Como um espião dos EUA revelou sua vida secreta e agora teme a deportação

Benjamin Weiser

  • Chang W. Lee/The New York Times

    Blerim Skoro, que diz ter sido espião do governo dos EUA, é mantido preso

    Blerim Skoro, que diz ter sido espião do governo dos EUA, é mantido preso

Em uma noite de fevereiro, um homem foi detido pela polícia enquanto entrava no metrô do Barclays Center no Brooklyn por usar um passe de estudante com desconto, que depois descobriram ser de sua filha. Ele disse posteriormente que foi um erro idiota que levaria a consequências absurdas: o homem, Blerim Skoro, um cidadão do Kosovo, agora está na cadeia, com chances de ser deportado. Mas Skoro não era um mero trambiqueiro infeliz de catracas.

"Eu trabalhava para o governo americano", ele contou em maio para um funcionário dos EUA responsável por asilos, explicando sua vida passada no exterior e por que agora ele estava com medo de ser enviado de volta para o Kosovo, de acordo com uma transcrição. "Fui treinado para Washington. Eu era um espião."

Skoro, 45, nasceu na antiga Iugoslávia e parece ter vivido uma vida notável, ainda que secreta, que começou com sua prisão em 2000 por acusações relacionadas a tráfico de drogas em nível federal; ele começou a cooperar com promotores no seu caso e no de outros, declarou-se culpado e recebeu uma sentença de sete anos de prisão.

Ele afirma em um depoimento que, depois do 11 de setembro de 2001, ele se tornou um informante para o FBI na prisão, fornecendo pistas sobre colegas de cadeia com ligações terroristas. Depois de cumprir sua sentença, ele disse, foi deportado em 2007, mas concordou em continuar trabalhando para o governo fora do país.

Ele diz que fingia ser um agente prestativo e se infiltrou entre membros da Al-Qaeda nos Bálcãs, fornecendo secretamente à CIA informações sobre conspirações e as pessoas por trás deles.

Depois que a CIA cortou relações com ele em 2010, ele acabou voltando para os Estados Unidos através do Canadá --ilegalmente, ele admite-- e no ano passado, com  a ajuda de um advogado, se encontrou separadamente com o FBI e oficiais de contraterrorismo do Departamento de Polícia de Nova York, tentando sem sucesso oferecer assistência clandestina na luta contra o grupo Estado Islâmico.

Histórias de espiões são muitas vezes quase impossíveis de verificar, e oficiais do governo costumam relutar em discutir relatos como esses. De fato, um porta-voz governamental, quando questionado sobre Skoro, disse que não poderia nem "confirmar nem negar" qualquer parte da história. A CIA, o departamento de polícia e a promotoria dos EUA no Brooklyn também se negaram a comentar.

Skoro, em várias horas de entrevistas por telefone no presídio do Condado de Bergen, ao norte de Nova Jersey, demonstrou ter um profundo domínio sobre pessoas, lugares e outros fatos, e disse que suas informações eram corroboradas através de vídeos, fotografias e cópias de textos que ele deu a seus advogados.

Chang W. Lee/The New York Times
Skoro demonstrou ter um profundo domínio sobre pessoas, lugares e outros fatos

Skoro, cuja mulher e três filhos, todos cidadãos americanos, moram na cidade de Nova York, disse que ele ainda tinha muito a oferecer para as autoridades. "Eu lidei com os terroristas mais cruéis e perigosos nos Bálcãs e Oriente Médio", disse.

Skoro, um muçulmano praticante, disse que outros de sua religião estariam dispostos a ajudar secretamente na luta contra o grupo Estado Islâmico. Mas ele sugeriu que sua detenção passaria a mensagem contrária. Ele disse que muçulmanos perguntariam: "Como podemos confiar em nosso governo quando você coloca espiões na prisão?"

Skoro entrou pela primeira vez nos Estados Unidos em 1994. No caso de importação de drogas ocorrido em 2000 que levou à sua cooperação com o governo, ele transportou pelo menos 14 kg de heroína e de cocaína e lavou cerca de US$ 670 mil (cerca de R$ 2,2 milhões) em dinheiro proveniente de drogas, disse o juiz ao pronunciar sua sentença.

Promotores pediram leniência, citando sua colaboração e observando que ele forneceu informações significativas sobre traficantes de drogas na comunidade albanesa da cidade.

Skoro diz que o FBI prometeu que ele poderia ficar no país depois de cumprir sua sentença e atuar como informante dentro da prisão. Mas depois de ouvir em 2007 que seria deportado, ele disse que deixou sua amargura para trás e concordou em trabalhar para a agência fora do país.

Ele teria recebido treinamento em um abrigo secreto na Macedônia, e aceitou missões no Paquistão, nos Bálcãs, na Síria e outros lugares, fingindo ser um jihadista que se radicalizou na prisão. "Ninguém nunca suspeitou de mim", ele disse. "Eu era inflexível."

No Egito, Skoro afirma em seu depoimento, ele ficou amigo de Betim Kaziu, um homem que posteriormente lhe contou sobre seus planos de atacar tropas americanas estacionadas no Kosovo, e até chegou a gravar um vídeo anunciando um ataque suicida. Skoro disse ter passado a informação para a CIA e Kaziu foi preso, julgado e condenado no Brooklyn e sentenciado a 27 anos.

Em 2010, disse Skoro, ele levou um tiro e ficou ferido no caminho para uma reunião de prestação de contas na CIA na Macedônia. Ele conseguiu escapar, mas a agência encerrou o acordo que tinha com ele, pagando-lhe o equivalente a cerca de US$ 35 mil a US$ 40 mil (R$ 116 mil a R$ 133 mil) em euros, segundo ele.

No ano seguinte, enquanto tentava o asilo no Canadá, Skoro foi entrevistado pelo jornalista Vincent Larouche, para a publicação online "Rue Frontenac". O artigo, intitulado "O Fugitivo com 1.000 Segredos", referia-se a ele através do pseudônimo Abu; ele caracterizava sua história como "convincente", mas observou que boa parte de seu relato não podia ser confirmada.

Aspectos de sua história também emergiram em uma decisão de tribunal no Canadá em 2015, relacionada com um pedido de asilo que ele fez usando seu nome verdadeiro, e citavam sua alegação de que fora um espião da CIA que se infiltrou em células terroristas islâmicas.

Stéphane Handfield, um advogado de Montreal que representou Skoro no Canadá, disse que seu pedido de asilo foi negado em 2013, e que um pedido de revisão a uma corte federal foi indeferido em 2015. Mas Skoro já havia entrado ilegalmente nos Estados Unidos em novembro de 2014.

Em Nova York, ele teria feito contato com vários advogados que recentemente disseram achar sua história verossímil. Um deles, Rene A. Kathawala, que dirige um escritório pro-bono em Orrick, Herrington&Sutcliff, disse que sua firma faria o possível para ajudar Skoro e seu advogado de imigração Irwin Berowitz em seu caso de deportação.

Berowitz disse que um funcionário do departamento de asilos que havia entrevistado Skoro recentemente achou que ele era confiável e que ele havia constituído um "medo justificado de perseguição" se deportado para o Kosovo. Essa descoberta permitiu que o caso fosse enviado para um juiz de imigração para a continuidade do processo, disse Berowitz.

Skoro também recebeu a indicação de Joshua L. Dratel, um advogado que montou um escritório especializado em segurança nacional. Skoro o procurou em abril de 2015, determinado a fornecer "assistência secreta pró-ativa à polícia" relacionada ao grupo Estado Islâmico, disse Dratel em uma declaração que também faz parte do caso de imigração.

Inicialmente, Skoro disse a Dratel que ele receberia uma ligação de um funcionário do governo americano, que iria se referir a Skoro através de um codinome, segundo a declaração. Dratel disse ter recebido essa ligação.

O funcionário perguntou se Skoro estava no exterior, e nesse caso ele poderia "usá-lo". Mas se estivesse nos Estados Unidos, estaria "fora de cogitação", disse o funcionário.

Quando Dratel disse que Skoro estava nos Estados Unidos, a pessoa ao telefone deu a Dratel o nome e número de um funcionário sênior de contraterrorismo do FBI em Washington.

Em junho de 2015, Dratel disse, Skoro acabou se encontrando em seu escritório com dois agentes do FBI; um dos agentes, como lembra Dratel, disse que a CIA havia confirmado que Skoro teve uma relação no passado com a agência.

Em novembro, Dratel providenciou um encontro entre Skoro com oficiais de polícia de Nova York, incluindo John J. Miller, o vice-comissário de inteligência e contraterrorismo. Mas a agência e a polícia no final desistiram de usar Skoro.

Um funcionário sênior do governo disse que oficiais que se encontraram com Skoro questionaram sua confiabilidade. O funcionário não quis se identificar porque não estava autorizado a falar publicamente sobre o caso.

Jack Cloonan, um agente aposentado de contraterrorismo do FBI que esteve envolvido na investigação da agência sobre a Al-Qaeda nos anos 1990, disse que nunca ouvira falar em Skoro e que não fazia ideia se suas alegações eram autênticas. Mas ele disse que o caso ressaltava o quão importante era para o governo ter alguém muçulmano e operacional que pudesse executar ações necessárias às agências.

Cloonan também supunha que Skoro poderia ter sido considerado inutilizável pelas autoridades porque sua identidade havia sido divulgada no Canadá, ou porque havia dúvidas sobre se poderiam confiar nele. Mas Cloonan disse que ele também entendia por que funcionários do governo poderiam querer se encontrar com ele.

"Existe uma indicação clara de que todos estão desesperados tentando obter informações", disse Cloonan, "porque não sabemos se haverá outro ataque contra a nação."

Depois da detenção por reentrada ilegal de Skoro em março, ele foi preso sem fiança quando promotores federais no Brooklyn argumentaram que ele poderia fugir.

Mas, no dia 23 de março, um dia depois dos atentados do grupo Estado Islâmico em Bruxelas, um promotor ligou para Dratel e disse que o governo agora estava interessado em se encontrar com Skoro para determinar se ele poderia ser de alguma ajuda.

Dratel disse que ele se encontrou com os promotores sozinho, resumindo o que seu cliente sabia e fornecendo cópias de capturas de tela de algumas mensagens de texto entre Skoro e um suposto agente do Estado Islâmico na Síria. Dois dias depois, o governo, sem maiores explicações, tomou a iniciativa de indeferir a acusação de reentrada ilegal de Skoro. Os promotores não fizeram uma reunião com ele diretamente, disse Dratel.

Ele passou então para a custódia da imigração, onde permanece até hoje.

Tradutor: UOL

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