Mães de vítimas negras de violência policial reforçam campanha de Hillary Clinton

Amy Chozick

  • Gabriella Demczuk/The New York Times

    Gwen Carr, mãe de Eric Garner, participa de fórum de mães que perderam filhos para a violência policial, em apoio à candidatura de Hillary Clinton, em Sumter (Carolina do Sul)

    Gwen Carr, mãe de Eric Garner, participa de fórum de mães que perderam filhos para a violência policial, em apoio à candidatura de Hillary Clinton, em Sumter (Carolina do Sul)

O Café Sweet Maple, em Chicago, famoso por seus sanduíches de queijo quente e biscoitos doces ao leite, costuma fechar diariamente depois do movimento do almoço. Mas em uma tarde de novembro o restaurante abriu para um jantar privado incomum.

As mães de Michael Brown, Trayvon Martin, Eric Garner e Tamir Rice, mais meia dúzia de mulheres negras que perderam filhos em choques com a polícia ou para a violência armada, vieram de todo o país para se reunir em torno de uma mesa. A elas juntou-se Hillary Clinton, que lhes pediu, uma a uma, que contassem suas histórias.

"Ela pegou seu caderno e uma caneta-tinteiro, tomou notas e nos perguntou de que precisávamos", disse Maria Hamilton, cujo filho Dontre levou 14 tiros de um policial branco em Milwaukee em 2014.

Hillary pareceu "sofrer visivelmente" enquanto as mães falaram, segundo Lucia McBath, cujo filho de 17 anos, Jordan Davis, foi morto a tiros depois que tocou música em alto volume em seu carro em 2012.

Desde então, essas mães, muitas das quais não se conheciam antes que a campanha de Hillary as levasse até Chicago para a reunião, percorreram os Estados das primárias, aparecendo com a candidata em igrejas e barbearias de Ohio à Carolina do Sul. Elas participaram de um comercial que foi divulgado em Cleveland, Chicago e St. Louis. E a campanha pagou suas despesas de viagem para que pudessem participar dos debates presidenciais democratas.

"Lá estava eu, sentada atrás de Donna Brazile e na frente de Cornel West", disse Geneva Reed-Veal, mãe de Sandra Bland, que morreu sob a custódia da polícia do Texas no ano passado, depois de discutir com um patrulheiro estadual. "Ninguém sabia que estávamos lá."

A campanha de Hillary batizou essa irmandade, forjada na perda compartilhada de um filho, de "Mães do Movimento", e elas se tornaram um apoio improvável do sucesso de Hillary nas primárias democratas. Nas escalas da campanha, Hillary as apresenta como "um grupo de mães que pertence a um clube no qual ninguém quer entrar".

As mães chegarão a Nova York esta semana para ajudar Hillary a competir na primária de 19 de abril.

Gabriella Demczuk/The New York Times
Sybrina Fulton, mãe de Trayvon Martin, ouve fala de Hillary Clinton na Igreja Batista Central em Columbia, Carolina do Sul

Ter essas mães ao seu lado deu a Hillary testemunhas de um caráter poderoso e profundamente simpático quando ela defende sua tese aos eleitores afro-americanos. E elas deram à sua campanha, uma operação que é geralmente cautelosa e baseada em pesquisas, uma sensação crua, humana e às vezes muito emocionante.

A presença das mães também se mostrou uma medida política hábil, influenciando os líderes e legisladores negros a apoiar Hillary.

"Os que não a apoiam relutam em ir contra ela, porque lideramos as marchas e os comícios sobre essas coisas e trabalhamos muito perto das mães", disse o reverendo Al Sharpton, cuja Rede de Ação Nacional receberá Hillary e seu adversário nas primárias democratas, o senador Bernie Sanders, de Vermont, para discutir questões de direitos civis em sua conferência anual esta semana em Nova York.

"Certamente influencia como nos relacionamos com sua campanha", acrescentou Sharpton, que não apoiou um candidato.

Na quarta-feira passada (6), Hillary recebeu o maior aplauso em uma recepção bastante morna na convenção de Sharpton, quando ela apresentou Sybrina Fulton, mãe de Martin, e Gwen Carr, mãe de Garner.

Sanders tem o apoio da filha de Garner, Erica, do diretor de cinema Spike Lee e de outras figuras negras proeminentes, e ele fala frequentemente que foi preso nos anos 1960 quando protestava pelos direitos civis.

Mas as mães permitiram que Hillary "realmente entrasse na circulação da comunidade negra", disse a deputada democrata Yvette D. Clarke, de Nova York, que apoiou Hillary.

"O outro candidato no lado democrata não nos procurou", disse em um evento de campanha no mês passado Annette Nance-Holt, cujo filho de 16 anos, Blair Holt, foi morto a tiros em um ônibus em Chicago em 2007.

Ela explicou friamente que não foi influenciada pela promessa de faculdade grátis de Sanders, "porque meu filho está morto".

A aproximação de Hillary das mulheres começou cedo, mesmo antes que ela tivesse anunciado oficialmente sua candidatura à Presidência, e continuou durante toda a campanha.

Para muitas das mães, apoiar Hillary significa absolvê-la da dor causada pelas políticas de seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, incluindo uma lei de 1994 para a construção de mais prisões, a colocação de mais 100 mil policiais nas ruas e o aumento das sentenças para crimes não violentos ligados a drogas.

Gabriella Demczuk/The New York Times
Mulher segura cartaz em evento a favor de Hillary Clinton na Igreja Batista Central, em Columbia

Garner, que apareceu em um anúncio para Sanders, disse que Hillary Clinton está "constantemente mencionando o nome de meu pai", mas antes havia "chamado pessoas como meu pai de 'superpredadores'".

Hillary usou o termo em 1996 para descrever membros de gangues urbanas e mais tarde disse que lamentava o fato. E na semana passada Bill Clinton enfrentou uma intensa reação depois que ele sufocou os cantos dos manifestantes do Vidas Negras Importam.

"Ela não é o seu marido", disse Nance-Holt em uma entrevista. "Ela é uma mulher independente."

As mães também devem enfrentar os críticos que dizem que a aproximação precoce e frequente de Hillary é uma trama cínica para atrair os eleitores negros, que majoritariamente inclinaram as primárias a seu favor.

"As pessoas dizem por aí: 'Você está sendo cafetinada pela secretária'", disse Reed-Veal. "Quem diabos vai nos explorar?"

Hillary mostra um lado diferente quando está perto das mães. Ela fala menos e parece mais maternal e emotiva, recorrendo às Escrituras em reação ao sofrimento das mães.

"Não nos cansemos de fazer o bem, porque no devido tempo colheremos, se mantivermos o foco", diz ela com frequência, parafraseando Gálatas 6:9.

"Ninguém pode negar que Bernie Sanders tem o mesmo nível de simpatia e compaixão, mas Deus nos colocou em todo tipo de embalagem", disse o deputado Charles B. Rangel, de Nova York, que apoia Hillary. "Ele não parece ter compaixão. Parece um sujeito causando confusão na TV."

Os eventos em que as mães aparecem provocam reações emocionais. Na Igreja Batista da comunidade do tabernáculo, em Milwaukee, no mês passado, uma mulher da congregação chorava enquanto as mães contavam suas histórias.

"Quando ouvimos aqueles gritos, nós entendemos", disse Nance-Holt, que tinha vindo de carro de Chicago para fazer campanha por Hillary. "Era o som de alguém que teve seu filho assassinado."

Depois do evento, a campanha levou a mulher para os bastidores para se encontrar com Hillary. A candidata escutou atentamente sua história e prometeu tomar medidas.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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