Em uma das piores secas de sua história, Califórnia suspende racionamento de água

Adam Nagourney e Ian Lovett

Em Los Angeles (Califórnia)

  • Monica Almeida/The New York Times

    Luis Uribe, dono da empresa de paisagismo, A Greener Tomorrow, trabalha em quintal em Culver City, na Califórnia

    Luis Uribe, dono da empresa de paisagismo, A Greener Tomorrow, trabalha em quintal em Culver City, na Califórnia

A Califórnia suspendeu na quarta-feira (18) sua redução obrigatória de 25% no uso urbano de água pelo Estado, dizendo que as comunidades locais devem estabelecer critérios próprios, depois de um inverno relativamente úmido e um ano de enorme economia no uso de água nas cidades.

As novas regras são uma mudança drástica nas políticas de um Estado que luta para administrar uma das piores secas de sua história.

Elas são consequência de um inverno em que as tempestades do El Niño ficaram aquém do que os meteorologistas projetaram --especialmente na parte sul do Estado--, mas ainda encheram parcialmente as represas ressecadas no norte da Califórnia e, de maneira mais crítica, recuperaram parte da camada de neve nas montanhas, que fornecem água na primavera e no verão.

Os californianos, reagindo a um decreto executivo emitido em abril passado pelo governador Jerry Brown, reduziram o uso da água potável urbana em 24%, em comparação com os níveis de 2013.

As autoridades disseram estar esperançosas de que a redução seja permanente, por causa das mudanças adotadas na utilização da água, como substituir gramados por arbustos resistentes à seca.

As regras não se aplicam à agricultura, que é coberta por regulamentos diferentes e responde pelo maior volume de água usada no Estado. Cortes no abastecimento com base em prioridades foram impostos no ano passado, mas alguns já foram suspensos conforme aumentou a disponibilidade de água.

As regras adotadas pelo Conselho de Controle de Recursos Hídricos da Califórnia provavelmente representarão um enorme recuo --e em alguns lugares a eliminação-- do racionamento de água obrigatório que levou pessoas, empresas e governos a reduzir as regas de jardins e gramados, a tomar banhos mais rápidos e usar menos descarga nos banheiros.

Autoridades estaduais disseram que a seca, que já chega ao quinto ano, não terminou e que os californianos tinham de se adaptar em caráter permanente a tempos mais áridos, por causa da mudança climática.

Enquanto as autoridades abrandavam as regras, o Estado tornou permanentes as proibições de lavar calçadas e entradas de garagens, usar mangueiras sem válvula de controle para lavar carros e o uso de água em "ilhas" divisórias nas ruas.

Mas as autoridades disseram que as condições melhoraram o suficiente para que as medidas rígidas que Brown anunciou não fossem mais necessárias.

Max Whittaker/The New York Times
Alek Crnogorac, especialista em conservação da água, verifica mecanismo de aspersão no quintal de Steve Wong, em Sacramento

"Ainda estamos em seca, porém não mais com a pior camada de neve em 500 anos", disse Felicia Marcus, chefe do Conselho Hídrico Estadual. "Pensamos que estivéssemos rumando para o precipício. Temíamos que fosse uma seca do milênio no estilo australiano. Queríamos ter certeza de que as pessoas parassem de jogar água no jardim sem pensar."

Muitas das 411 agências hídricas da Califórnia, enquanto cumpriam o racionamento obrigatório, queixaram-se de que a exigência estadual não levou em conta as condições de abastecimento, que variam muito de região para região. E algumas, como Beverly Hills, com suas propriedades cercadas de imensos gramados e jardins, resistiram no início, mas afinal aceitaram.

Sob as novas regras, que entrarão em vigor em 1º de junho próximo, as comunidades definirão diretrizes de redução conforme suas próprias projeções de reservas de água, supondo que os próximos três anos continuarão extremamente secos. O Estado reveria as projeções e poderia impor restrições às comunidades que considere irreais.

Max Gomberg, o diretor de clima e conservação do conselho, disse que vai reavaliar a ordem novamente em janeiro e poderá voltar ao racionamento estadual se as comunidades retomarem seus hábitos de consumo anteriores, ou se a seca piorar no ano que vem.

Alguns meteorologistas preveem um padrão climático no próximo ano conhecido como La Niña, o oposto de El Niño, o que significa que os níveis de chuvas ficarão muito abaixo do normal.

"Se parecer que as pessoas esqueceram o fato de que há uma seca, e voltarem a gastar com exagero, levaremos isso em consideração", disse ele.

Tim Quinn, diretor-executivo da Associação de Agências Hídricas da Califórnia, aplaudiu a reversão, dizendo que as restrições em todo o Estado não levaram em conta as comunidades que já tinham tomado medidas para economizar água.

"Este governo, mais que a maioria, ouve, aprende, se adapta e melhora", disse ele.

Jim Wilson/The New York Times
Os pesquisadores Mohammad Safeeq (esq) e Erin Stacy (dir) verificam a profundidade da neve em Gin Flat no Parque Nacional de Yosemite

Jeff Kightlinger, diretor-geral do Distrito Hídrico Metropolitano do Sul da Califórnia, que abastece 19 milhões de consumidores, disse que é "uma abordagem razoável e racional. Afinal, as condições hídricas são localizadas", afirmou. "As pessoas vão manter um forte impulso de conservação. Não haverá tanto desperdício."

A confiança demonstrada foi de muitas maneiras experimental, e levantou a perspectiva de que as autoridades possam estar enviando mensagens dúbias a um Estado que já havia entrado na linha de modo geral, depois que Brown, de pé em um campo seco onde normalmente deveria haver neve alta no ano passado, proclamou a necessidade de o Estado se adaptar a tempos mais áridos.

O Estado luta há tempo para encontrar maneiras de levar água do norte à população do sul. Os níveis das represas refletem a disparidade geográfica de El Niño.

Os dois maiores e mais importantes reservatórios estaduais, os lagos Shasta e Oroville, estão acima das médias históricas para esta época do ano. Mas os reservatórios mais ao sul, como os lagos New Melones e Castaic, continuam muito abaixo da média.

"Vimos uma certa melhora", disse Michael Anderson, o climatologista do Estado, sobre o período entre outubro e abril, quando ocorrem 90% das chuvas na Califórnia. "Mas foi mais intensa no norte. Há definitivamente algumas regiões que ainda terão dificuldades, porque as chuvas não as atingiram."

A camada de neve este ano esteve perto dos níveis históricos. Mas o clima quente derreteu grande parte dela, que hoje recuou para 33% da média histórica. Anderson disse que isto é consequência da mudança climática.

"A camada de neve está derretendo depressa", disse ele. "Um dos desafios foram as temperaturas realmente altas. Nossa expectativa é que isso continue sendo um desafio cada vez maior nas próximas décadas."
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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