Rússia quer povoar seu extremo oriente, e covardes não precisam se candidatar

Andrew Higgins

Em Kamen-Rybolov (Rússia)

  • James Hill / The New York Times

    O cossaco Yuri Bugaev faz reconhecimento da pastagem em Primorsky Krai, no extremo oriente russo, que será doada pelo governo da Rússia para os colonos de São Petersburgo

    O cossaco Yuri Bugaev faz reconhecimento da pastagem em Primorsky Krai, no extremo oriente russo, que será doada pelo governo da Rússia para os colonos de São Petersburgo

Imerso até os tornozelos na lama, em um pasto pantanoso a mais de 6.400 km de sua casa, Yuri A. Bugaev examina um terreno baldio infestado por mosquitos que o governo russo está oferecendo a candidatos pioneiros, em sua própria versão moderna da Lei da Propriedade Rural de 1862 nos Estados Unidos.

"Isso não é exatamente o que eu tinha em mente", disse Bugaev, que atravessou sete zonas horárias a partir de São Petersburgo, na Rússia, para sondar as possibilidades para colonizadores no pouco povoado extremo oriente do país, um território que tem aproximadamente dois terços do tamanho dos Estados Unidos.

As nove regiões do extremo oriente destinadas à colonização na doação de terras do governo, que começou dia 1º de junho, abrangem mais de um terço da Rússia, mas abrigam somente 6,1 milhões de pessoas. Isso é só 4% da população do país, em comparação com os 110 milhões de chineses que vivem do outro lado da fronteira nas três províncias que formam a Manchúria.

Bugaev é um dedicado, ainda que em sua maior parte sedentário, cossaco, de uma fraternidade centenária de guerreiros eslavos, saqueadores e rebeldes amantes da liberdade. Como em um retorno romântico a gerações anteriores de cossacos que colonizaram e protegeram as fronteiras do império russo, ele vê a mudança de seus irmãos cossacos e de outros russos para o leste como a única forma de manter a maior parte das terras russas vazias a salvo da China.

Ele diz que por anos sonhou com a Rússia adotando, ou melhor, voltando a adotar, o espírito pioneiro, e ficou extasiado com o apoio do Kremlin a um programa voltado para reafirmar o evidente destino do país como uma potência multicontinental.

Entretanto, ele admitiu que não há muitos russos residentes no lado europeu da Rússia que sonham com uma casa em Londres ou Paris, e não uma cabana em um pântano perto da China, que partilham de seu entusiasmo por uma vida nova em regiões selvagens do leste que muitos associam a campos de trabalho forçado e condenados.

"Hoje em dia a maior parte das pessoas não quer uma aventura", ele diz.

Contudo, o governo russo está determinado a provar o contrário e a dar fundamento a uma ordem emitida pelo presidente Vladimir Putin em 2013, de que o desenvolvimento da Sibéria e do extremo oriente deve ser "nossa prioridade nacional para todo o século 21."

Como conseguir com que as pessoas colonizem o extremo leste é uma questão que tem preocupado dirigentes russos desde que foi estabelecida uma base naval russa no Oceano Pacífico, em Okhotsk, no século 17. Cossacos, condenados e camponeses desesperados muitas vezes foram os únicos candidatos.

Na era comunista, os campos de trabalho forçado, os investimentos pesados em instalações industriais remotas e a construção de uma segunda ferrovia que atravessava a Sibéria e o extremo oriente reavivaram o fluxo de pessoas para o leste. Mas isso acabou com o colapso da União Soviética em 1991, e os residentes começaram a se dispersar. Uma população de mais de 8 milhões definhou para cerca de 2 milhões.

O ministério russo do Desenvolvimento do Extremo Oriente, a agência que está coordenando esse mais recente estratagema, citou uma pesquisa encomendada por ele, dizendo que 20% dos russos estariam dispostos a se mudar para o leste se ganhassem terras de graça. Os russos mais jovens, de acordo com o ministério, se mostraram ainda mais empolgados, com mais de 50% deles demonstrando interesse em ir para o leste para aproveitar a oferta de um hectare gratuito para cada pessoa.

Mas como costuma acontecer na Rússia, esperanças e planos grandiosos se anteciparam muito à realidade local, onde burocratas, um clima pavoroso e distâncias imensas conspiram para abafar as ambições do Kremlin.

"É só uma promessa de ilusão", diz Vladimir V. Mishchenko, administrador do distrito de Khankaisky, uma das novas áreas-piloto escolhidas por Moscou para testar o programa de distribuição de terras. Ele reclama que todo o projeto foi pensado por pessoas em Moscou que não têm compreensão do extremo oriente, mas precisavam mostrar ao Kremlin que estavam fazendo alguma coisa.

Por ora, a terra gratuita está restrita a áreas pequenas, como a região de Khankaisky em torno de Kamen-Rybolov, uma colônia isolada ao norte de Vladivostok, e está aberta somente a russos que já vivem no extremo oriente.

No entanto, a partir de fevereiro todos os cidadãos russos podem se candidatar, e Bugaev quer se certificar de que está pronto para "ajudar a salvar a Rússia."

No começo de sua missão de sondagem, após um voo de nove horas de Moscou para Vladivostok, ele encontrou seu hotel repleto de chineses, a maior parte turista. Com seu gorro de pele cossaco, ele declarou que sua missão era ainda mais urgente do que havia pensado.

No dia seguinte, ele partiu para Kamen-Rybolovo, para inspecionar a terra ofertada, dirigindo durante horas debaixo de uma chuva torrencial, atravessando uma taiga encharcada e vilarejos vazios, basicamente.

Intrépido, ele acredita que há um número suficiente de pessoas resistentes para entrar em sua organização, o Movimento Social do Hectare do Extremo Oriente, uma companhia privada em São Petersburgo, para gerar interesse no programa de distribuição de terras e para organizar novas colonizações.

Seu website explica por que é possível ser um pioneiro sem nem precisar sair de casa, pelo menos no começo. As pessoas podem simplesmente se candidatar a um pedaço  de terra e juntar o que obtiverem de maneira a formar um terreno maior a ser explorado por alguns poucos aventureiros.

Se isso funcionar, aqueles que contribuírem com terras, mas permanecerem em São Petersburgo, podem se mudar para o leste mais tarde, depois que a maior parte do trabalho duro tiver sido feita.

"Praticamente ninguém quer vir para cá agora", admite Bugaev, queixando-se de que os terrenos disponíveis --10 mil m2 por pessoa-- não conseguem dar conta de uma agricultura sustentável ou qualquer outro empreendimento. (Os pioneiros americanos receberam uma área 60 vezes maior que essa através da Lei da Propriedade Rural).

O plano russo foi ridicularizado como um truque patriótico impraticável bolado por marqueteiros do Kremlin ou uma fraude que vai acabar enriquecendo funcionários públicos, que têm o direito de tomar a terra de volta depois de cinco anos caso decidam que as metas de desenvolvimento não foram atingidas.

Das 460 pessoas que se candidataram desde o dia 1º de junho, segundo Mishchenko, 390 foram rejeitadas logo de cara por não conseguirem fornecer as informações necessárias. No total, somente quatro pessoas, todas de Vladivostok, conseguiram seus lotes até agora.

"Para qualquer cultivo significativo, você precisa de 5 mil hectares só para começar", diz Mishchenko. "E essas terras não existem. Elas foram adquiridas muito tempo atrás."

Sem se deixar desanimar por sua descoberta inicial no distrito de Khankaisky, Bugaev foi em frente. Um líder cossaco na administração regional em Vladivostok, Oleg Melnikov, lhe garantiu que a distribuição de terras estava andando como planejada e não enfrentava nenhum problema mais sério.

Uma empresa local envolvida com agricultura também gostou dos planos de Bugaev para uma versão moderna de fazendas coletivas e o incentivou a focar em procurar pessoas em São Petersburgo dispostas a se candidatar a lotes de terra.

"Acho que vai dar certo", disse Bugaev, olhando desconfiado para turistas chineses aglomerados no saguão de seu hotel em Vladivostok. "Isso não é só por uma aventura, é para salvar a Rússia."

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