"Abraços longos e sinceros": parentes de vítimas relembram empatia de Obama

Julie Hirschfeld Davis

Em Orlando, Flórida (EUA)

  • Stephen Crowley/The New York Times

    Obama e Joe Biden, levam flores ao memorial das 49 vítimas do massacre de Orlando

    Obama e Joe Biden, levam flores ao memorial das 49 vítimas do massacre de Orlando

O ritual doloroso já se tornou familiar para o presidente Barack Obama. 

Sua limusine blindada o leva até um prédio indistinto, espaçoso o bastante para receber um grande número de famílias cujos entes queridos morreram em um tiroteio em algum lugar nos Estados Unidos. Longe das câmeras de TV que normalmente registram cada gesto seu, ele entra em salas carregadas de pesar e vozes abafadas de pessoas em choque. 

Ele busca palavras de empatia, conforto e condolências, assim como oferece longos abraços apertados, dos quais os enlutados se recordam mais vividamente do que de suas palavras. 

Obama viajou para Orlando na quinta-feira (16), para a série mais recente de consolo em massa, quatro dias depois de um atirador ter matado 49 pessoas e ferido 53 em uma boate gay, no tiroteio em massa mais mortífero na história americana. 

Acompanhado pelo vice-presidente Joe Biden, o presidente entrou no Amway Center, a cerca de três quilômetros da boate, para se encontrar de forma privada com várias famílias que perderam filhos, filhas, irmãos e parceiros, tentando entender a tragédia e oferecer condolências a uma nação ainda cambaleante. 

Obama visita parentes de vítimas de massacre em Orlando

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A viagem foi um momento para Obama exercer o triste papel oficial de consolador-chefe. Também foi cenário de uma série de encontros profundamente pessoais e privados, nos quais o presidente, mais conhecido por seu temperamento frio e imperturbável, dispensa os adereços de seu cargo e se torna um pai emotivo, que se identifica com os pais que perderam seus filhos. 

"O presidente entende que é um símbolo do país, e quando ele vai até uma comunidade e se encontra com uma família que sofreu uma tragédia terrível, ele oferece uma mensagem de condolência e conforto em nome do povo americano", disse Josh Earnest, o secretário de imprensa da Casa Branca. "Mas seria impossível para ele não ser afetado pessoalmente por essas conversas e essas interações." 

Nesses casos, disse Earnest, o presidente "faz uso de sua fé". Ele teve que fazê-lo tantas vezes durante os últimos 7 anos e meio de mandato, um período no qual ocorreram pelo menos 20 tiroteios de grande escala que exigiram uma resposta presidencial. 

Obama considera essas visitas um dos deveres mais difíceis que cumpre. Visitar as famílias que perderam crianças pequenas no tiroteio na escola primária Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, em 2012, foi "o dia mais difícil da minha presidência", ele disse depois. "E olha que já enfrentei alguns dias muito difíceis", acrescentou. 

Assim, um por um, o presidente dá longos abraços nos enlutados que encontra, segundo pessoas presentes nas sessões, fazendo uso da linguagem corporal quase mais do que de palavras para transmitir seu apoio. 

"Ele abraçou cada um de nós individualmente; abraço de verdade, no qual pude sentir o cheiro de sua colônia", disse Sharon Risher, 57 anos, que perdeu sua mãe, Ethel Lance, e dois primos no tiroteio em Charleston, Carolina do Sul, no ano passado, e se encontrou de forma privada com Obama na semana seguinte. "Não foi um tapinha nas costas. A intimidade daquele abraço é algo de que vou me lembrar para sempre." 

Obama dedica tempo a cada família, ouvindo com atenção os detalhes que os enlutados querem contar sobre seus entes queridos perdidos. É ao mesmo tempo íntimo e desajeitado. Ele está ciente de quão desorientador é para as pessoas se encontrar com o presidente dos Estados Unidos no pior momento de suas vidas. Muitas delas se esquecem de que estão conversando com o presidente. 

Em um colégio em Newtown, em 2012, Mark Barden, cujo filho de 7 anos, Daniel, estava entre os 28 mortos na Sandy Hook dois dias antes, decidiu, no que agora considera uma mistura de choque e trauma, fazer um sermão ao presidente sobre a importância de passar tempo com seus filhos. 

"Ele me olhou nos olhos e disse: 'Estou vindo de um recital no momento'", disse Barden em uma entrevista, acrescentando que agora considera o episódio "horrivelmente embaraçoso". Mas Obama entendeu, ele acrescentou. 

"Ele estava tratando aquilo 100% como pai", disse Barden. "Ele sente aquilo em seu coração como um ser humano, e isso transcende seu papel como líder de nosso país." 

Obama não cumpre esses deveres despreparado. Assessores que preparam as salas de encontro com água, lanches e lenços de papel o informam antes de cada encontro com quem se encontrará e quem essa pessoa perdeu. Joshua Dubois, um ex-assistente especial que chefiou o Escritório da Casa Branca de Parcerias Baseadas na Fé e em Bairros, lembra de ter se preocupado com o impacto que os encontros em Newtown teriam sobre o presidente. 

"Depois de cada sala de aula, nós voltávamos para aqueles corredores com lâmpadas fluorescentes e repassávamos os nomes das próximas famílias, e então o presidente entrava de novo, como um soldado voltando após cumprir o serviço em uma guerra digna, mas desgastante", escreveu DuBois em seu livro, "The President's Devotional:  The Daily Readings That Inspired President Obama" ('O lado devocional do presidente: as leituras diárias que inspiraram o presidente Obama', em tradução livre, não lançado no Brasil).

"A equipe realizava o trabalho preparatório, mas o conforto e consolo vinham totalmente do presidente Obama."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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