Processo de impeachment

Passado o impeachment, próximo desafio do Brasil é sua economia em frangalhos

Simon Romero

Em Brasília

  • Beto Barata/PR

    O presidente Michel Temer faz pronunciamento à nação, horas depois de Dilma Rousseff ser afastada definitivamente do cargo

    O presidente Michel Temer faz pronunciamento à nação, horas depois de Dilma Rousseff ser afastada definitivamente do cargo

Os brasileiros o vaiaram ao presidir a abertura da Olimpíada no Rio. Ele é acusado de receber propina. A economia que ele deveria resgatar está à beira de uma depressão.

Michel Temer, o novo presidente do Brasil, pode ter derrotado sua rival, Dilma Rousseff, na desagradável batalha do impeachment que resultou no afastamento dela em definitivo da presidência na quarta-feira.

Mas para Temer, a parte difícil está apenas começando.

"Entrincherem-se então", disse Roberto Requião, um senador do partido de Temer que se rebelou ao ficar do lado de Dilma na votação do impeachment. "O conflito será inevitável", ele acrescentou, alertando que a remoção de Dilma abriria o caminho para uma era de intensa divisão na sociedade brasileira.

O maior desafio diante de Temer, que em grande parte atuava nas sombras como vice-presidente de Dilma antes de romper com ela neste ano, é evidente: a economia.

O produto interno bruto do Brasil despencou 9,7% em uma base per capita ao longo dos últimos nove trimestres. A recessão, que o banco de investimentos Goldman Sachs comparou a uma depressão, ultrapassou até mesmo o declínio de 7,6% durante a "década perdida" dos anos 80, quando o Brasil lidou com a hiperinflação.

Grandes segmentos da população estão furiosos com todo o establishment político, especialmente agora que o desempregou subiu para 11,6%, em comparação a 6,5% no final de 2014. Mais de 1,7 milhão de brasileiros perderam seus empregos no ano passado, enquanto políticos como Temer estavam brigando pelo poder.

"O ataque dele à nossa democracia afundará o país ainda mais", disse Judson Albino Coswork, 25 anos, um estudante universitário de biologia que acusou Temer de derrubar Dilma para ganho político próprio.

Em meio à fúria e à turbulência econômica, Temer está prometendo seguir em frente com uma série de reformas econômicas politicamente arriscadas, incluindo a privatização de empresas públicas, limitação dos gastos públicos e uma reforma do sistema previdenciário, que permite que os brasileiros se aposentem com idade média de 54 anos.

Temer assumiu a presidência interinamente em maio, quando Dilma foi suspensa para enfrentar o processo de impeachment. Mas mesmo com amplo apoio de um Congresso rebelde, os primeiros resultados da agenda ambiciosa de Temer deixaram a desejar, deixando perplexos alguns que expressaram apoio à sua nova equipe econômica.

"O governo Temer está exigindo sacrifícios por parte da população, mas está buscando aumentos salariais para funcionários públicos que já contam com estabilidade de emprego", disse Marcos Lisboa, presidente da Insper, uma das principais escolas de negócios do Brasil.

Após a medida provocar críticas de aliados que buscavam conter os gastos públicos, Temer suspendeu os aumentos salariais. Mas alguns analistas ainda esperam que o plano avançará a certa altura, por desfrutar do apoio de muitos legisladores do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) do presidente.

Apesar de dúvidas a respeito do governo Temer, muitos brasileiros culpam exclusivamente Dilma Rousseff e seu Partido dos Trabalhadores (PT), que se manteve no poder por mais de 13 anos, pelos problemas econômicos do país.

"Colocando de forma simples, a esquerda fracassou no Brasil", disse Jacques Kfouri, 62 anos, um empresário em São Paulo. "Temer é fantástico em comparação às alternativas. O que ele precisa agora é que os outros o apoiem."

Outros apontam que Temer pode receber um impulso nos próximos meses. A economia ainda está ruim, com as autoridades anunciando na quarta-feira que ela contraiu 0,6% de abril a junho. Mas alguns economistas encontraram consolo em dados que mostram um aumento nos investimentos pela primeira vez desde 2013, talvez sinalizando que o Brasil já atingiu o ponto mais baixo na sua crise econômica mais severa em décadas.

De qualquer forma, o destino das ambições de Temer dependerá do sentimento popular e de sua habilidade de negociar com o Congresso. Seus índices de aprovação, que são quase tão ruins quanto os de Dilma, são altamente influenciados pelos escândalos que cercam ele e seu partido.

Temer diz que reformas da Previdência e Trabalhista são necessárias

  •  

Temer foi condenado neste ano de violar os limites de financiamento de campanha. Em uma espécie de paradoxo, ele foi autorizado a ocupar a presidência devido ao impeachment de Dilma, mas a condenação contra ele poderia torná-lo inelegível a cargos públicos por oito anos.

Separadamente, várias figuras políticas e empresariais associaram Temer aos colossais esquemas de propina envolvendo grandes empresas públicas de energia. Um executivo de construtora testemunhou que Temer foi beneficiário de uma propina no valor de R$ 1 milhão por contratos da Eletronuclear, empresa produtora de energia nuclear controlada pelo Estado. Temer nega a alegação.

Enquanto Temer busca afastar as dúvidas sobre sua legitimidade, as investigações de corrupção que abalaram quase toda a classe política continuam avançando. Vários ministros do Gabinete de Temer renunciaram por revelações de terem tentado impedir as investigações, levantando a possibilidade de que novos escândalos possam surgir.

"O maior problema para esse governo é a absoluta imprevisibilidade do que as investigações ainda revelarão, porque estamos longe do fim desse processo", disse Rubens Ricupero, um diplomata aposentado e ex-ministro da Fazenda.

Apesar de Ricupero ter apoiado o processo de impeachment e considerar Dilma Rousseff incompetente, ele notou que novas informações oferecem o risco de Temer "ter que correr o tempo todo, porque a maioria das pessoas em torno dele, de um jeito ou de outro, esteve sob investigação em algum momento".

Na quarta-feira, em seu primeiro discurso televisionado após a votação no Senado da remoção de Dilma, Temer pareceu reconhecer a estrada difícil à frente, sinalizando a taxa de desemprego como um problema alarmante.

"Temos um horizonte de dois anos e quatro meses", ele disse, referindo-se à quantidade de tempo que resta de seu atual mandato presidencial, que dura até o final de 2018. "A partir de hoje a cobrança será muito maior em relação ao governo."
 

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos