Religiosos pedem até tortura contra saudita que citou Alcorão para questionar regras

Ben Hubbard

Em Jedá (Arábia Saudita)

  • Divulgação via The New York Times

    O ex-policial religioso saudita Ahmed Qassim al-Ghamdi ao lado de sua mulher, Jawahir

    O ex-policial religioso saudita Ahmed Qassim al-Ghamdi ao lado de sua mulher, Jawahir

Durante a maior parte de sua vida adulta, Ahmed Qassim Al Ghamdi trabalhou na força religiosa barbada da Arábia Saudita. Ele foi um funcionário dedicado da Comissão para Promoção da Virtude e Prevenção do Vício --conhecida no exterior como polícia religiosa--, servindo nas linhas de frente que protegem o reino islâmico da ocidentalização, do secularismo e de qualquer coisa que não sejam as mais conservadoras práticas islâmicas.

Parte disso parecia o trabalho normal de polícia, como reprimir traficantes de drogas e contrabandistas em um país onde o álcool é proibido. Mas os homens da "comissão", como os sauditas a chamam, passavam grande parte do tempo mantendo as normas públicas puritanas que diferenciam a Arábia Saudita não só do Ocidente, mas da maior parte do mundo muçulmano.

Uma ofensa chave era o "ikhtilat", a reunião social não autorizada de homens com mulheres. Os clérigos do reino advertem que isso pode levar a fornicação, adultério, lares desfeitos, crianças nascidas de casais não casados e o colapso social completo.

Durante anos, Al Ghamdi defendeu o programa e acabou sendo encarregado da comissão na região de Meca, a cidade mais sagrada do islã. Então ele fez uma análise profunda e começou a questionar as regras. Aí recorreu ao Alcorão e às histórias do profeta Maomé e seus companheiros, considerados exemplos da conduta islâmica. O que ele descobriu foi surpreendente e modificou sua vida: havia muita mistura de gêneros entre a primeira geração de muçulmanos, e ninguém parecia se importar com isso.

Então ele se pronunciou. Em artigos e aparições na televisão, afirmou que grande parte do que os sauditas praticam como religião são na verdade práticas culturais árabes que foram misturadas à sua fé.

Não havia necessidade de fechar as lojas para orar, disse Al Ghamdi, nem de proibir as mulheres de dirigir, como faz a Arábia Saudita. Na época do profeta, as mulheres se deslocavam em camelos, o que segundo ele é bem mais provocativo do que mulheres com véus pilotando SUVs.

Ele disse até que as mulheres só deviam cobrir o rosto se quisessem. E para demonstrar a profundidade de sua convicção Al Ghamdi foi à televisão com sua mulher, Jawahir, que sorriu para a câmera com o rosto descoberto e enfeitado com maquiagem.

Sergey Ponomarev/The New York Times
Homens e mulheres sauditas durante feira de convenções em Riad

Foi como uma bomba no meio religioso do reino, ameaçando a ordem social que garantia a proeminência dos xeques e os tornava árbitros do certo e do errado em todos os aspectos da vida. Ele ameaçou seu controle.

Os colegas de Al Ghamdi no trabalho se recusaram a falar com ele. Telefonemas irados lotaram seu celular e ameaças de morte anônimas o atingiram no Twitter. Xeques proeminentes foram aos meios de comunicação denunciá-lo como um arrivista ignorante que devia ser punido, julgado e até torturado.

Para o visitante ocidental, a Arábia Saudita é uma mistura incrível de urbanismo moderno, cultura do deserto e um interminável esforço para respeitar uma rígida interpretação de escrituras que têmmais de mil anos. É um reino inundado pela riqueza do petróleo, arranha-céus, SUVs e shopping centers, onde perguntas sobre como investir dinheiro e interagir com os não muçulmanos são respondidas com citações do Alcorão e histórias sobre o profeta Maomé.

A primazia do islã na vida saudita criou uma enorme esfera religiosa que se estende além dos clérigos oficiais do Estado. A vida pública é cheia de xeques-celebridades cujos movimentos, comentários e conflitos os sauditas acompanham, assim como os americanos seguem os atores de Hollywood. Na sociedade superconectada do reino, eles competem por seguidores no Twitter, Facebook e Snapchat. O Grande Mufti, a mais alta autoridade religiosa do Estado, tem um programa de televisão regular.

Para os sauditas, tentar navegar pelo que é permitido, "halal", e o que não é, "haram", pode ser um desafio. Por isso eles recorrem aos clérigos para ouvir "fatwas", ou regras religiosas não obrigatórias. Enquanto algumas podem receber grande atenção, como quando o aiatolá Ruhollah Khomeini do Irã decretou a morte do escritor Salman Rushdie, a maioria trata de detalhes da prática religiosa.

Al Ghamdi, 51, disse que o mundo dos xeques, das fatwas e da aplicação minuciosa da religião a tudo havia definido sua vida. Mas esse mundo --o dele-- o havia congelado.

Como novo membro da comissão em Jedá, Al Ghamdi sentiu que encontrou um emprego coerente com suas convicções religiosas. Após alguns anos, transferiu-se para Meca e percorreu diversos cargos.

Mas desenvolveu reservas sobre como a força funcionava. O zelo religioso de seus colegas às vezes os levavam a excessos, como invadir a casa de pessoas ou humilhar prisioneiros.

"Digamos que alguém beba álcool", disse ele. "Isso não representa um ataque à religião, mas eles exageram no tratamento das pessoas."

Centro tenta "desradicalizar" jihadistas na Arábia Saudita

  •  

Em 2005, o chefe da comissão na região de Meca morreu e Al Ghamdi foi promovido. Era um grande cargo, com cerca de 90 estações por uma área grande e diversificada, contendo os locais mais sagrados do islamismo. Ele fez o melhor para servir, mas temia que o enfoque da comissão estivesse enganado.

Em particular, procurava nas escrituras e nos ditames do profeta Maomé orientação sobre o que era halal ou haram, e documentava suas conclusões.

"Fiquei surpreso porque nós estávamos acostumados a ouvir os estudiosos dizerem 'Haram, haram, haram', mas eles nunca citavam as provas", disse ele.

Ao perceber a gravidade de tal conclusão para alguém em sua posição, Al Ghamdi se manteve calado e arquivou o documento. Mas suas conclusõeslogo viriam à luz.

Mais ou menos na mesma época em que ele repensava sua visão de mundo, o rei Abdullah, então no poder, anunciou planos de abrir uma universidade de nível internacional, a Universidade Rei Abdullah de Ciência e Tecnologia (Kaust na sigla em inglês). O que chocou o meio religioso do reino foi sua decisão de não segregar os estudantes por gênero, nem impor um código de vestimenta às mulheres.

A Kaust seguiu a anterior Aramco, a companhia de petróleo estatal, que também fora protegida da interferência clerical, salientando uma das maiores contradições da Arábia Saudita: independentemente do quanto a família real louva seus valores islâmicos, quando quer ganhar dinheiro ou inovar não pede conselhos aos religiosos. Levanta um muro e os deixa de fora.

A maioria dos religiosos manteve silêncio em deferência ao rei. Mas um membro do alto órgão religioso abordou a questão em um programa de TV, advertindo sobre os perigos das universidades mistas: assédio sexual; homens e mulheres flertando e se distraindo dos estudos; maridos enciumados de suas mulheres; estupro.

"A mistura tem muitos fatores de corrupção, e é um grande mal", disse o clérigo xeque Saad al Shathri, acrescentando que se o rei soubesse que o plano era esse o teria cancelado.

Mas a mistura de gêneros foi na verdade ideia do rei, e ele não gostou. Demitiu o xeque com um decreto real.

De seu escritório em Meca, Al Ghamdi assistiu, frustrado porque os religiosos não estavam apoiando um projeto que ele achava bom para o reino. Então, depois de rezar a respeito, ele recuperou seu relatório e o resumiu a dois longos artigos que foram publicados no jornal "Okaz" em 2009.

Foram os primeiros ataques em uma batalha de anos entre Al Ghamdi o meio religioso. Ele o seguiu com outros artigos, foi à TV e enfrentou outros clérigos que o insultaram e exibiram suas próprias provas das escrituras. Seus colegas na comissão o repeliram, por isso ele pediu a aposentadoria antecipada, que obteve rapidamente.

Ao sair da força, Al Ghamdi questionou outras práticas: forçar o fechamento das lojas durante as horas de oração, insistir para que as pessoas vão à mesquita, o uso de véus, a proibição a que as mulheres dirijam carros.

Cada comentário levantava um novo tumulto. Uma mulher certa vez lhe perguntou no Twitter se ela poderia não só mostrar o rosto, mas também usar maquiagem. Claro, disse Al Ghamdi, provocando novos ataques.

Em 2014 ele deveria participar de um programa de entrevistas, e os produtores gravaram um segmento sobre ele e sua mulher, que apareceu de rosto descoberto e disse que o apoiava.

Duras reações vieram do topo do establishment religioso.

"Não há dúvida de que este homem é ruim", disse o xeque Saleh al Luheidan, membro da hierarquia do órgão religioso. "É necessário que o Estado indique alguém para detê-lo e torturá-lo."

Hoje, Al Ghamdi mantém um perfil discreto porque ainda é insultado quando aparece em público. Ele não tem emprego, mas publica habitualmente colunas em jornais, a maioria no exterior.

Sua mulher, Jawahir, disse que a experiência mudou sua vida de maneiras inesperadas e, como seu marido, ela não se arrepende.

"Nós mandamos nosso recado, e o objetivo não era aparecermos e ficarmos famosos", disse ela. "Era enviar uma mensagem à sociedade de que religião não são costumes e tradições. Religião é outra coisa."

Entenda o conflito entre os sunitas da Arábia Saudita e os xiitas do Irã

  •  

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos