Após 1 ano, acordo nuclear impede bomba, mas tem pouco efeito na relação EUA-Irã

David E. Sanger

Em Washington

  • ATTA KENARE/AFP

    Revogação das sanções após o acordo não ajudou o Irã a impulsionar sua economia

    Revogação das sanções após o acordo não ajudou o Irã a impulsionar sua economia

Um ano depois do acordo nuclear do presidente Barack Obama com o Irã, as piores previsões do que aconteceriam em seguida não se concretizaram.

Os iranianos, desafiando as expectativas dos críticos mais ferozes do acordo, abriram mão de 98% de seu material nuclear. Eles desmantelaram milhares de centrífugas e preencheram o núcleo de um grande reator de plutônio com cimento, além de inspetores terem visto as instalações.

No final de janeiro, até o militar mais importante de Israel disse estar impressionado. "O acordo de fato removeu o mais sério risco à existência de Israel em um futuro previsível", disse em uma conferência em Tel Aviv o tenente-general Gadi Eisenkot, chefe do Estado-maior das Forças de Defesa de Israel, "e reduziu em muito a ameaça a longo prazo."

Mas se as celebrações dentro da Casa Branca esta semana parecem tênues, é em parte porque muito pouco da relação entre Washington e Teerã fora dos parâmetros do acordo de 130 páginas melhorou. Teerã ainda está enviando suas forças para apoiar o presidente sírio, Bashar al-Assad, para ganhar influência no Iraque, e agora começou a homenagear como heróis seus soldados que morreram no local.

Ao tirarem vantagem de uma resolução recém-formulada da ONU que somente "ordena" o Irã a limitar seus testes com mísseis, eles mantiveram um ritmo constante de testes, com armamentos cada vez mais eficientes. Os Estados Unidos protestaram, mas reconheceram que a Rússia e a China nunca permitiriam a imposição de sanções.

O acordo, é claro, cobria somente a atividade nuclear do Irã, que era o problema mais urgente. O objetivo era garantir que o Irã levasse mais de um ano para montar uma bomba, em vez dos poucos meses que as agências de inteligência americanas acreditavam que levaria um ano atrás.

Hoje poucos contestam que Teerã levaria pelo menos esse tempo, e provavelmente muito mais. Como resultado, acabaram as ameaças de Israel de que um ataque contra as instalações iranianas poderia ser necessário, mesmo por parte do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que praticamente não falou mais nada sobre o acordo após os alertas calamitosos feitos por ele em uma tentativa de derrubá-lo.

No entanto, um ano depois, o relaxamento das sanções contra o Irã tem acontecido muito mais lentamente do que a maioria dos iranianos esperava, levando a um brusco declínio no apoio popular ao acordo e ao governo do presidente Hassan Rouhani, que colocou seu futuro político em risco na negociação.

Isso ameaça a maior aposta do acordo: de que a tensa relação com o Irã começaria a mudar, como aconteceu com Cuba e Mianmar. Os principais assessores de Obama dizem que é cedo demais para isso; eles argumentam que o momento vai chegar somente após a morte do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei. Mesmo assim, não há garantia de que os linhas-duras não prevalecerão na briga por influência dentro do Irã.

"É complicado", reconheceu o secretário de Estado John Kerry, que arriscou muito da sua reputação no acordo, ao longo de duas conversas recentes, uma em Varsóvia, durante uma reunião de cúpula da Otan, e outra em uma discussão de avaliação em Washington. "Sem esse acordo não haveria chance de ter essa conversa" com o Irã, disse Kerry. "Estaríamos falando em 'Certo, qual o próximo confronto?"

Kerry citou a participação do Irã na tentativa de se colocar em prática um cessar-fogo na Síria—um que os críticos veem como um esforço cínico para estender o governo de Assad—e a rapidez com a qual o Irã libertou os marinheiros americanos depois de tê-los capturados no Golfo Pérsico em janeiro como alguns dos resultados positivos da relação.

Mas ele também reconheceu que as forças no Irã que "nem queriam o acordo para começar" estavam fazendo tudo que podiam para alimentar o terrorismo e continuar investindo em outros meios de desafiar os Estados Unidos e a Arábia Saudita, ambos regularmente condenados no Irã. Testes com mísseis, ciberataques e apoio do grupo militante libanês Hezbollah não estão cobertos no acordo nuclear.

Poucas questões de segurança nacional dividiram Washington como o acordo nuclear. Até mesmo os republicanos no Congresso que votaram no acordo eram contra ele.

Um ano depois, a batalha continua. A Câmara dos Representantes aprovou, recentemente, uma emenda para bloquear um contrato de US$ 17,6 bilhões para a Boeing vender aeronaves à Iran Air. Seria a maior transação entre os Estados Unidos e o Irã desde a crise dos reféns de 37 anos atrás.

Por mais complexa que seja a política do acordo nos Estados Unidos, ela é mais divisiva em Teerã. O ministro das Relações Exteriores do Irã que negociou o acordo com Kerry, Mohammad Javad Zarif, está sempre ao telefone com ele —eles conversaram na quinta-feira— reclamando que a implementação do relaxamento nas sanções está acontecendo devagar demais.

Embora os republicanos no Congresso muitas vezes se refiram a um "prêmio de US$ 150 bilhões" aos iranianos —uma estimativa exagerada do que o Tesouro diz serem US$50 bilhões em ativos de propriedade dos iranianos programados para serem desbloqueados em troca das concessões nucleares— a realidade é bem diferente. Somente uma fração desses US$ 50 bilhões foi de fato devolvida. (O Departamento de Estado e o Tesouro não dizem quanto, aparentemente para evitar que a opinião pública no Irã fique ainda mais irritada.)

Uma pesquisa recente entre mais de 1.000 iranianos, uma amostra pequena, mostrou que 72% deles agora têm pouca confiança de que os Estados Unidos cumprirão sua parte no acordo. Isso parece refletir uma evidência observada nos mercados de Teerã de que o acordo foi uma decepção, porque os investidores não voltaram ao país e os bancos têm relutado em retomar suas atividades normais.

O antiquado sistema bancário e o sistema judiciário politizado do Irã também tornaram difícil o retorno das empresas.

Então hoje ainda existe o risco de que o acordo seja derrubado, seja por republicanos, caso Donald Trump seja eleito, seja por iranianos, que alegam que os Estados Unidos estão voltando atrás em promessas e estão usando isso para enfraquecer Zarif e Rouhani.

Existem outros riscos. Embora o Irã não tenha testado a fundo os limites do acordo, ele tentou, vários meses atrás, comprar fibra de carbono da Alemanha, um produto de alta tecnologia usado na produção de rotores avançados para centrífugas que purificam urânio.

Para Obama, talvez o benefício mais imediato do acordo seja o que não está acontecendo no Oriente Médio: uma corrida por armas nucleares. Um estudo recente para a Brookings Institution realizado por dois ex-especialistas do governo em proliferação, Robert Einhorn e Richard Nephew, concluiu que uma das maiores vantagens do acordo é que ele acabou com rumores de uma corrida armamentista no Oriente Médio.

Então para Obama e Kerry, um ano depois o acordo com o Irã parece em geral bem-sucedido, pelo menos olhando estritamente a partir dos parâmetros do acordo em si. Mas não há controle sobre se ele vai ter sucesso em sua missão mais ampla, que é mudar fundamentalmente a relação com o Irã.

Kerry argumenta que o acordo em si cumpriu sua meta principal: evitar uma guerra causada pelos avanços nucleares do Irã. E acrescenta: "O que há além disso, eu não sei."

 

Tradutor: UOL

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos