Acusado de roubo e sexo gay, comandante do Hamas é morto por superiores

Diaa Hadid e Majd Al Waheidi

Na Cidade de Gaza (Palestina)

  • Wissam Nassar/The New York Times

    Mãe (à direita) e irmã de Mahmoud Ishtiwi (no pôster), que foi morto por seus companheiros militares no Hamas, acusado de roubo e sexo gay em Gaza

    Mãe (à direita) e irmã de Mahmoud Ishtiwi (no pôster), que foi morto por seus companheiros militares no Hamas, acusado de roubo e sexo gay em Gaza

A morte de Mahmoud Ishtiwi teve todos os elementos de uma telenovela: sexo, tortura e corrupção na instituição mais venerada e sigilosa de Gaza, o braço armado do Hamas.

Ishtiwi, 34, era um comandante de uma tradicional família de defensores do Hamas que, durante a guerra de 2014 com Israel, foi responsável por mil combatentes e uma rede de túneis de ataque. No mês passado, seus ex-companheiros o mataram com três balas no peito.

Acrescentando uma camada de escândalo à história, ele foi acusado de depravação moral, o que para o Hamas significa homossexualidade. E houve murmúrios de que ele havia talhado a palavra "zulum" (injustiçado) em seu corpo, numa espécie de último depoimento desesperado.

Sua morte tornou-se o assunto do momento nos bairros conservadores de Gaza, o território litorâneo da Palestina, discutido incansavelmente nas salas de estar, nos postos de controle e nos táxis. Mas para observadores atentos da região isto foi mais substancial que uma telenovela.

Ishtiwi, que deixou duas mulheres e três filhos, não foi o primeiro integrante da ala armada do Hamas, as Brigadas Izzedine al-Qassam, a ser morto pelos próprios companheiros. O fato incomum é que seus parentes falaram abertamente sobre o caso.

A família era considerada da nobreza do Hamas por ter abrigado líderes procurados por Israel, incluindo Mohammed Deif, o comandante do Qassam venerado pelos palestinos. A mãe de Ishtiwi chegou a enviar a Deif, que perdeu um olho e membros, mas sobreviveu a diversas tentativas de assassinato por Israel, uma mensagem de vídeo em que pedia em prantos a libertação de seu filho.

Ibrahim al-Madhoun, um escritor ligado ao Hamas, o grupo islamista que controla Gaza, disse que a situação salientou mudanças desde que Yehya Sinwar foi eleito em 2012 para representar o Qassam no braço político do Hamas, um papel semelhante ao de ministro da Defesa. Os atos de Sinwar, disse ele, mostraram que nem mesmo figuras graduadas são invioláveis.

"Ele é mais duro que outros líderes, ele quer que seu Exército seja puro", disse al Madhoun em uma entrevista. "Os que estão no Qassam são as pessoas mais importantes de Gaza. É necessário, dizem eles, mostrar que essas pessoas não são intocáveis."

O Qassam emitiu uma declaração em 7 de fevereiro anunciando a execução de Ishtiwi, mas seu porta-voz e integrantes do Hamas em geral se recusaram a comentar desde então. Uma autoridade graduada do Hamas, porém, confirmou alguns fatos e os contornos gerais do caso, sob a condição de não ser identificado, dizendo que não queria ser envolvido em um assunto considerado vergonhoso para o movimento Hamas e trágico para a família.

A HRW (Human Rights Watch, uma organização de defesa dos direitos humanos) investigou a morte. O grupo e um trabalhador de ajuda internacional que acompanhou de perto o caso revelaram detalhes. A mãe de Ishtiwi e 11 de seus irmãos também foram entrevistados para esta reportagem, juntamente com ativistas de direitos humanos baseados em Gaza que acompanharam partes da história.

Ishtiwi tinha 19 anos quando entrou para o Qassam, seguindo três de seus cinco irmãos. Um deles, Ahmad, foi morto em um ataque israelense em 2003.
Ele se tornou um comandante em Zeitoun, seu próprio bairro pobre na cidade de Gaza. Durante a guerra de 2014, bombas israelenses destruíram o prédio de apartamentos de sua família e a casa de sua segunda mulher.

Cinco meses depois dessa batalha mortal, em 21 de janeiro de 2015, Ishtiwi foi convocado para um interrogatório por autoridades da inteligência militar do Qassam. Oficiais que faziam uma investigação posterior à guerra suspeitavam que ele tivesse desviado dinheiro alocado a sua unidade para a compra de armas. "Você tem dinheiro?", indagaram-lhe, segundo parentes. "Em que você o gastou?"

Ele admitiu que tinha guardado dinheiro destinado às brigadas, e assim, segundo sua irmã Buthaina, 27, "começou a telenovela da tortura".
A autoridade do Hamas disse que a rápida confissão de Ishtiwi despertou suspeitas de que ele ocultava algo maior.

Começou uma investigação minuciosa, que incluiu soldados de Ishtiwi. Membros do Qassam encontraram um homem que afirmou que fez sexo com Ishtiwi e forneceu datas e locais. Eles concluíram que o dinheiro que faltava foi usado para pagar pelo sexo ou para manter o homem calado.

Se as autoridades de inteligência de Israel sabiam que Ishtiwi era gay, deduziram as autoridades, talvez ele tivesse dado informações em troca de manter um segredo que, se descoberto, o teria transformado em pária em sua sociedade.

Surgiram rumores de que Ishtiwi havia dado às forças de Israel as coordenadas para uma tentativa de assassinato em 20 de agosto de 2014 contra Deif, que matou uma das mulheres dele e seu filho bebê. Mas não houve provas de que Ishtiwi realmente fez isso.

Em 15 de fevereiro de 2015, dois irmãos de Ishtiwi o visitaram na base do Qassam.

"Mahmoud, ouvimos as coisas que estão dizendo sobre você. É verdade?", sua irmã Samia, hoje com 29 anos, lembra que lhe perguntou. Ishtiwi assentiu de cabeça.

Desconfiada, Samia voltou-se para os dois guardas ao lado dele. "Ele está concordando porque vocês o espancaram?", ela teria indagado. "Eles disseram: 'Ele confessou sem que lhe déssemos um único tapa'."

Mas então, contou ela, viu seu irmão levantar a mão, revelando a palavra "zulum" escrita com caneta três vezes na palma. Ela não tinha uma foto para provar isso.

Em 7 de junho, quando Samia visitou seu irmão em uma base do Qassam perto do mercado de carros usados da cidade de Gaza, Ishtiwi "parecia arrasado", lembrou ela. "Eu perguntei: 'Por que você está chorando, irmão?', e ele disse: 'Fui injustiçado'."

Parentes disseram que Ishtiwi lhes contou que foi pendurado do teto durante horas, por dias seguidos. Ele foi açoitado, e os guardas tocavam música em alto volume em sua cela para impedir que dormisse.

Samia disse que ele levantou a perna da calça para mostrar que tinha escavado a palavra "zulum" em sua pele com um prego, como mensagem caso fosse morto. Isso não foi confirmado.

O dia dez de agosto foi o último em que a família viu Ishtiwi. Mais tarde, sua mãe enviou seu emotivo vídeo de oito minutos para Deif, o chefe do Qassam, suplicando-lhe que salvasse a vida de Ishtiwi. Ela lhe lembrou que o havia abrigado com grande risco pessoal e suplicou: "Liberte meu filho."

A família de Ishtiwi continuou pressionando as autoridades por sua libertação. A última dessas reuniões, com um importante pregador do Hamas e dois outros homens na casa alugada da família em Zeitoun, durou até as 2h de 7 de fevereiro.

Ishtiwi foi morto naquele mesmo dia, depois que fez suas orações da tarde.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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