Luta contra o aquecimento global marcou gestão Obama e também expôs suas fraquezas

Julie Hirschfeld Davis, Mark Landler e Coral Davenport

No Atol Midway

Há 74 anos, uma batalha naval neste pedaço remoto de terra no meio do Oceano Pacífico, chamado Atol Midway, mudou o curso da Segunda Guerra Mundial. Na semana passada, o presidente Barack Obama voou para cá para nadar com focas-monge havaianas para chamar a atenção para uma guerra mais discreta, uma que ele tem travado contra a elevação do nível dos mares, tempestades atípicas, secas mortais e outros sintomas de um planeta sufocando em seus próprios gases. 

Bombas podem não cair. O som de disparos não distrai a mente. O que Obama viu aqui em vez disso são gráficos e tabelas de um planeta em aquecimento. "E são aterrorizantes", ele disse em uma recente entrevista em Honolulu. 

A.J. Chavar/The New York Times
Pista de avião da Segunda Guerra Mundial, usada pelos EUA, coberta por mar e areia no Atol Midway

"O que torna a mudança climática difícil é o fato de não se tratar de um evento catastrófico instantâneo", ele disse. "É uma questão que se move lentamente que, no dia a dia, as pessoas não sentem e não veem." 

A mudança climática, diz Obama com frequência, é a maior ameaça de longo prazo enfrentada pelo mundo, assim como um perigo que já se manifesta na forma de secas, tempestades, ondas de calor e inundações. Mais do que a reforma da saúde, mais do que endireitar o navio econômico que estava afundando, mais do que o fato histórico de ser o primeiro presidente afro-americano, ele acredita que seus esforços para desacelerar o aquecimento do planeta serão o legado mais importante de sua presidência. 

Durante seus 7 anos e meio no cargo, disse Obama, a maioria dos americanos passou a acreditar "que a mudança climática é real, que é importante e devemos fazer algo a respeito". Ele sancionou leis para redução das emissões dos gases do efeito estufa por toda a economia americana, de carros a usinas a carvão. Ele foi um mediador central do acordo climático de Paris, o primeiro acordo no qual quase todos os países se comprometeram a reduzir as emissões de gases do efeito estufa. 

Mas apesar da mudança climática mexer com os ideais mais elevados de Obama (os críticos os chamam de impulsos messiânicos), ela também expõe suas fraquezas, como sua incapacidade de obter um consenso, mesmo dentro de seu próprio partido, a respeito de um problema que exige resposta bipartidária. 

Ele reconheceu que seu chamado à ação para salvar o planeta não mobilizou os americanos. Ele tem sido duramente criticado por políticas que os opositores consideram abusos do poder Executivo e fardos pesados demais para a economia. 

Isso torna o retrospecto de Obama a respeito da mudança climática curiosamente contraditório, marcado por realizações históricas no exterior e reveses frustrantes em casa. A ameaça do aquecimento global inspirou Obama a realizar algumas das diplomacias mais hábeis de sua presidência, que vincularam os Estados Unidos a uma teia de acordos e obrigações no exterior. Mas sua determinação em agir sozinho inflamou seus adversários, ajudou a polarizar o debate em torno da mudança climática e terá um custo econômico significativo. 

A.J. Chavar/The New York Times
1.set.2016 - Obama observa o mar no Atol Midway, no Pacífico

Obama e Hillary nunca se cansam de contar a história de Copenhague: em dezembro de 2009, com a conferência do clima à beira do fracasso, os dois souberam de uma reunião de líderes do Brasil, China, Índia e África do Sul, da qual os dois foram excluídos. Abrindo caminho por um segurança chinês, eles invadiram a reunião, e ao longo de 90 minutos de tensas negociações com os líderes embaraçados, eles extraíram um acordo estabelecendo metas para redução de emissões. 

Os europeus, que também foram excluídos das negociações, zombaram do acordo como ineficaz, mas Obama aprendeu com a experiência. Um acordo climático global não poderia ser simplesmente um pacto entre as economias desenvolvidas, ele disse. Era preciso incluir as principais economias em desenvolvimento, mesmo que se ressentissem por lhes serem cobrados padrões que nunca foram aplicados ao clube dos países ricos. E qualquer acordo teria que ser liderado pelos dois maiores emissores, os Estados Unidos e a China. 

Obama então persuadiu o presidente da China, Xi Jinping, a se juntar aos Estados Unidos no estabelecimento de metas ambiciosas de redução das emissões de carbono. As tensões já eram altas devido ao hackeamento pela China de empresas americanas e os Estados Unidos também estavam irritados com a colonização em câmera lenta chinesa do Mar do Sul da China. Um encontro casual entre Obama e Xi em Sunnylands, na Califórnia, em junho de 2013, não conseguiu quebrar o gelo. 

Mas o encontro produziu uma manchete: um acordo para explorar formas de reduzir as emissões de hidrofluorcarbonetos (HFCs), um potente produto químico responsável pelo aquecimento do planeta presente em refrigeração. Olhando para trás, isso pode provar ter sido significativo. O acordo internacional final sobre produtos químicos deve ser ratificado no mês que vem em Ruanda. 

"Foi onde Obama e Xi encontraram um ponto em comum", disse John D. Podesta, chefe de gabinete do presidente Bill Clinton, que foi recrutado por Obama para liderar seus esforços a respeito do clima em seu segundo mandato. (Podesta agora é o diretor da campanha presidencial de Hillary Clinton.) 

Podesta e Todd Stern, o emissário do Departamento de Estado para o clima, deram início a negociações árduas com a China. Eles foram apoiados pelo secretário de Estado, John Kerry, e por Obama, que enviou a Xi uma carta com uma proposta na qual os Estados Unidos se comprometeriam a aumentar sua meta de redução de emissões de carbono em 2025 caso a China se comprometesse a estabelecer um teto e então reduzir gradualmente suas emissões. 

A China historicamente resistia a esses acordos, mas a poluição do ar ali se tornou tão séria, notou Obama, que a página mais visitada no Twitter na China é a da monitoração diária da qualidade do ar mantida pela embaixada americana em Pequim. 

"Um dos motivos para achar que a China estava preparada para ir além do que estava antes", disse Obama, "é por sua principal preocupação tender a ser a estabilidade política. Interessantemente, uma de suas maiores vulnerabilidades políticas é o meio ambiente. As pessoas que vão para Pequim sabem como pode ser difícil respirar." 

Pouco mais de um ano depois, em Paris, os Estados Unidos lideraram negociações entre 195 países que resultaram no acordo mais importante a respeito do clima na história. E neste fim de semana em Hangzhou, China, Obama e Xi comprometeram formalmente seus países ao acordo de Paris. Para Obama, não foi apenas uma redenção para Copenhague, mas a justificação de sua teoria sobre o papel dos Estados Unidos no mundo.

"Há certas coisas que os Estados Unidos podem fazer por conta própria", disse Obama. "Mas se quisermos realmente resolver um problema, então nosso papel mais importante é o de líder, estabelecedor da visão e organizador." 

Para seu sucessor, Obama deixa um legado ambicioso e divisor: uma série de novas regras de emissões que promete transformar a economia americana, mas que provavelmente continuará atraindo fogo contínuo por parte dos republicanos, e um compromisso agressivo (alguns diriam irrealista) feito em Paris para redução da emissão de gases do efeito estufa em 80% dos níveis de 2005 até 2050. 

Carolyn Kaster/AP
3.set.2016 - Obama entrega documento em que ratifica o Acordo do Clima de Paris para o presidente da ONU, Ban Ki-moon

Tudo isso, ele reconhece, pode ser desfeito nas urnas. "Acho que é justo dizer que se Donald Trump for eleito, por exemplo, haveria uma grande mudança na forma como a EPA (sigla em inglês da Agência de Proteção Ambiental) atua", ele disse.

Mas se Hillary for eleita, ela enfrentará o mesmo fogo partidário que Obama. Ele notou que, assim como ele, Hillary tem sido atacada no território do carvão por reconhecer que a mineração de carvão teria um papel cada vez menor na economia do século 21. A aposta de Obama é que assim que suas regulamentações forem entrelaçadas no tecido da economia, será mais difícil para alguém as desfazer. Ele diz que seu sucessor deveria promover as vitórias do passado, incluindo as de republicanos como Richard M. Nixon e George Bush (pai). 

Por sua vez, Obama disse que planeja permanecer ativo no combate à mudança climática em sua vida pós-presidencial. Durante sua visita a Midway, ele fez uma pausa para fazer um comentário improvável. 

"Minha esperança", ele disse, "é de que talvez como ex-presidente eu possa ter um pouco mais de influência sobre alguns dos meus amigos republicanos, que acho que até agora têm resistido à ciência." 

Obama: Acordo de Paris é melhor chance para salvar o planeta

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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