Vítima de ataque xenófobo defende saída do Reino Unido da União Europeia

Dan Bilefsky

Em Londres (Reino Unido)

Ele manteve a calma enquanto jovens o insultavam em um bonde lotado em Manchester, no noroeste da Inglaterra (Reino Unido), um deles exigindo que ele "voltasse para a África". Ele se tornou a imagem dos imigrantes que sofreram ataques xenófobos nos dias tensos desde que o Reino Unido votou pela saída da União Europeia, na semana passada. Um jornal local o elogiou como "SuperJuan".

Juan Jasso, a vítima do discurso racista que foi captado em vídeo e chamou a atenção internacional nas redes sociais, não tem ascendência africana, do Oriente Médio ou do Leste Europeu, como muitos migrantes que enfrentaram hostilidades recentemente. Ele é um mexicano-americano de 38 anos de Brownsville, no Texas, que vive na Inglaterra há 18 anos. E ele também apoiou a saída do Reino Unido do bloco europeu, decisão chamada de "Brexit".

"Eu não tenho direito a voto, mas acho que se for bem feita a saída pode ser positiva", disse Jasso em uma entrevista por telefone na quarta-feira (29), do Manchester College, uma escola vocacional onde ele é professor no departamento de Ciência do Esporte. "Hoje o governo tem de seguir as regras da UE, que talvez não sejam do interesse britânico, e com a saída eles podem recuperar o controle. Como qualquer decisão, há pessoas a favor e contra. Eu votaria na saída."

"A xenofobia que acompanhou o ataque não mudou minha opinião", acrescentou. Mas salientou que está profundamente preocupado que a votação seja usada como pretexto para atacar os imigrantes.

Andrew Testa/The New York Times
"Minha impressão é de que eles eram pouco instruídos e ignorantes", disse Juan Jasso

A nova fama de Jasso foi apenas uma pequena consequência do referendo que expôs profundas divisões em todo o Reino Unido: cidades x campo, a Escócia e a Irlanda do Norte pró-Europa x Inglaterra e Gales eurocéticos, as elites cosmopolitas x a população de mentalidade mais tradicional.

A posição de Jasso sobre a Brexit é parcialmente influenciada por seu passado entre os militares, onde, segundo disse, o ideal de soberania nacional é martelado nos jovens recrutas.

Sua opinião pode ser uma surpresa para muitos britânicos que se reuniram ao redor dele para defender as tradições de abertura do país.

A reação anti-imigração causou alarme nos mais altos níveis do governo e até provocou preocupação em autoridades na Polônia e na República Tcheca, de onde vieram muitos recém-imigrados ao Reino Unido.

No Parlamento na quarta-feira (29), o primeiro-ministro David Cameron anunciou "um plano de ação para atacar os crimes de ódio", incluindo novas orientações para promotores investigarem crimes que pareçam ter motivo racial; novas verbas para "instituições potencialmente vulneráveis" que atendem aos migrantes; e assistência a grupos comunitários para ajudá-los a enfrentar os crimes de ódio.

"Devemos fazer o possível para proteger a reputação do Reino Unido como uma democracia multiétnica e multirreligiosa", disse Cameron. "O que pudermos fazer, faremos para afastar de nosso país esses crimes de ódio terríveis."

Talvez nenhum episódio tenha captado melhor o perturbador aumento da intolerância quanto a agressão verbal contra Jasso.

Ele estava indo para o trabalho no transporte público por volta de 7h45 de terça-feira, quando notou vários jovens xingando no final do bonde. Ele andou na direção deles e pediu que moderassem a linguagem, "já que havia mulheres e crianças a bordo", como explicou na entrevista. Eles deslancharam uma torrente de palavrões. Um rapaz gritou "Volte para a África!" e "Você nem é da Inglaterra".

"Estou aqui há mais tempo que vocês", Jasso respondeu friamente.

Enquanto os jovens afinal recuavam, depois de atirar cerveja em Jasso, pelo menos uma passageira veio em sua defesa. "Vocês são uma desgraça absoluta", disse ela. "Uma desgraça para a Inglaterra."

Na terça-feira, a polícia da região de Manchester deteve dois homens, de 20 e 18 anos, e um rapaz de 16 suspeitos de perturbar a ordem.

Jasso disse que ficou surpreso que as redes sociais tenham transformado a agressão que ele enfrentou em um signo de intolerância.

Ele disse temer que o voto na Brexit tenha aberto a porta para a violência xenófoba, mas acrescentou que durante seus quase 20 anos vivendo no Reino Unido --em Harrogate, Leeds, Eastbourne e Manchester-- só sofreu racismo duas vezes. (Numa delas, relatou, um homem em Harrogate, balneário em North Yorkshire, gritou para ele: "Volte para a Índia!")

Jasso --cujos pais, um oficial de segurança e uma assistente social, migraram do México para os EUA-- foi um atleta destacado em seu colégio. Depois do serviço militar aos 18, ele ficou na Alemanha e no Reino Unido. Trabalhou como analista de inteligência de sinais para o Exército e a Agência de Segurança Nacional. Um dedicado jogador de rúgbi, ele disse que precisou de certo autocontrole para não dar um "kung-fu" em seus agressores.

Ele chamou o ataque de "aberração" de um pequeno grupo de baderneiros. "As pessoas que me atacaram provavelmente tinham a mesma mentalidade antes da votação na Brexit", disse. "Minha impressão é de que eles eram pouco instruídos e ignorantes", disse Jasso. Ele disse que Manchester é um cidade multicultural e tolerante, e que é importante manter um senso de perspectiva.

"Eu fiquei visivelmente incomodado porque aqueles garotos atiraram cerveja em mim, mas não acho que isso deva ser exagerado", afirmou. "O que aconteceu comigo não é o Reino Unido que eu conheço e que passei a chamar de lar."

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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