Amigos relatam as mudanças de Rahami, autor das bombas em NY, após uma viagem ao exterior

N.R. Kleinfield

  • Union County Prosecutor’s Office via AP

    Ahmad Khan Rahami

    Ahmad Khan Rahami

Ahmad Khan Rahami comandava um restaurante de frango frito em Nova Jersey, transformando o apartamento acima no lar de sua família. Para alguns de seus amigos, ele era conhecido como Mad (louco), uma abreviação de seu nome em vez de uma sugestão de seu comportamento, e gostavam do fato de ele dar comida de graça quando estavam com pouco dinheiro.

Além disso, sua outra obsessão conhecida era os Honda Civics turbinados com os quais gostava de correr. Nos últimos anos, entretanto, alguns amigos notaram uma mudança em sua personalidade e devoção religiosa, ocorrida após uma viagem ao Afeganistão, país de origem dele e de seus parentes.

Na verdade, uma autoridade federal, falando sob a condição de anonimato, disse que Rahami viajou ao Paquistão, por três meses em 2011 e, mais recentemente para Quetta, por quase um ano, onde permaneceu com a família, voltando aos Estados Unidos em março de 2014. Enquanto esteve lá, acredita-se que ele tenha se casado.

De volta para casa, ele e seus parentes tinham um relacionamento turbulento com os vizinhos e a polícia em Elizabeth, Nova Jersey, devido ao horário de funcionamento de seu restaurante 24 horas e os clientes barulhentos que atraía. O longo atrito levou a família de Rahami a impetrar um processo federal em 2011 contra a prefeitura e seu Departamento de Polícia, no qual alegava estar sendo molestada e intimidada por causa de sua religião. No processo, ela acusava um empresário local de se queixar: "Os muçulmanos causam problemas demais neste país".

Tariq Zehawi/Northjersey.com/AP
20.set.2016 - Mohammad Rahami (de boné), pai de Ahmed Rahami, sai de casa em Elizabeth, Nova Jersey (EUA)

Agora, Rahami é acusado de ser o responsável pelas bombas detonadas no fim de semana tanto em Nova York quanto em Nova Jersey. Ele foi levado sob custódia na segunda-feira, após ter sido descoberto adormecido na entrada de um bar em Nova Jersey e depois ser ferido em uma troca de tiros com a polícia.

Um cidadão naturalizado de 28 anos, Rahami morava em Elizabeth, a cerca de 25 quilômetros de Nova York, no andar de cima do First American Fried Chicken, um negócio de família aparentemente de propriedade de seu pai, Mohammad. Vários irmãos também trabalharam ali.

Ahmad Rahami nasceu em 23 de janeiro de 1988, no Afeganistão, e veio ainda criança para os Estados Unidos.

Jonathan Wagner, 26, que conhece a família Rahami desde a infância, disse que Mohammad Rahami lhe disse que era de Kandahar e que fez parte dos mujahedeen afegãos que combateram o Exército soviético. Apesar de o pai ter dito não nutrir sentimento antiamericano, ele foi contra a guerra no Afeganistão. Mas, disse Wagner, Mohammad tinha dúvidas em relação ao Taleban e detestava o Estado Islâmico.

Flee Jones, 27, cresceu com Ahmad Rahami e jogou basquete com ele quando era mais novo. Jones, agora um rapper, era frequentador regular do restaurante, onde a comida era simples, mas barata. Ele disse que os Rahami deixavam ele e seus amigos realizarem batalhas de rap nos fundos do restaurante. Jones ajudou a compor a canção "Chicken Joint" sobre o restaurante.

Àquela altura, pouco se sabia sobre a ideologia ou política de Rahami. Ele costumava vestir roupas ao estilo ocidental e os clientes disseram que ele dava pouco indício de sua origem afegã.

Mel Evans/AP
First American Fried Chicken, restaurante da família de Ahmad Khan Rahami

Há cerca de quatro anos, entretanto, Rahami desapareceu por algum tempo. Jones disse que um dos irmãos mais novos de Rahami lhe disse que ele tinha ido para o Afeganistão. Quando voltou, alguns clientes notaram uma certa transformação. Ele deixou a barba crescer e trocou suas camisetas e calças de moletom habituais por roupas tradicionais muçulmanas. Ele começou a rezar nos fundos do estabelecimento.

Seus modos cordiais anteriores deram lugar a modos mais austeros.

"É como se ele tivesse se tornado uma pessoa completamente diferente", disse Jones. "Ele se tornou sério e completamente fechado."

Andre Almeida, 24, que mora ali perto e come no restaurante uma ou duas vezes por semana, disse que considerou a mudança impressionante, mas que hesitou a chegar a qualquer conclusão.

Sem que soubessem, o amigo deles tinha se casado no Paquistão. O deputado Albio Sires, democrata de Nova Jersey, disse que Rahami entrou em contato com seu gabinete em 2014, em busca de ajuda para trazer sua mulher grávida do Paquistão. O assunto foi complicado pelo fato de a embaixada americana em Islamabad ter dito a ela que ela precisava esperar até o nascimento do bebê para que ambos pudessem vir, disse Sires, que acrescentou não saber se posteriormente vieram.

Rahami mantinha pouca presença nas redes sociais.

"Ele é como uma espécie de fantasma", disse um agente da lei.

Não há evidência de que Rahami recebeu algum treinamento militar no exterior, disse a autoridade federal, mas os investigadores estão buscando saber mais sobre o período em que ele passou no exterior. "Para onde ele realmente foi e o que realmente fez no exterior, para fazer um garoto que vivia uma vida normal em Nova Jersey voltar como um fazedor de bombas sofisticado e terrorista?", disse a autoridade.

Câmera de segurança flagra momento da explosão



Além de sua viagem mais recente a Quetta, Rahami visitou Karachi, Paquistão, em 2005. A reputação de ambas as cidades está entrelaçada com os grupos militantes que se estabeleceram nelas: Karachi como refúgio do Taleban e da Al Qaeda paquistaneses, e Quetta como quartel-general da liderança exilada do Taleban afegão. Mas ambas as cidades também são lar de gerações de afegãos que fugiram da violência em seu país natal.

Grande parte de sua vida em Nova Jersey parecia banal. Amarjit Singh, um motorista de limusine, era amigo de Rahami no Edison High School. A pessoa que ele conhecia, ele disse, era um aluno determinado com abundância de amigos e uma série de namoradas. "Todos pareciam gostar dele", ele disse. "Inteligente, engraçado, humilde."

Ele via o adolescente Rahami como o típico imigrante, se equilibrando entre dois mundos. Apesar de vestir jeans e casacos de moletom como seus amigos, e trabalhar no supermercado Pathmark depois da escola, ele preferia música afegã e rezava na mesquita às sextas-feiras.

As colisões entre esses mundos às vezes levavam a atritos com seu pai, que era mais religioso e tradicional. "Os dois discutiam", disse Singh. "Parecia haver muita tensão."

Seu pai ficou especialmente descontente quando Rahami teve uma filha com uma namorada do colégio, segundo amigos. Contatada em sua casa na noite de segunda-feira, ela se recusou a comentar. "Meu coração está partido", disse a mulher, que o "New York Times" não identificará. "Nem mesmo sei o que pensar."

Depois do colégio, Singh disse que ele e Rahami trabalharam por algum tempo juntos no turno da noite do Royal Fried Chicken, em Newark. Singh trabalhava na fritadeira nos fundos. Rahami ficava na caixa registradora. Sempre que Singh entrava em atrito com os clientes, Rahami intervinha como mediador de paz, ele se recordou.

Nos últimos anos, os dois se afastaram. Singh também estava ciente de que Rahami tinha viajado ao exterior e que se tornou mais religioso, até mesmo passando a vestir as túnicas muçulmanas.

Os eventos de segunda-feira não foram o primeiro encontro de Rahami com a lei. Ele foi preso em 2014 por posse de armas e acusações de agressão, por supostamente esfaquear um parente na perna em um incidente doméstico, segundo documentos na Justiça. Ele passou três meses na cadeia por causa das acusações, segundo uma autoridade com conhecimento da investigação. Mas um grande júri se recusou a indiciá-lo. Ele também passou um dia na cadeia em fevereiro de 2012, por supostamente violar uma ordem de restrição, disse a autoridade.

Em 2005, o pai de Rahami pediu falência, dizendo nos autos do processo que tinha apenas US$ 100 no banco e uma dívida de US$ 38.609, principalmente nos cartões de crédito. Ele disse que era separado e tinha oito filhos dependentes.

A família, enquanto administrava o restaurante de frango frito, desenvolveu um relacionamento tenso com a comunidade, apesar de contar com clientes leais que apreciavam suas batatas fritas com queijo e o bom serviço.

Quando o restaurante abriu há cerca de uma década, o pai de Rahami estava sempre atrás do balcão, disse Ryan McCann, 33, um cliente frequente que vive em Elizabeth. Depois, cada vez mais seu filho o substituía. Recentemente, apenas este dirigia o estabelecimento.

Inicialmente, o restaurante ficava aberto 24 horas e depois de algum tempo passou a ser um incômodo local, disse J. Christian Bollwage, o prefeito de Elizabeth e um vizinho. Uma clientela ruidosa aparecia depois da meia-noite. Dean McDermott, que mora nas proximidades, se queixou, assim como outros. Com frequência McDermott encontrava clientes do restaurante em seu quintal e urinando na entrada de sua garagem, de modo que chamou a polícia. Em resposta às queixas, o restaurante recebeu uma série de notificações por violações da lei que exige o fechamento de certos estabelecimentos às 22h.

Mas os Rahami ignoraram a exigência, argumentando que estavam isentos dela, e os vizinhos continuaram chamando a polícia. Em junho de 2010, dois dos irmãos de Ahmad Rahami, Mohammad K. e Mohammad Q., foram detidos depois de discutirem com policiais que apareceram depois das 22h para pedir que o restaurante fechasse. Mohammad Q., um menor na época, não foi indiciado, enquanto Mohammad K. acabou se declarando culpado de impedir o policial de efetuar uma prisão e pagou uma multa de US$ 100 (cerca de R$ 330).

Em 2011, o pai de Rahami e esses dois irmãos impetraram um processo federal contra a prefeitura de Elizabeth, o Departamento de Polícia, nove policiais, McDermott e outros. Os Rahami alegavam que a família era alvo de uma campanha de humilhação e retaliação. Os Rahami disseram que McDermott lhes disse que "os muçulmanos causam problemas demais neste país".

O prefeito disse: "Foram as queixas dos vizinhos; não tinha nada a ver com sua etnia ou religião. O problema era o barulho e as pessoas reunidas nas ruas".

Entre os autos do processo estava uma carta do advogado da família, dizendo que o pai de Rahami viajaria ao Paquistão em julho de 2011. Outra carta, datada de 16 de setembro de 2011, dizia que ele tinha sido hospitalizado e que sua família estava no Afeganistão, "mas retornaria nos próximos dias".

O processo ainda está em andamento. McDermott disse que eles chegaram a uma trégua frágil e informal, com o restaurante fechando à meia-noite ou 1h da manhã.

Há poucos meses, entretanto, uma placa de à venda apareceu na frente. Ela permanece lá.

Alguns dos clientes de Ahmad Rahami tinham apreço por ele, especialmente aqueles que gostavam das refeições gratuitas. "Ele me dava frango de graça", disse Ryan McCann. "Ele sempre foi a pessoa mais amistosa que conheci."

Mas outros clientes consideram ele e seus parentes incômodos. "Eles pareciam estar escondendo algo, um pouco misteriosos", disse Jessica Casanova, 23, outra vizinha. "Eles eram sérios demais o tempo todo."

Outro vizinho, Joshua Sanchez, 24, também notou o isolamento da família dentro do restaurante.

McCann, entretanto, disse que Rahami era obcecado por carros. "Ele sempre falava sobre os Honda Civics velozes, sobre como os adorava", disse McCann.

Ele também disse que comeu no restaurante há duas semanas. "Ele estava conversando sobre seus carros", disse McCann. "Como gostava de turbiná-los e correr com eles."

Às 10h30 da noite de domingo, após as bombas terem detonado e a caçada pelo perpetrador estar em andamento, Junior Robinson, 19, parou para comer no First American Fried Chicken. Apesar do local costumar estar lotado àquela hora, ele era o único freguês. Mohammad Rahami o serviu.

Ahmad Rahami não estava lá. Robinson não deu atenção àquilo.

*Al Baker, Kim Baker, Nina Bernstein, Russ Buettner, Adam Goldman, Elizabeth A. Harris, Sarah Maslin Nir, Noah Remnick, Nate Schweber, Michael Schwirtz e Jessica Silver-Greenberg contribuíram com reportagem; Susan C. Beachy contribuiu com pesquisa.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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