Às vésperas de referendo, países da UE avisam: se Reino Unido sair, terá de pagar

Steven Erlanger

Em Paris (França)

  • Paul Ellis/AFP

    Homem usa camiseta que diz "Estou dando as costas para a UE", em Birmingham, no Reino Unido

    Homem usa camiseta que diz "Estou dando as costas para a UE", em Birmingham, no Reino Unido

Os outros países da União Europeia estão vendo com descrença, nervosismo e angústia a possibilidade de o Reino Unido sair do bloco. Mas também se preparam para retaliar.

Se os britânicos votarem em um referendo na quinta-feira (23) pela saída da UE [chamada por eles de "Brexit"], poderão esperar uma reação dura e inclemente, com as capitais de todo o continente decididas a impedir que outros países sigam o exemplo britânico, segundo disseram autoridades e analistas europeus.

Em outras palavras, o Reino Unido terá de sofrer por essa opção.

Com outros problemas prementes, entre elas a dívida grega, a crise dos migrantes e o terrorismo, as maiores e mais poderosas nações europeias vão querer clareza, e não têm probabilidade de tolerar um longo período de confusão pós-referendo.

"Dentro é dentro, fora é fora", disse o poderoso ministro da Finanças alemão, Wolfgang Schauble, à revista "Spiegel". "Espero e acredito que os britânicos vão acabar decidindo contra a saída. A retirada do Reino Unido seria uma grande perda para a Europa."

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, falou em tom apocalíptico sobre a "Brexit" ao tabloide alemão "Bild". Ele disse que todos os membros da UE sofreriam, assim como a estrutura do pós-guerra que manteve a paz na Europa.

"Por que é tão perigoso?", perguntou Tusk. "Ninguém pode prever quais seriam as consequências em longo prazo. Como historiador, eu temo que a saída possa ser o início da destruição não só da UE, mas também da civilização política ocidental."

O Reino Unido enfrentaria pelo menos sete anos de limbo durante as dolorosas negociações sobre um novo relacionamento com o bloco, disse Tusk.

Preparando-se para um voto britânico na saída, a França e a Alemanha discutem o anúncio imediato de uma iniciativa conjunta sobre segurança europeia, talvez um quartel-general de comando operacional, para mostrar, pelo menos simbolicamente, que a UE continua sólida e continuará progredindo sem o Reino Unido.

Mas a Alemanha rejeitou algumas ideias da Comissão Europeia, a burocracia permanente em Bruxelas, de reagir movendo-se rapidamente na direção da maior integração política ou fiscal europeia, entendendo que, com as eleições na Espanha este mês e na França e na Alemanha no próximo ano, "mais Europa" não é o que os eleitores querem.

E nenhum governo quer mudar o tratado, o que provocaria mais referendos em um momento em que os sentimentos populistas e anti-Bruxelas são fortes em todo o continente.

Ben Stansall/AFP
Cartaz a favor da permanência do Reino Unido na União Europeia é visto em janela de casa no sudeste de Londres

As sugestões dos políticos britânicos a favor da saída de que o resto da UE dará ao Reino Unido condições mais favoráveis em um novo acordo comercial serão recusadas de cara pelos líderes europeus, que não querem fazer mais concessões a um país que os rejeitou, dizem autoridades. Isto garantiria que o exemplo britânico desanime outros países tentados a buscar um acordo especial para si próprios.

Com essa finalidade, os principais países da UE estão prevendo um processo de negociação em duas etapas para a saída britânica, quando o governo britânico invocar o Artigo 50 do tratado que rege a participação no bloco. O Artigo 50 prevê dois anos para discutir os termos de um divórcio da união, o que nunca aconteceu.

A UE deverá querer falar sobre um futuro acordo comercial só depois que o Reino Unido e os outros 27 países do bloco tomarem uma decisão sobre como desligar o país. Esse processo exigiria resolver complexas questões jurídicas e financeiras e abordar todo tipo de temas que afetariam a população --como as pensões e planos de saúde, assim como a situação migratória de cidadãos europeus que trabalham e vivem no Reino Unido e a dos cidadãos britânicos no bloco.

As autoridades querem negociar futuros acordos de serviços financeiros e comerciais com o Reino Unido como não membro; e não querem permitir que o Reino Unido use a situação dos cidadãos europeus no Reino Unido e seus direitos como moeda de troca nas negociações comerciais, que poderão levar vários anos para terminar, além do limite de dois anos para as negociações de saída.

Mesmo então, Bruxelas ofereceria ao Reino Unido um dos três modelos existentes de proximidade e obrigações mútuas variáveis --os acordos entre o bloco e a Noruega, o Canadá e a Organização Mundial do Comércio--, em vez de se oferecer para negociar algo novo, segundo Charles Grant, diretor do Centro para Reforma Europeia, uma instituição de pesquisas em Londres.

A França e a Bélgica, e provavelmente a Alemanha, quase certamente rejeitariam qualquer proposta britânica de continuar no mercado único europeu --mesmo, ou especialmente, para serviços financeiros-- sem pelo menos um acordo de que o Reino Unido continue permitindo que cidadãos europeus vivam e trabalhem no Reino Unido, segundo analistas e autoridades.

Em todo caso, tal compensação, o chamado modelo Noruega, é fortemente rejeitada pelos britânicos que defendem a saída do bloco em nome de controlar a imigração.

"Não há apetite para ser simpático no dia seguinte", disse Camille Grand, diretora da fundação para pesquisa estratégica na França. "Não importa o que os britânicos digam ou sintam, haverá um preço a pagar, mesmo que só para evitar novas saídas da UE."

A mensagem francesa, segundo Grand, é igual à de Schauble: "Se vocês saírem, saíram. E não vamos lhes dar os benefícios do mercado único. Vocês não vão passar para uma afiliação 'à la carte'".

Os alemães e os holandeses, disse Grand, "poderiam ficar tentados a ser mais flexíveis, mas para Paris é um divórcio, e temos de ser duros com os britânicos para evitar que os tchecos ou quaisquer outros tentem fazer seus próprios acordos".

Mas talvez seja o aspecto político da "Brexit" o que mais preocupa os europeus, juntamente com o esperado choque financeiro, disse Guntram Wolff, diretor do Instituto Independente de Pesquisas Bruegel, em Bruxelas.

"Populistas de toda a Europa vão comemorar isto como uma 'festa da democracia', quando os cidadãos finalmente têm mais voz que as elites", disse Wolff. "Os populistas de toda a Europa ganharão força. E os mercados poderão reagir dizendo: 'O primeiro tijolo caiu da parede, agora vamos apostar em mais um tijolo'."

O tijolo seguinte, segundo Wolff, poderia ser a Itália, em dificuldades econômicas, e isto "poderia pôr em ação um efeito dominó", com o valor do euro caindo acentuadamente junto com a libra. Deste modo, o Banco Central Europeu teria de se preparar para apoiar os bancos e o euro contra a pressão do mercado, assim como o Banco da Inglaterra teria de apoiar a libra.

Ninguém na Alemanha acredita que seria bom que o Reino Unido saísse, disse Daniela Schwarzer, diretora do programa para a Europa do Fundo Marshall para a Alemanha, em Berlim.

"Se a UE não conseguir provar que a afiliação vale a pena, e no fim a emoção superar os debates racionais, isto não apenas dirá algo sobre o sentimento público no Reino Unido, como terá um efeito contagioso em outros países", disse ela.

Acrescentado à instabilidade europeia, disse Schwarzer, o choque econômico imediato poderia prejudicar gravemente os países com dívida elevada, como França, Itália e Grécia.

Mesmo que os britânicos votem pela permanência, "esta Europa em velocidades variadas poderá continuar se desintegrando", disse Emmanuel Macron, ministro da Economia da França. "Mas se o Reino Unido sair teremos esse risco ao quadrado. Somos capazes de manter as promessas da fundação que levaram à criação da união --paz, prosperidade, liberdade?"

O efeito da saída britânica sobre o bloco seria triplo, disse Grant. Primeiro, uma retirada britânica seria um grande reforço para os movimentos nacionalistas, anti-UE, com Marine Le Pen, líder da Frente Nacional da França, de extrema-direita, já comparando a saída britânica à queda do Muro de Berlim.

"Não é apenas que a direita ganhará poder, mas eles pensarão que a história está do seu lado e as elites pró-europeias no governo ficarão com o pé atrás e temerosas de medidas no sentido de maior integração", disse Grant.

"O federalismo morreria e não haveria mais referendos e mudanças de tratados durante gerações, por isso seria um novo período de poder nacional, e não o futuro federal que a Comissão Europeia quer."

Segundo, disse ela, sem o contrapeso do Reino Unido, "o problema alemão torna-se mais agudo". Roma, Paris e Varsóvia temem que sem o Reino Unido como força neutralizadora no bloco a Alemanha se torne poderosa demais. Os próprios alemães temem que se forme uma aliança antigermânica.

Terceiro, disse ela, a UE sem a influência do livre mercado do Reino Unido seria mais francesa em sua previsão de políticas econômicas e mais protecionista, com pouco ímpeto para acordos de livre mercado ou para a extensão do mercado único aos serviços.

"As apostas são altas, porque o que acontecer no Reino Unido provocará um efeito dominó e possivelmente um ciclo de desintegração", disse Mark Leonard, diretor do Conselho Europeu para Relações Exteriores. "A UE pareceria um projeto rompido, uma potência decadente."

Radoslaw Sikorski, um ex-ministro das Relações Exteriores polonês, disse que uma saída britânica do bloco poderia ter alguns benefícios para os que querem que os países da Europa continuem se aproximando.

"A Europa poderia seguir adiante com uma política comum de segurança, que os britânicos vetaram repetidamente", disse ele. "E os países da zona do euro provavelmente insistiriam que toda negociação em euros fosse retirada do Reino Unido", o que poderia ajudar os esforços de Paris, Frankfurt e Luxemburgo a se estabelecerem como centros financeiros mais importantes em relação a Londres.

Mas sobretudo, segundo Sikorski, "a UE está muito melhor com o Reino Unido nela, oferecendo política liberal, economia liberal e um centro de consenso político democrático de um tipo hoje necessário na Europa".
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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