Acampamento em terras nômades tibetanas oferece até coquetel e sauna aos turistas

Edward Wong

Nas Pastagens de Sangke (China)

  • Gilles Sabrie/The New York Times

O camping chamado Norden, aqui no planalto tibetano, não é tão espartano quanto as tendas dos nômades que conduzem iaques por estes pastos ventosos.

As cabines e tendas de lã de iaque apresentam pisos de madeira, cobertores de feltro feitos sob medida e acesso a duchas quentes. Um barman americano em um lounge novo com móveis de madeira clara prepara um coquetel chamado Cloudy Nomad (nômade anuviado, feito de cerveja Barley Wine, ou vinho de cevada, e mel).

Neste ano, o acampamento também abriu um centro de ioga que também serve como salão de jantar comunal. Há uma sauna próxima.

Não é preciso dizer, não se trata de um local típico no planalto. O Norden Camp é o primeiro local de "glamping", ou camping glamouroso, na vasta região tibetana governada pela China, uma das partes mais austeras do mundo.

"No mercado de luxo, é difícil se fazer conhecer e atingir as pessoas certas", disse Dechen Yeshi, 34, que dirige o campo com seu marido, Yidam Kyap, também com 34 anos. "Nós tivemos que nos fazer a pergunta: o que é luxo?"

Construído a mais de 3.000 metros de altitude, o camping fica em uma clareira de flores silvestres amarelas, perto do lar ancestral de Yidam, na região que os tibetanos chamam de Amdo. "Foi muito desafiador montar isto aqui no meio do nada", disse Dechen. (Os tibetanos preferem ser chamados pelo seu primeiro nome.)

O camping e uma oficina de tapetes na principal cidade da área, Xiahe, são as mais novas peças de um ambicioso empreendimento social iniciado pela família Yeshi, que conta com uma equipe de mãe e filha em seu coração.

Eu soube a respeito da família tibetana-americana por meio de uma amiga cineasta, Ruby Yang, e viajei neste verão até a província de Gansu para conhecê-la. O camping fica ao lado de uma estrada que leva a Xiahe e seu famoso amplo mosteiro tibetano, Labrang.

Gilles Sabrie/The New York Times

A família abriu o camping em 2013 para levantar dinheiro para seu empreendimento principal, uma tecelagem chamada Norlha que emprega principalmente mulheres de um vilarejo próximo.

A família Yeshi tem suas raízes imediatas na comunidade tibetana exilada de Dharamsala, no norte da Índia, a "terra proibida", como brinca Dechen.

Lá é onde os pais de Dechen vivem e onde ela cresceu. Lá, a família ouviu inúmeras histórias terríveis sobre as políticas da China no Tibete, que o Exército chinês ocupou em 1951. Todavia, eles decidiram tentar trabalhar com os tibetanos na região governada pela China e tentar realizar um empreendimento social aqui.

"Minha posição é trabalhar com o que dispomos; esta é a situação aqui e vou simplesmente trabalhar com o que há", disse Kim Yeshi, a mãe de Dechen e uma acadêmica de religião tibetana proveniente dos Estados Unidos. "Há muitas coisas que temos à mão. Se empregá-las, há muito o que pode ser feito para melhorar a vida das pessoas e preservar sua cultura."

Em 2004, Dechen, que tinha acabado de se formar pela Faculdade de Connecticut, veio a Amdo pela primeira vez, como documentarista aspirante. Ela voltou no ano seguinte para viajar por sete meses com seu irmão mais novo, Genam. A pedido de sua mãe, eles trouxeram duas toneladas de lã de iaque para levar ao Nepal, para a oficina de tecelagem de uma amiga.

Em 2006, Yeshi veio ajudar sua filha a montar uma oficina aqui. Foi a primeira vez que ela botou os pés no Tibete.

"A reação mais estranha que tive foi de podermos andar de carro e ir de uma área a outra", ela disse. "As histórias que ouvi eram de que viajar de um local a outro nesta área levava um ou dois dias a cavalo."

Era julho e Yeshi disse que alguns dos pastos pareciam "tosados". Ela concluiu que a pastagem excessiva era um problema, e isso contribuiu para sua ideia de ajudar a criar emprego para os nômades, que assim não dependeriam do pastoreio tradicional. (O governo chinês também aponta para a pastagem excessiva para justificar sua política de forçar os nômades a se reassentarem em novos vilarejos, o que muitos tibetanos criticam.)

Gilles Sabrie/The New York Times


Yeshi também disse que descobriu que "os jovens não querem mais se tornar nômades".

"Crianças que frequentaram a escola não conseguem imaginar o tipo de vida que um nômade teria, especialmente as mulheres", ela acrescentou. "É uma mudança que ocorre porque o modo de vida evolui, os mercados evoluem."

Eles encontraram um terreno para a oficina têxtil ao lado do vilarejo de Zorge Ritoma, que conta com 200 lares nômades. Os membros da família Yeshi e alguns moradores locais viajaram ao Camboja e Nepal para aprender tecelagem. O maquinário na oficina é do Nepal e nepaleses às vezes vêm ensinar os nômades.

A tecelagem agora conta com 120 funcionários, cerca de 110 na própria oficina.

Gilles Sabrie/The New York Times


"Ao proporcionar empregos em um vilarejo, as pessoas podem continuar vivendo juntas e podem permanecer com seus pais e filhos", disse Dechen. "Elas não precisam deixar sua cidade natal à procura de emprego."

A mãe dela disse que a meta a longo prazo é descobrir como reproduzir esses esforços por todo o planalto, para criar uma economia sustentável para os nômades.

"Acho que se formos bem-sucedidas com a Norlha, muita gente verá que é possível", disse Yeshi. "Outras pessoas podem tentar o que estamos fazendo. Talvez, se tivermos sorte, poderemos ter cursos básicos de administração sobre como dirigir negócios de uma forma moderna, eficiente."

Gilles Sabrie contribuiu com reportagem.

Antiga tradição nômade, corrida de cavalos ressurge no Tibete

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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