Em Hong Kong, Gucci se revolta contra queima de réplicas em oferendas a mortos

Michael Forsythe

Em Hong Kong

  • Lam Yik Fei/The New York Times

    Réplicas de papel de produtos Gucci à venda em Hong Kong para serem queimadas como oferendas a parentes mortos

    Réplicas de papel de produtos Gucci à venda em Hong Kong para serem queimadas como oferendas a parentes mortos

Na Java Road, em Hong Kong, um par de mocassins de couro marrom Gucci, lindamente embrulhado em celofane, está pendurado em uma vitrine --a maior pechincha da vida, por menos de US$ 3 (R$ 10,60).

Mas não desta vida.

Os sapatos são réplicas de papel e foram feitos para ser queimados como oferendas a parentes mortos --a versão moderna de um antigo costume chinês. Em lojas especializadas por toda a cidade, os familiares podem escolher entre uma gama impressionante de artigos para enviar a seus queridos que já partiram, incluindo carros esportivos italianos, smartphones, pacotes de cerveja, vestidos e blazers.

Uma loja próxima ao Mosteiro dos Dez Mil Budas, em Hong Kong, vende até réplicas em papel de lanches do McDonald's, com fritas, refrigerante e um pacote de algo chamado "Chicken MuNeggtc".

Mas as bolsas e sapatos Gucci que a vovó talvez cobiçasse quando estava entre os vivos agora parecem fora de seu alcance etéreo. Uma vendedora tirou rapidamente os mocassins das mãos de um cliente que indagava, explicando que não estavam mais à venda.

Parece que o zelo da Gucci em proteger sua marca chega até o além.

Na semana passada, sua companhia matriz sediada em Paris, a Kering, enviou uma carta a seis lojas locais que vendem presentes de papel, dizendo-lhes para parar de vender réplicas de produtos Gucci porque estavam usando sua famosa marca registrada, que enfeita calçados, carteiras, chapéus, joias e bolsas femininas.

"Queremos que eles saibam que a Gucci é uma marca registrada e que vamos tentar protegê-la", disse por telefone a porta-voz da Kering em Hong Kong, Charlotte Judet. "Respeitamos plenamente o contexto fúnebre."

Elaboradas oferendas de papel aos mortos estão à venda em todo o mundo, disponíveis aos moradores de toda a Ásia, do Camboja à China continental. Na China, os parentes podem comprar, com alguns cliques do mouse ou toques em um smartphone, réplicas de tudo, de plantas bonsai a televisores de tela plana, para entrega em domicílio.

Conforme as rendas subiram e o consumismo dominou o continente, as imitações em papelão, que antes se restringiam a dinheiro falso, tornaram-se cada vez mais elaboradas. Uma loja oferece um aparelho de ar-condicionado de papel, supostamente para parentes que possam estar em locais quentes no além-mundo.

A prática migrou através do oceano. Em 2011 em Nova York, um lojista de Chinatown foi preso por vender réplicas de papelão de bolsas e sapatos de grife e acusado de infringir os direitos autorais.

Lam Yik Fei/The New York Times
Homem carrega réplica de Mercedez-Benz de papel em Hong Kong

Mas a Gucci decidiu tomar medidas em Hong Kong, e não em Pequim, Nova York ou Bancoc. As forças em jogo definem essencialmente o lugar de Hong Kong no mundo. Eis uma cidade que combina uma cultura de consumo sem limites, um forte laço com as antigas tradições chinesas e um sistema jurídico sólido, herdado dos britânicos, que respeita e aplica os direitos de propriedade intelectual. Hong Kong é, na essência, uma mistura de cultura europeia, capitalismo global e direito ocidental.

"A população de Hong Kong respeita a lei", disse em entrevista por telefone Alice Lee, professora-associada de direito na Universidade de Hong Kong e uma especialista em propriedade intelectual. "Tivemos o benefício do domínio britânico por muito tempo."

Mas Lee disse que a Gucci teria dificuldade para provar que os fabricantes das oferendas de papel infringiram sua marca. Para processar com sucesso uma infração de marca registrada, disse ela, uma empresa precisaria demonstrar que as pessoas confundem as réplicas de papelão com produtos de verdade, o que é altamente improvável.

Seu colega Haochen Sun, professor que estuda a proteção de marcas registradas de grifes de luxo, disse que a Gucci poderia mover uma ação pela lei de Hong Kong se afirmasse que as oferendas de papel, vendidas em locais que ficam a poucos quarteirões das lojas reais da marca, eliminam a "diferenciação" da marca Gucci ou lhe causam dano.

As sutilezas da lei de marcas registradas ainda não chegaram ao nível das ruas.

Em vez de risos, a carta da Gucci, que não ameaçava uma ação legal nem pedia indenização, provocou a aceitação de algumas lojas de presentes de papel. Na Java Road, os presentes Gucci para mortos desapareceram das prateleiras, pois os lojistas temiam que suas pequenas empresas falissem caso submetidas a um processo legal.

Sentada numa banqueta no fundo da loja, depois dos pacotes de incenso e cigarros falsos de marcas como "Danhill", "Lucky Strlke", "Marlbero" e "Sailem", uma proprietária, que pediu para ser identificada só pelo sobrenome, Chan, disse que ela e outros tiveram que acatar porque suas empresas são muito pequenas.

Para a Gucci foi uma vitória fácil, embora sua carta tenha causado certo ridículo na imprensa local.

"O simbolismo de uma empresa de luxo global, de muitos bilhões de dólares, 'advertir' os comerciantes mais pobres da cidade por causa de artigos que jamais seriam confundidos com os verdadeiros parece um pouco de prepotência", escreveu na terça-feira (3) a editora de moda do jornal "The South China Morning Post", Jing Zhang.

Lam Yik Fei/The New York Times
Loja vende réplicas de papel em Hong Kong

Lee, a professora de direito, tinha uma interpretação diferente. "Atingiu o objetivo", disse. "Eles quiseram mostrar ao mundo que levam a sério seus direitos de propriedade intelectual."

Os comerciantes lamentam o que consideram um absurdo total. Seu mercado-alvo, os mortos, não parece interferir com os clientes abastados, ou aspirantes a, vivos e respirantes da Gucci que frequentam suas lojas em Hong Kong, um dos principais mercados da empresa.

"Nossos clientes são totalmente diferentes", disse um lojista na área do Mosteiro dos Dez Mil Budas, que só deu seu sobrenome, Lan. "Eles queimam essas coisas para enviá-las aos espíritos."

Nem Chan nem Lan receberam uma carta da Gucci. Chan leu a respeito no jornal e rapidamente agiu para exorcizar sua loja de qualquer réplica de produtos da marca.

Na verdade, a palavra "Gucci" raramente aparece no mundo dos presentes de papel. Em quase todos os casos, os fabricantes, de algum lugar na China continental, modificam a grafia. Os "mocassins Gucci" na loja ao lado exibiam a etiqueta "Guuci". Lan, que na segunda-feira ainda não ouvira falar na carta de advertência, tinha à venda uma bolsa de papel "Gueei".

Para Chan, toda a ideia de a Gucci ameaçar com essa ação é estranha. "Não tem nada a ver conosco", disse ela.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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