Donos do Hotel Watergate apostam no escândalo do passado para atrair turistas

Nicholas Fandos

Em Washington

  • Al Drago/The New York Times

    Fachada do Hotel Watergate, famoso pelo escândalo que derrubou Richard Nixon

    Fachada do Hotel Watergate, famoso pelo escândalo que derrubou Richard Nixon

Dependendo de como se olha, o destino foi cruel ou bondoso com o Hotel Watergate.

Quando foi inaugurado em 1967, as incorporadoras alardeavam que o hotel no amplo complexo modernista às margens do Rio Potomac seria um sinônimo de luxo, com seus quartos ocupados por glamorosos visitantes da capital. Em vez disso, o Watergate se tornou significado de escândalo, com sua última sílaba sendo sempre usada para caracterizar atos nefastos.

Isso não incomodou Jacques e Rakel Cohen, os novos proprietários, que viram nessa história uma rara oportunidade, de uma forma ou de outra.

Quase uma década depois de Watergate fechar suas portas, os Cohens e sua incorporadora o reabriram apostando que uma reforma de US$125 milhões para restaurar suas raízes da metade do século, juntamente com sua história repleta de escândalos, poderiam gerar um renascimento para o hotel, os escritórios e residências do entorno.

Al Drago/The New York Times
Chaves dos quartos têm os dizeres "não é preciso arrombar", em alusão à invasão do escritório do Comitê Nacional Democrata, em 1972

As chaves dos quartos dão as instruções aos hóspedes: "Não é necessário arrombar". A voz do ex-presidente Richard M. Nixon em breve poderá ser ouvida nos banheiros públicos e no sistema telefônico do hotel, cujo número 617-1972, por acaso, é uma alusão à data de 17 de junho de 1972, dia em que cinco homens invadiram os escritórios do Comitê Nacional Democrata no complexo de Watergate e fizeram história.

Até mesmo a fonte do logo do hotel, em estilo "typewriter", se inspira nos documentos legais da década de 1970 que relataram boa parte do escândalo.

"Nós não compramos este hotel por causa do escândalo", disse Rakel Cohen, que supervisionou sua reforma e sua divulgação, em uma entrevista antes da inauguração no mês passado. "Mas como as pessoas tinham muita curiosidade em relação a ele, pensamos, 'Somos conhecidos por isso, então vamos aproveitar o fato de uma forma divertida.'"

Mas se há fantasmas nixonianos assombrando o hotel, os Cohens esperam que eles tenham companhia—de preferência de pessoas bem conhecidas como Elizabeth Taylor e Ronald Reagan, visitantes célebres do Watergate em uma época anterior.

"As pessoas estão sempre me perguntando: 'Como você traz o escândalo de volta?'", dize Rakel Cohen.

"Mas eu sempre digo que o escândalo aconteceu depois", ela acrescenta com um tanto de impaciência. "Antes disso, o hotel era um lugar glamoroso, era um lugar popular para pessoas famosas. Estamos tentando ressuscitar isso."

É um desafio considerável.

Al Drago/The New York Times
Complexo do Hotel Watergate fica às margens do rio Potomac

O complexo Watergate, que já chegou a ser visto como um dos endereços mais distintos da cidade, ultimamente é visto como algo meio entediante pela maior parte dos moradores de Washington—uma ilha de escritórios vazios e apartamentos antigos fechada em si mesma, isolada do resto da cidade pelo Rio Potomac e por vias expressas, e longe dos bairros mais badalados. Somente algumas poucas lojas que servem a funcionários de escritório e residentes, incluindo a juíza do Supremo Ruth Bader Ginsburg e o ex-senador Bob Dole, preenchem espaços que no passado abrigavam lojas de luxo.

Nem sempre foi assim. O complexo, erguido sobre mais de 40 mil2 recém-liberados de propriedades à margem do rio, ao lado do que viria a se tornar o John F. Kennedy Center para Artes Performáticas, com um design moderno e altos preços, começou a chamar atenção muito antes que as primeiras seções abrissem.

O projeto do arquiteto italiano Luigi Moretti (que lembra velas de um barco) foi motivo de grande polêmica na cidade, assim como a participação parcial do Vaticano na incorporadora italiana por trás do projeto.

Mas nenhum desses fatos incomodava os muitos ricos e famosos que moravam no complexo, como Taylor, Placido Domingo e o senador Russel B. Long. As residências e o hotel eram tão populares entre os membros da futura administração Nixon, que o complexo ficou conhecido como a Bastilha Republicana em certos círculos.

No entanto, não demorou para que esse nome assumisse um significado diferente.

Em uma fatídica noite de junho de 1972, alguns dos arrombadores—um grupo que incluía James W. McCord J., um coordenador de segurança para o Comitê Nacional Republicano e o Comitê para a Reeleição do Presidente—fizeram check-in nos quartos 214 e 314 do Hotel Watergate usando nomes falsos.

Eles supostamente dividiram uma lagosta em um jantar no restaurante do hotel. E então, em algum momento após a meia-noite, eles foram entrar secretamente nos escritórios do Comitê Nacional Democrata. Eles foram pegos, fichados e por fim expostos como capangas para o presidente dos Estados Unidos.

Quando a polícia revistou o quarto dos homens, encontrou equipamentos elétricos, milhares de dólares em cédulas novinhas de US$ 100 e um cheque escrito por E. Howard Hunt, um ex-agente da CIA que acabou sendo revelado como o organizador do arrombamento.

Histórias inspiradas em Watergate não são novidade para o hotel. Em 1973, um ano antes de Nixon renunciar, o hotel e o prédio de escritórios haviam se tornado uma atração turística tão grande que um jornalista de viagens do "New York Times" observou, não totalmente a sério, que o Watergate poderia estar chegando perto do Lincoln Memorial em termos de visitantes anuais. Relatos de milhares de dólares em itens com logos roubados dos quartos do hotel eram comuns nos anos que se seguiram.

Essa avidez toda não deveria causar surpresa, de acordo com Carl Bernstein, que trabalhou junto com Bob Woodward como um jovem repórter para o "Washington Post" na revelação do escândalo.

"Nós vivemos em uma era de comercialização de tudo, então me parece natural que em Washington tenhamos um turismo em torno daquilo que é um dos grandes acontecimentos históricos na vida da cidade", disse Bernstein.

Ainda assim, os Cohens continuam bem mais interessados no glamour dos anos 1960 do que na história do hotel nos anos 1970.

Quanto a hospedar aqueles na ilha que tenham interesse na história, Bernstein, que escreveu "Todos os Homens do Presidente', um relato sobre o escândalo, juntamente com Woodward, tem uma sugestão: "Espero que, se eles realmente forem fazer isso, em vez de colocarem uma Bíblia na gaveta da cômoda, eles coloquem nosso livro ali ou algum outro livro de história respeitável, de forma que as pessoas possam saber sobre o que realmente aconteceu."

Escândalo de Watergate derrubou Richard
Nixon
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Tradutor: UOL

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