Ex-soldado chileno relembra atrocidades cometidas na ditadura: "isso me corrói"

Pascale Bonnefoy

Em Santiago (Chile)

  • Victor Ruiz Caballero/The New York Times

    Guillermo Padilla, ex-soldado do Exército chileno que assassinou presos políticos

    Guillermo Padilla, ex-soldado do Exército chileno que assassinou presos políticos

A cena assombra Guillermo Padilla há mais de 40 anos. Como um soldado de 18 anos do Exército chileno em 1973, Padilla estava em patrulha com sua unidade em uma cidade do sul quando o proprietário de um supermercado entregou seu próprio filho, o acusando de fornecer munição e alimento a um grupo guerrilheiro.

Os soldados jogaram o jovem em um poço e começaram a atirar nele. Depois retiraram seu corpo ensanguentado e crivado de balas, o colocaram em um caminhão militar e partiram. Padilla estava assistindo de um jipe próximo. 

"Nunca soube para onde foi levado e nem mesmo seu nome", ele disse. "Toda a experiência no Exército fez com que eu amadurecesse rápido. Tornei-me soldado aos 18 e, depois de tudo o que vi, aos 21 tinha me tornado uma pessoa diferente." 

Padilla fazia parte de um comando que passou meses vasculhando as cidades e entrepostos remotos no sul do Chile, no final de 1973, à procura de armas e opositores da ditadura militar do general Augusto Pinochet. A unidade revistou casas, prendeu e torturou suspeitos, matando pelo menos 30 pessoas, ele disse. 

Ele reconheceu ter participado de várias execuções como parte de um pelotão de fuzilamento. "Eu não sentia nada", ele disse. Mas agora, "há momentos em que não consigo tirar as imagens daquelas pessoas de minha cabeça". 

Sob sucessivos governos civis, o Chile está investigando os abusos de direitos humanos cometidos sob a ditadura militar. Mas o progresso tem sido lento. Mais de 1.370 militares, policiais e agentes civis foram indiciados ou sentenciados por crimes de direitos humanos. Dentre esses, apenas 117 pessoas estão na prisão, segundo um relatório divulgado em dezembro pelo Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior. 

Até agora, nenhum recruta foi preso. Os juízes tratam esses soldados com benevolência, na esperança de encorajá-los a se apresentarem e ajudar a estabelecer a verdade. 

"Eles são uma fonte valiosa de informação", disse Mario Carroza, um juiz que está encarregado de mais de 200 casos de direitos humanos. "Eles estavam sujeitos a uma hierarquia militar rígida e foram forçados a obedecer ordens que não podiam recusar. Nossas leis permitem certos benefícios caso cooperem, para que se sintam libertados do peso de manter o segredo." 

Como milhares de outros recrutas, Padilla ainda carrega as cicatrizes emocionais de ter sido forçado a testemunhar ou cometer atrocidades; muitos foram ordenados, sob medo de morte, a espancar, matar, torturar ou estuprar pessoas inocentes. Eles ainda sentem a vergonha e o medo instilados neles enquanto saltavam da adolescência para a idade adulta quase da noite para o dia, e o temor de retaliação, ser evitado pela família e amigos, ou acabar na prisão. 

Mas enquanto a maioria reluta em revelar os segredos de seu passado, Padilla fala francamente de suas experiências. 

"Os outros me dizem para não mencionar as execuções e me recordam de que tenho um lar e família", ele disse. "Minha esposa também não gosta, mas eu perdi todo o medo." 

Padilla, 62 anos, foi convocado para o Exército cinco meses antes dos militares derrubarem o presidente socialista Salvador Allende, em setembro de 1973. Ele nunca imaginou o que o aguardava. 

Segundo um relatório oficial sobre prisões e tortura durante os 17 anos da ditadura Pinochet, depois do golpe, o regimento Puente Alto de Padilla manteve prisioneiros em vagões de trens, vendados, atados e privados de água e comida. Muitos detidos foram submetidos a tortura e estupro. 

Por anos, ele tomou medicação para conseguir dormir à noite e anseia pelo perdão das famílias das vítimas. Mas ele hesita em contatá-las; ele diz não saber como, ciente de que grande parte da sociedade considera os soldados como sendo criminosos. 

Pai de três filhos adultos, Padilla e sua esposa há 40 anos vivem em uma casa modesta e bem cuidada em Cajón del Maipo, uma área montanhosa nos arredores de Santiago, a capital. Ele é um operador de maquinário pesado em Alto Maipo, um projeto de hidrelétrica. 

Ele se descreve como tendo sido um adolescente durão e rebelde, proveniente de um bairro de classe operária da capital, e gostava de boxe. Seu pai morreu quando ele era menino e ele foi criado pela avó em Santiago. Quando foi convocado em 1973, Padilla estava trabalhando em uma mina de gipsita em El Volcán, em Cajón del Maipo, passando os fins de semana com sua avó e namorando uma jovem que trabalhava no refeitório da empresa. 

Meses depois, ele testemunhou a prisão dela durante uma batida na empresa. Ela não o reconheceu enquanto era forçada a sair sob mira de armas, com os braços erguidos, juntamente com outros funcionários. Ele permaneceu calado, vestindo equipamento militar completo e operando uma metralhadora em um jipe, apontada para sua namorada. Ela ficou detida apenas brevemente. Depois que Padilla concluiu o serviço militar em 1975, eles retomaram o relacionamento e se casaram. 

Padilla queria ingressar no Exército. Ele gostava do uniforme e da vida militar, mas não tinha nenhum interesse em política. Ele é cordial e conversador, mas seus olhos se enchem de lágrima ao recordar dos eventos. 

Dias depois do golpe, ele contou, um tenente de seu regimento, Aníbal Barrera, escolheu um grupo de recrutas para fazerem parte de um pelotão de fuzilamento. "Não queríamos ir, mas ele gritou e nos insultou, ameaçando que se não cumpríssemos a ordem, também seríamos mortos", disse Padilla. 

Um prisioneiro foi jogado de bruços em um caminhão e o oficial e soldados o levaram a La Ballena Hill, em Puente Alto, a poucos quilômetros de distância. O preso não estava vendado, mas foi colocado de costas para o pelotão de fuzilamento. Então os soldados foram ordenados a disparar. 

O relato de Padilla corresponde aos registros da execução de José Rodríguez Hernández, que foi preso pela polícia na rua carregando livros marxistas, entregue ao regimento e morto em La Ballena em 14 de setembro de 1973. Décadas depois, Barrera e o comandante do regimento, o coronel Mateo Durruty, reconheceram a morte. Em 2011, Durruty foi sentenciado a quatro anos sob liberdade condicional. Barrera não foi indiciado. 

Padilla não foi identificado como membro do pelotão de fuzilamento e nunca foi chamado para testemunhar no tribunal sobre esse ou qualquer outro crime. Ele passou décadas tentando convencer a si mesmo que não é um assassino. 

"Eu disparei contra pessoas, mas não sei dizer se as matei, porque não sei se meus disparos foram responsáveis pela morte", ele disse. "Ou apenas não quero acreditar." Ele acrescentou: "Isso vem me corroendo durante todos esses anos". 

Quando foi escolhido para a missão no sul, que ele descreveu como uma "caravana da morte", Padilla e outros soldados receberam treinamento especial no Regimento Buin, em Santiago. Certo dia, enquanto os recrutas estavam assistindo a um filme, ele lembrou, os oficiais conduziram um soldado até o pátio e o mataram com um tiro. Os recrutas foram informados que o soldado estava passando informação confidencial para os comunistas. "Eles o mataram ali para que todos nós víssemos o que poderia acontecer conosco", ele disse. 

Apesar de Padilla não saber o nome daquele soldado, ele pode estar se referindo a Mario Gho, um convocado de 19 anos que era contrário ao golpe e foi espancado e executado pelos membros do Regimento Buin em outubro de 1973. 

Sempre que o assunto da convocação e ditadura surge entre amigos, parentes e colegas de trabalho, disse Padilla, lhe perguntam quantas pessoas ele matou. 

Segundo ele, costumam lhe dizer: "Então, você é um dos assassinos de 73?". "Eu convivo o tempo todo com esse tipo de pergunta. Meus filhos ainda não acreditam que pude fazer essas coisas." 

Apesar da passagem do tempo, o desgaste emocional permanece. Agora ele chora até mesmo quando assiste alguns comerciais ou desenhos na televisão, ele disse. Ao longo da última década, centenas de ex-recrutas se organizaram por todo o país e agora estão processando o Estado em busca de indenização pelos danos morais e psicológicos que sofreram durante seu serviço militar obrigatório. 

"Passei dois anos vivendo com medo", disse Padilla. "Éramos apenas meninos e eles destruíram nossas vidas." 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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