Em revista online, EI pinta retrato de terroristas de Bruxelas

Rukmini Callimachi

  • Polícia Federal belga/ AFP

    Najim Laachraoui, 25, é apontado como principal suspeito pelo atentado no aeroporto de Bruxelas

    Najim Laachraoui, 25, é apontado como principal suspeito pelo atentado no aeroporto de Bruxelas

Em algum lugar existe um arquivo digital que contém os retratos da rede de combatentes do Estado Islâmico na Europa. A imagem de cada um foi armazenada nessa base de dados meses antes dos ataques do ano passado em Paris, e depois de cada novo atentado terrorista o grupo o acessou e divulgou as fotos. Foi assim na última quarta-feira (6).

O número mais recente da revista "Dabiq", a elegante publicação online do Estado Islâmico (EI), inclui uma imagem de Najim Laachraoui, 24 anos, um ex-aluno de escola católica que foi visto pela última vez entrando com uma mala-bomba com rodinhas no aeroporto de Bruxelas. Ele usa roupas militares e pisca com sadismo para a câmera. Ao seu lado está um homem com uma faca ensanguentada, sugerindo que acabaram de decapitar um prisioneiro.

Vale a pena notar que os uniformes dos dois homens são exatamente iguais aos usados pelos atacantes em Paris no ano passado, como se vê em outro conjunto de fotos e em um vídeo que as acompanha, também obtidos no arquivo. Estas foram feitas em algum lugar da Síria ou do Iraque antes dos atentados, e divulgadas pouco depois. Mostram o mesmo desenho de camuflagem para o deserto, os mesmos bonés cáqui e coletes táticos, as mesmas luvas cortadas e a cena grotesca de derramamento de sangue.

Antes de voltar à Europa, tanto o homem-bomba de Bruxelas como os terroristas de Paris posaram em cenas cuidadosamente coreografadas, mostrando as atrocidades que cometeram na Síria e no Iraque. O objetivo é claro: mostrar ao Ocidente que os atacantes realmente foram enviados pelo núcleo da máquina de terror do grupo.

Em uma breve biografia de Laachraoui, que também é identificado pelo nome de guerra Abu Idris al-Baljiki, o EI diz que foi ele quem fabricou as bombas para os atentados de Paris e de Bruxelas. A biografia também afirma que a primeira incursão do terrorista suicida na Síria foi como recruta no batalhão de Amr al-Absi, o líder de um grupo que se denomina Conselho Shura Mujahidin.

Em 2012, esse grupo tornou-se um ímã para os jihadistas europeus, especialmente belgas, que acorreram a uma propriedade cercada de muros em Kafr Hamra, próxima de Alepo, na Síria, como relatou Ben Taub em "The New York Times".

Mais tarde, o grupo de al-Absi prometeu fidelidade ao EI. A biografia diz que Laachraoui "foi um dos primeiros, juntamente com o resto de seu grupo, a jurar fidelidade".

Divulgação/Reuters
Capa da revista "Dabiq", de janeiro, com foto de nove terroristas que atacaram Paris em novembro de 2015 e mais dois homens apresentados como iraquianos

Laachraoui passou meses se recuperando de um ferimento de bala na perna, segundo a revista, antes de começar a treinar "para realizar seu sonho de voltar à Europa para vingar os muçulmanos". Depois de terminar o treinamento, "ele viajou pela longa estrada até a França para executar sua operação".

Até as fotos que o EI parece não ter podem ajudar a responder a algumas perguntas.

Nem Ibrahim El Bakraoui, que se explodiu às 7h58 de 22 de março no aeroporto de Bruxelas, nem seu irmão Khalid El Bakraoui, que detonou seus explosivos às 9h11 em um vagão de metrô na capital belga, aparecem entre as imagens dos combatentes na Síria. Suas biografias em "Dabiq" não mencionam viagens à Síria, mas dizem que os irmãos foram radicalizados quando estavam presos na Europa.

Isso sugere que nenhum deles chegou à Síria --algo que é questionado desde junho, quando as autoridades turcas detiveram Ibrahim El Bakraoui em Gaziantep, cidade próxima à fronteira síria.

Esta é um ponto de passagem conhecido para combatentes estrangeiros que seguem para entrar no Estado Islâmico, por isso justificadamente levou à especulação de que Ibrahim havia encontrado o EI no interior da Síria. Mas o artigo na revista do grupo, além do fato de que nenhum dos irmãos posou para a foto de divulgação que se tornou padrão, parece resolver a questão.

A biografia de Ibrahim diz que na prisão --onde esteve por uma série de assaltos violentos-- ele começou a ler sobre as atrocidades cometidas contra os muçulmanos na Síria.

"Alguma coisa fez um clique", diz o texto. "Depois que foi libertado da prisão, ele rapidamente se uniu a seu irmão Khalid e começaram a comprar armas, a procurar abrigos e a fazer planos."

O EI atribui os ataques de 13 de novembro em Paris aos irmãos El Bakraoui: "Foi primeiramente devido a Alá, e depois a Ibrahim e seu irmão que o ataque em Paris ocorreu".

Embora aparentemente nenhum dos dois tenha ido à Síria, a revista do EI relata uma complexa série de sonhos que Khalid supostamente teve durante sua prisão na Europa.

Os sonhos têm um papel importante na ideologia jihadista, sendo considerados premonições inspiradas por Alá.

No primeiro sonho, El Bakraoui teria visto o profeta Maomé a cavalo, na batalha. Então ele viu a si mesmo como um arqueiro disparando flechas contra o inimigo.

O redator narra mais dois sonhos de El Bakraoui, incluindo um que ele supostamente teve depois dos ataques em Paris.

Nesse último, ele detona seu cinturão de explosivos e sua cabeça cai ao chão, onde é recolhida por Abu Muhammad al-Adnani, o porta-voz oficial do EI.

Hoje sabemos que, além de ser o principal propagandista do grupo, al-Adnani também comandou uma filial dentro do EI dedicada a cometer ataques na Europa.

O simbolismo é claro: o EI quer que o mundo saiba que a filial de operações externas e al-Adnani foram diretamente responsáveis pela chacina em Bruxelas.

"Paris foi um aviso", diz a revista mais adiante. "Bruxelas foi um lembrete. O que está por vir será mais devastador e mais amargo."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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