Médico palestino ajuda a salvar vida de judeus atacados: 'Não importa quem seja'

Diaa Hadid*

Em Dahriya (Cisjordânia)

  • Rina Castelnuovo/The New York Times

    O médico palestino Ali Shroukh e sua damília em Dahriya, na Cisjordânia

    O médico palestino Ali Shroukh e sua damília em Dahriya, na Cisjordânia

Um médico palestino estava indo a Jerusalém para participar das orações do Ramadã, quando tomou uma decisão que muitos em Israel acharam inspiradora: ele ajudou a salvar a vida de colonos israelenses.

O doutor Ali Shroukh, 45, dirigia com seus irmãos por uma estrada da Cisjordânia na sexta-feira (1º) quando se depararam com um carro capotado. O veículo --grande e quadrado, com espaço para levar muitas crianças-- parecia facilmente identificável como pertencente a um colono judeu.

O carro havia se acidentado depois que um atirador palestino disparou contra ele, matando o motorista, o rabino Michael Mark, 46, pai de dez filhos. Sua mulher ficou gravemente ferida, assim como uma das duas crianças que estavam no carro, uma adolescente. A família ia para Jerusalém visitar a mãe de Mark.

Shroukh não percebeu que estava presenciando a consequência de um ataque terrorista. Seu instinto foi simplesmente ajudar.

Sua reação foi um ato de bondade em um conflito que muitas vezes é desprovido dela, especialmente em meio à violência dos últimos nove meses, quando os palestinos mataram mais de 30 israelenses. Mais de 210 palestinos também foram mortos, muitos enquanto cometiam atentados ou pretendiam fazê-lo.

Quem está ameaçado e quem não está tem sido um tema especialmente polêmico.

Israelenses acusaram médicos palestinos de ignorar judeus feridos. Depois de um ataque, uma mulher israelense que foi esfaqueada no pescoço disse que palestinos zombaram dela enquanto pedia ajuda.

Os palestinos e ativistas de direitos humanos documentaram vários casos em que atacantes ou supostos atacantes palestinos foram deixados sem atendimento por médicos israelenses e depois morreram.

Um oficial israelense graduado disse que os militares constantemente verificam com seus médicos se compreendem sua política de tratar rapidamente os atacantes palestinos.

Desde que surgiu a notícia dos atos altruístas de Shroukh, a mídia local e internacional tem ido à sua pequena clínica de urologia sobre um shopping center em Dahriya, uma cidade rural na fronteira. Seu telefone não para de tocar com ligações de agradecimento das autoridades israelenses.

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Em uma entrevista, Shroukh disse que não pensou em política na sexta-feira, quando conseguiu uma autorização de um dia para entrar em Jerusalém. Ele queria orar na mesquita Al Aqsa na última sexta-feira do Ramadã, um dia especialmente sagrado.

Ao fazer uma curva, viu um palestino desviando o tráfego em torno do veículo amassado. O homem disse: "Irmão, tenho uma menina ferida no meu carro".

O homem e sua mulher tinham colocado a garota em seu carro enquanto esperavam pelo socorro médico. O casal, que mais tarde falou a um canal de mídia israelense e não foi identificado, disse que tentou reconfortar a filha de Mark, Tehila, que tinha ferimentos no abdômen.

Shroukh comprimiu o ferimento com uma toalha. Ela chorava e fazia perguntas, mas Shroukh, que não fala hebraico, não a compreendia. Seu irmão Mahmoud, um trabalhador diarista em Israel que fala um pouco a língua, interveio.

"Ela perguntou 'O que aconteceu com minha família?'", disse Mahmoud Shroukh. "Eu disse: 'Não tenha medo. Meu irmão é médico e vamos cuidar de você'."

"Meus pais morreram?", Mahmoud lembra que ela perguntou. "Não se preocupe, sua mãe e seu pai estão bem", ele lhe disse, pois não queria perturbá-la ainda mais.

Então Ali Shroukh e seu irmão verificaram o veículo em busca de sobreviventes. Encontraram Michael Mark morto. Sua mulher, Chavi, 44, tinha um grave ferimento na cabeça e estava inconsciente. Os irmãos quebraram uma janela do carro para retirá-la.

Pouco depois, uma ambulância israelense chegou para socorrer as vítimas e levá-las a um hospital.

Então a realidade do conflito se instaurou: um paramédico palestino que havia chegado disse aos irmãos que deviam partir. Aquilo tinha sido um ataque, e não um acidente de carro, explicou ele a Ali Shroukh. Os soldados israelenses poderiam prendê-lo, suspeitando que fosse cúmplice porque não se vestia como médico e estava coberto de sangue. Colonos israelenses vingativos poderiam atacá-lo pensando que fosse o atirador.

Os irmãos foram embora em seu carro. Mesmo assim, disse Ali Shroukh, ele só partiu quando teve a certeza de que as vítimas estavam sendo cuidadas. Era seu dever ajudar, mesmo que corresse risco.

"Não importa se uma pessoa é um colono, judeu ou árabe", disse ele. "Graças a Deus que os ajudamos."

Eles chegaram à mesquita de Al Aqsa à noite, onde quebraram o jejum e oraram. Os pequenos momentos de compaixão não terminam aqui.

Durante o enterro de Michael Mark, enquanto alguns presentes gritavam "Vingança, vingança!", um dos filhos de Mark pediu que eles saíssem, segundo uma reportagem no site israelense Ynet que foi confirmada por outros membros da família.

Quando alguém descreveu os árabes como "assassinos" e "escória da terra" na página da nora de Mark no Facebook, ela respondeu escrevendo que os palestinos também haviam tentado ajudar.

Os palestinos "ficaram com eles naqueles momentos difíceis", escreveu a nora, Yiska Mark. "Acho que vocês deveriam escrever 'terroristas', e não 'árabes'."

No vilarejo próximo de Otniel, o sobrinho de Mark, o rabino Menachem Kelmanson, 28, e sua mulher, Ayelet, 27, cumpriram o luto formal, "shivá", por seu tio na segunda-feira.

Ayelet Kelmanson fez um gesto indicando a rua: três adultos, todos pais, tinham sido mortos em ataques de militantes desde o início do surto de violência em outubro, disse ela.

Mas eles ainda mantêm boas relações com os palestinos que conhecem e trabalham em Otniel, disse Kelmanson, embora estejam em lados opostos de um conflito.

"Nós conhecemos os árabes", disse Menachem Kelmanson. "Não acreditamos em vingança."

O rabino perguntou sobre o médico palestino que tentou salvar a família de seu tio, e então começou a chorar. "Diga-lhe obrigado, obrigado de todo o meu coração", afirmou.

*Irit Pazner Garshowitz colaborou na reportagem, de Jerusalém.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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