O que um imigrante sem documentos gostaria de dizer a Trump

Fernanda Santos

Em Phoenix (EUA)

  • Joshua Lott/The New York Times

    Muro marca fronteira entre EUA e México em Nogale

    Muro marca fronteira entre EUA e México em Nogale

Ele tinha ouvido falar sobre a viagem de Donald Trump para cá no noticiário da véspera e se perguntou: e se eu conseguisse encontrá-lo? José Enrique Camacho tinha muito a dizer a Trump. "Mas se eu pudesse dizer só uma coisa", explicou ele, "diria que me orgulho de que eu, meus filhos e minha família fazemos parte deste país."

Camacho, 50, é zelador em um dos prédios de apartamentos para aluguel que salpicam o centro da cidade, apesar de ele não ter documentos legais que lhe permitam viver ou trabalhar nos EUA. Ele terminou seu turno às 4h de quarta-feira e, em vez de esperar por sua carona até em casa, caminhou sete quarteirões para o sul, até o Centro de Convenções de Phoenix, onde Trump faria dali a pouco um discurso sobre imigração.

Assim como milhões de outros que estão ilegalmente nos EUA, Camacho teme a declaração de Trump sobre deportar os 11 milhões de imigrantes sem documentos.

"Eu não bebo, não roubo, vou à igreja todo domingo", disse Camacho. "Não tenho papéis, mas não sou um criminoso."

Ele se colocou à sombra de uma árvore "paloverde" do outro lado da rua, em frente ao centro de convenções, e viu manifestantes inflarem um boneco gigante de Trump, com uma suástica estampada no peito. Misturando inglês e espanhol, Camacho falou sobre sua filha, que acaba de se formar no colégio, e seu filho, que está começando os estudos.

"Eu sempre digo aos meus filhos: este é um país onde vocês podem fazer muita coisa, se trabalharem duro", disse Camacho. "Isso não é possível em meu país. Eu gostaria de dizer isso a Donald Trump."

Lá dentro, os apoiadores de Trump entoavam: "Construa o muro! Construa o muro!" Trump continuaria pedindo uma nova "força-tarefa de deportação", que se concentraria em apreender só os "mais perigosos imigrantes ilegais criminosos".

 

Camacho disse que ele veio de uma aldeia pobre no Estado mexicano de Sinaloa e atravessou a fronteira ilegalmente há 24 anos, vindo de Nogales, no México, para Nogales, no Arizona, antes que grossas placas de aço separassem as duas cidades. Ele tem uma casa e um carro, segundo disse. Ganha um dinheiro extra entregando jornais antes de começar a cortar grama, podar arbustos e soprar folhas das calçadas no complexo de edifícios.

Trump pousou em Phoenix no final da tarde, vindo do México, onde, em uma reunião com o presidente Enrique Peña Nieto, trocou seu discurso duro sobre imigração por uma mensagem mais conciliatória de cooperação entre os dois vizinhos.

Em nenhum lugar o debate sobre imigração foi mais feroz que em Phoenix, onde os pedidos de deportação de imigrantes sem documentos são constantes, mesmo quando esses imigrantes já fazem parte do tecido da cidade.

Entre o centro de convenções e o aeroporto onde Trump chegou, há um cartaz de um banco de hipotecas na Washington Street, que diz em espanhol: "Minha casa é minha casa". Há também uma igreja católica chamada Inmaculado Corazón de Maria, onde uma pintura da virgem de Guadalupe, padroeira do México, reluz na fachada.

Em uma oficina mecânica na esquina das ruas Washington e 18 Norte, Francisco Rodríguez proclamou com orgulho: "Sou ilegal, mas sou dono de uma empresa". Ele chegou a Phoenix em 2003, vindo do Estado mexicano de Nayarit, e abriu a oficina oito anos depois, no mesmo lugar onde está hoje --na estrada do aeroporto até a cidade.

"O que Trump diz sobre os mexicanos --que somos estupradores, criminosos-- não me afeta", disse Rodríguez, 54, com uma chave inglesa metida no bolso da calça. "Eu acordo todos os dias e trabalho duro, de segunda a sábado, e me desligo do barulho."

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Para Camacho, não é tão fácil ignorar algumas das coisas que Trump disse: que vai construir um grande muro na fronteira e fazer o México pagar por ele; que vai prender imigrantes sem documentos e mandá-los "imediatamente de volta para o país de onde vieram", desde seu primeiro dia no cargo.

"Senhor Donald Trump, ele não sabe que nós viemos do México para cá porque temos fome, temos necessidade", disse Camacho. "Viemos para nos ajudar e a nossas famílias."

Ele lembrou de um primo que morreu há três anos depois que o contrabandista que o levava pelo deserto em direção ao Arizona o abandonou no meio do caminho.

"O México não pode nos ajudar", disse ele. "Se pudesse, ninguém iria embora."

Ele pediu desculpas e andou rapidamente na direção de um repórter de televisão que reconheceu, Ricardo Arambárri, do canal de TV em espanhol Univision. Ele puxou seu celular e tirou uma foto dos dois lado a lado, com o braço sobre o ombro do jornalista.

"Eu vejo você na TV o tempo todo", disse-lhe Camacho.

Então os manifestantes tinham se reunido em torno de um grupo de homens e mulheres vestidos com roupas coloridas, cheias de penas, e que faziam danças indígenas mexicanas, ao som de tambores.

"O protesto se transformou em festa", disse ele, rindo.

Então Camacho decidiu que era hora de ir para casa.

Atravessou a rua, passou por um grupo de policiais, um motociclista de casaco de couro preto e uma mulher que segurava uma placa que dizia "Faça a América grande de novo", o slogan de Trump. Ele manteve os olhos no chão e continuou andando.

"Imagine o que aconteceria se todos os mexicanos deixassem este país", disse ele. "Donald Trump já pensou nisso?"

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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