Ferida moral: culpa e remorso afetam a recuperação de veteranos de guerra

Jane E. Brody

  • AP

    30.abr.1975 - Tanque de forças vietnamitas do norte atravessa portão do Palácio Presidencial em Saigon, momento que significa a derrota do Vietnã do Sul na guerra

    30.abr.1975 - Tanque de forças vietnamitas do norte atravessa portão do Palácio Presidencial em Saigon, momento que significa a derrota do Vietnã do Sul na guerra

Sem dúvida, ao longo da sua vida você fez algo, ou deixou de fazer, que o fez sentir-se culpado ou envergonhado. E se essa coisa fosse uma verdadeira violação do seu código moral, de modo que você se sentisse incapaz de perdoar a si mesmo, não merecedor de felicidade, talvez até incapaz de viver?

Este é o destino de um número incalculável de militares, homens e mulheres, que serviram no Iraque, Afeganistão, Vietnã e em outras guerras. Muitos participaram, testemunharam ou foram incapazes de evitar atrocidades, desde deixar de ajudar uma pessoa ferida a matar uma criança, por acidente ou em defesa própria.

Para alguns veteranos, isso deixa feridas emocionais que o tempo se recusa a curar. Elas os modificam radicalmente e o modo como enfrentam o mundo. E isso tem um nome: ferida moral. Diferentemente de uma sequela da guerra mais conhecida, o transtorno de estresse pós-traumático, ou TEPT, a ferida moral ainda não é um diagnóstico psiquiátrico reconhecido, embora o dano que ela inflija seja tão ruim quanto ou pior.

O problema é salientado em um novo documentário chamado "Almost Sunrise" (Quase amanhecer, em tradução livre), que será exibido no próximo fim de semana no Festival de Cinema da Human Rights Watch, uma organização de defesa dos direitos humanos, em Nova York, e em 23-24 de junho no AFI Docs, em Washington. O filme mostra a agonia emocional e as consequências autodestrutivas da ferida moral e acompanha dois sofredores no caminho que alivia seu distúrbio psíquico e traz a esperança de uma eventual recuperação.

Terapeutas dentro e fora do Departamento de Assuntos de Veteranos de Guerra admitem cada vez mais a ferida moral como razão pela qual tantos veteranos são autodestrutivos e não são ajudados, ou o são apenas parcialmente, por tratamentos estabelecidos para TEPT.

A ferida moral tem alguns dos sintomas do TEPT, especialmente raiva, depressão, ansiedade, pesadelos, insônia e automedicação com drogas ou álcool. E ela pode se beneficiar de alguns dos mesmos tratamentos. Mas a ferida moral tem uma carga adicional de culpa, dor, vergonha, remorso, sofrimento e alienação que exige uma abordagem muito diferente para se alcançar o núcleo psíquico da pessoa afetada.

Diferentemente dos soldados que foram recrutados para servir no Vietnã, os que estão hoje nas Forças Armadas se alistaram voluntariamente. Os mobilizados no Iraque pensaram inicialmente que lutariam para levar a democracia ao país; depois lhes disseram que era para conquistar "os corações e as mentes". Mas para muitos que estão na batalha, o efeito real foi "aterrorizar as pessoas", como diz um veterano no filme. "Não foi para isso que nos alistamos", diz outro.

Que a guerra pode ser moralmente comprometedora não é uma ideia nova, e se confirmou em todas as guerras. Mas só agora a comunidade terapêutica está tomando consciência das dimensões da ferida moral e de como ela pode ser tratada.

Thomas Keating, um dos fundadores da organização Contemplative Outreach, diz no filme: "Os antidepressivos não atingem a profundidade do que esses homens sentem", que fizeram algo terrivelmente errado e não sabem se podem ser perdoados.

O primeiro desafio, porém, é fazer os veteranos com danos emocionais admitirem sua agonia oculta e buscarem ajuda profissional, em vez de tentar suprimi-la, muitas vezes adotando comportamentos autodestrutivos.

"Muitos veteranos não buscam ajuda porque o que os assola não são atos heroicos, ou eles foram traídos, ou não podem suportar a vida porque cometeram um erro", disse Brett Litz, especialista em saúde mental no Sistema de Saúde VA Boston e um importante perito em ferida moral.

O segundo desafio é conquistar sua confiança, tranquilizá-los de que não serão julgados e merecem perdão.

Os terapeutas que estudam e tratam a ferida moral descobriram que nenhuma quantidade de remédios é capaz de aliviar a dor de tentar conviver com um peso moral insuportável. Eles dizem que os que sofrem de ferida moral contribuem de modo significativo para o terrível índice de suicídios entre os veteranos que retornam ao país --estimados em 18 a 22 por dia nos EUA, número maior que o de mortos em combate.

O filme apresenta dois veteranos da guerra do Iraque muito perturbados, Tom Voss e Anthony Anderson, que decidem caminhar de Milwaukee a Los Angeles --cerca de 4.300 km, levando 155 dias-- para ajudá-los a se curar das experiências em combate que os assombram e ameaçam destruir seus relacionamentos mais prezados. Seis anos depois de voltar de seu segundo período no Iraque, Voss disse, sobre seu estado mental antes de iniciar a caminhada que cruzou o país: "A coisa só piorou".

No caminho, os dois fazem a conscientização das pessoas sobre a dor incessante da ferida moral que muitos veteranos enfrentam e os incentivam a buscar tratamento. Voss e Anderson foram ajudados por diversos conselheiros e tratamentos, incluindo um curandeiro espiritual indígena e uma técnica de meditação chamada respiração poderosa. Eles também viram que a comunhão com a natureza é restauradora, permitindo-lhes enxergar novamente a beleza do mundo.

Shira Maguen, uma psicóloga pesquisadora e clínica no Centro Médico San Francisco VA, que estuda e trata veteranos que sofrem de ferida moral, disse: "Damos um grande enfoque a perdoar a si mesmos. Fazemos que eles escrevam uma carta à pessoa que mataram ou a uma versão mais jovem deles próprios. Concentramo-nos em fazer reparações, planejar seu futuro e seguir em frente", especialmente importante já que muitos pensam que não têm futuro.

Maguen, que estudou como matar em combate afeta as ideias suicidas dos veteranos após a guerra, concluiu que "os que tinham matado apresentavam risco muito maior de suicídio", mesmo quando controlavam fatores como TEPT, depressão e abuso de drogas ou álcool. Ela disse em uma entrevista que décadas depois da guerra do Vietnã "ainda havia um impacto nos veteranos que mataram combatentes inimigos e um efeito ainda mais forte naqueles que mataram mulheres e crianças".

Para superar a relutância dos veteranos em buscar ajuda para a ferida moral, Maguen incorpora tratamentos de saúde mental em visitas clínicas rotineiras.
Em Boston, Litz e seus colegas estão testando uma abordagem terapêutica relacionada, chamada revelação adaptativa, uma técnica semelhante à confissão. Com os olhos fechados, os veteranos são solicitados a compartilhar verbalmente detalhes vívidos de seu trauma com uma pessoa imaginária compassiva que os ama, e depois a imaginar como aquela pessoa reagiria. O terapeuta conduz a conversa por um caminho na direção da cura.

"Revelar, compartilhar, confessar é fundamental para reparar", disse Litz. "Ao fazê-lo, os veteranos aprendem que o que aconteceu com eles pode ser tolerado, que eles não são rejeitados." Eles também são estimulados a "envolver-se no mundo de uma maneira reparadora. Por exemplo, ajudando crianças ou escrevendo cartas". O objetivo é encontrar o perdão dentro de si mesmos ou de outras pessoas.

Um fato sobre o qual todos concordam: o processo é demorado. Como disse Voss: "Eu sabia, depois da caminhada, que ainda tinha pela frente uma longa estrada de cura". Hoje, porém, ele tem alguns instrumentos úteis e os compartilha à vontade.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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