo a data mesmo depois de o religioso tê-la reprimido. (Uma câmera subterrânea em forma de cruz na cidadela poderia ser uma antiga igreja.)

Muitas evidências sustentam a tese dos 5.000 anos. Arqueólogos encontraram restos de assentamentos dessa idade --duas estátuas primitivas em terracota de uma deusa da fertilidade, além de vasos e potes-- no terreno mais elevado onde fica hoje a cidadela.

Murtazali S. Gadjiev, chefe do departamento de arqueologia do Centro do Daguestão da Academia Russa de Ciências, comentou que a data mais antiga tem um amplo apelo popular. Ele mesmo escavou um antigo machado da Era do Bronze que faz parte do tesouro de 5.000 anos. Os resultados foram documentados em um livro amplamente distribuído no início dos anos 1980.

"Foi uma sensação", disse Gadjiev. "Foi assim que a ideia de que Derbent teria 5.000 anos ganhou força na imaginação das pessoas."

Então, alguns anos atrás, um grupo de importantes cidadãos decidiu marcar o aniversário 5.000 de Derbent em 2015. Eles ergueram um arco triplo com a inscrição "Derbent 5.000", que está em pé até hoje. Venderam camisetas, canecas e garrafas do conhaque local mostrando esse mesmo logotipo.
"Foi uma explosão de patriotismo local", disse Gadjiev. Contudo, o aniversário precisava da aprovação federal.

Ele riu sobre ser criticado como "fantoche do Kremlin" depois que participou da comissão de arqueólogos que decidiu que os materiais da Era do Bronze desenterrados, aproximadamente do 3º milênio a.C., eram uma aberração, que a habitação ininterrupta começou por volta de 2.000 anos atrás.

E então, é a cidade mais antiga ou não?

Gadjiev suspirou profundamente. "Sou contra essa abordagem, não é um evento esportivo", disse ele. "Digamos que é uma das mais antigas."

Na verdade, os mitos sobre Derbent parecem proliferar incansavelmente. Não há menção à cidade no Corão ou na Bíblia, ou em qualquer escritura sagrada, comentou ele.

"As pessoas se agarraram a essa ideia de que Derbent tem 5.000 anos e gostaram", disse Gadjiev. "A humanidade também levou muito tempo para perceber que a Terra não é plana."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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