Análise: Ataques evidenciam vulnerabilidade dos serviços de segurança belgas

Adam Nossiter

Em Paris (França)

Desde os ataques de novembro de 2015 em Paris, as autoridades belgas efetuaram dezenas de batidas policiais, vasculharam bairros inteiros em busca de militantes conhecidos e até isolaram a capital durante dias, como parte da promessa de intensificar os esforços para localizar os jihadistas.

Mas nada disso evidentemente atrapalhou os planos dos atentados de terça-feira (22) no principal aeroporto internacional de Bruxelas e em uma estação de metrô no centro da sede da União Europeia.

Os novos ataques mais uma vez salientaram não apenas a fraqueza dos serviços de segurança da Bélgica, como também a persistência e a perspectiva cada vez mais perigosa do que vários especialistas em inteligência descreveram como um meio simpático para que células terroristas se formem, escondam e operem no centro da Europa.

Os atentados desencadearam uma nova rodada de exames de consciência sobre se os serviços de segurança europeus devem redobrar seus esforços, mesmo sob o risco de afetar as liberdades civis, ou se esses ataques se tornaram uma parte inevitável da vida em uma sociedade europeia aberta.

No mínimo, eles expuseram a antiga vulnerabilidade da Europa ao terrorismo, em uma era de viagens e comunicações fáceis e de crescente militância.

Mesmo antes que as autoridades belgas capturassem Salah Abdeslam na sexta-feira (18), por sua suposta participação nos ataques de 13 de novembro em Paris que mataram 130 pessoas, já haviam detido ou prendido dezenas de suspeitos direta ou perifericamente relacionados ao que elas descreveram como uma rede terrorista ligada ao Estado Islâmico (EI).

Mas, apesar do sucesso na detenção de Abdeslam, a Bélgica continua representando um problema especial de segurança para a Europa.

O país de apenas 11,2 milhões de habitantes enfrenta amplas críticas como sendo o país falido mais rico do mundo --uma preocupante mistura de redes terroristas com profundas raízes; um governo enfraquecido pelas divisões entre os habitantes que falam francês, holandês ou alemão; e um serviço de inteligência sobrecarregado, em uma confusão aparentemente crônica.

Também é o lar do que Bernard Squarcini, um ex-chefe da inteligência interna da França, descreveu como "um ecossistema favorável: um ambiente islâmico, e um ambiente familiar", que teve um papel importante ao abrigar Abdeslam e também talvez para os ataques de terça-feira.

"Isso mostra que eles estavam em um bairro que pode abrigar células durante meses, porque é um bairro favorável a elas", disse ele, referindo-se a Molenbeek, o distrito de Bruxelas onde os atacantes de Paris viviam e onde Abdeslam pôde se esconder entre parentes e amigos.

O código de silêncio cultural no bairro de maioria imigrante, assim como a desconfiança generalizada nas autoridades já enfraquecidas, forneceu o que representa uma quinta-coluna ou base avançada para o EI.

Há semanas os agentes de inteligência avisavam que o próximo grande ataque terrorista em solo europeu era apenas uma questão de tempo. Mesmo antes de terça-feira, Squarcini previu que "haverá um atentado ainda mais sério", porque, segundo ele, "as pessoas já estão situadas".

Reprodução/Twitter/@BFMTV
Suspeitos no aeroporto de Bruxelas; o de chapéu está foragido

De fato, o suposto orquestrador dos atentados de Paris, Abdelhamid Abaaoud, que vivia em Molenbeek, gabou-se para seu primo antes de ser morto de que "90" agentes estavam dormentes, prontos para outro ataque.

Alguns especialistas em segurança e inteligência viram as explosões de terça-feira como uma prova de que as sociedades abertas da Europa, mesmo sob estados de emergência, nunca estarão livres de risco.

Mas os riscos são fatalmente ampliados, segundo alguns, pelas falhas em toda a Europa no compartilhamento de informações e na fraqueza de uma inteligência belga que, segundo Squarcini, não tem capacidade para captar os "sinais fracos" de tramas emergentes.

"Os belgas são limitados demais para conseguir tratar vários alvos ao mesmo tempo", disse Squarcini em uma entrevista há algumas semanas.

"Depois de um fim de semana de elogios mútuos" pela prisão de Abdeslam, disse ele na terça-feira, "claramente não vimos a segunda onda chegar."

Mas as falhas políticas e sociais permitiram que as células militantes se tornassem profundamente enraizadas, advertiram especialistas, e elas eram igualmente ou ainda mais preocupantes. As autoridades belgas passaram semanas procurando Abdeslam, mas deixaram de localizar os atacantes de terça-feira.

"O modo de ação foi estruturado e combinado", disse Ralf Jaeger, ministro do Interior da Renânia do Norte-Vestfália, um Estado alemão vizinho à Bélgica, "o que supõe a formação de uma célula. E é isso que é assustador: que tal célula não pudesse ser descoberta".

As que já estão implantadas na Europa talvez possuam melhores técnicas de fabricação de bombas e táticas, que possam ser adaptadas facilmente conforme as medidas de segurança adicionais implementadas pela polícia e o governo.

Por exemplo, o ataque ao balcão de check-in no aeroporto de Bruxelas infligiu sérias baixas e perturbou as viagens aéreas, enquanto zombou dos milhões gastos em segurança adicional na verificação de passageiros antes do embarque nos aviões.

Squarcini disse que a segurança dos aeroportos agora deverá ser revisada em todo o continente, para incluir a área de aproximação dos balcões de check-in, como já acontece em certos países.

Outros enfatizaram que as camadas progressivas de novas medidas de segurança só podem ir até certo ponto. A não ser com uma ocupação no estilo militar, a ameaça de uma rede bem estabelecida com certo grau de cumplicidade local nunca pode ser totalmente afastada, segundo especialistas.

"Estamos pagando por nossa ingenuidade", disse Jacques Myard, um parlamentar francês que está na Comissão de Inteligência de seu país. "Não é uma fraqueza da inteligência. É uma fraqueza da sociedade."

"As células dormentes estavam lá, e estão bem implantadas", disse Myard, que é membro do Partido Republicano, conservador. Há dois anos os serviços de inteligência "vêm nos dizendo: nunca vimos tamanho influxo" de agentes terroristas.

Não ficou claro se os atentados de terça-feira foram uma reação à prisão de Abdeslam ou estavam previstos havia tempo. Em todo caso, disse Alain Juillet, que ajudou a reorganizar o serviço de inteligência externa da França como chefe do mesmo, "não é surpreendente".

"É a única coisa que posso dizer", afirmou ele. "Podemos ver facilmente que a Bélgica se tornou um polo."

Mas o paradoxo fatal para a Europa é que, em um continente sem fronteiras, tais problemas se tornam transnacionais. As falhas de um país são necessariamente amplificadas.

Agora os problemas na Bélgica ameaçam não apenas as vidas em toda a Europa, mas também a experiência de integração do continente. Se a UE, com seu compromisso de abrir as fronteiras, é forte o suficiente para suportar as tensões que se somam aos anos de crise econômica é uma pergunta ainda mais aberta.

"Parece que os alvos claros dos atentados --um aeroporto internacional, uma estação de metrô próxima das instituições europeias-- indicam que esse ataque terrorista não visou somente a Bélgica", disse o ministro do Interior da Alemanha, Thomas de Maizière, em uma entrevista coletiva em Berlim. "Visou nossa liberdade, liberdade de movimento, mobilidade e a todos na UE."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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