Obama diz que irá considerar "insulto pessoal" se negros não apoiarem Hillary

Amy Chozick e Julie Hirschfeld Davis

  • Carolyn Kaster/AP

Com os líderes democratas cada vez mais preocupados com a falta de paixão por Hillary Clinton entre os eleitores negros jovens, o presidente Barack Obama passou a empregar uma mensagem de campanha nova e mais pessoal. "Trata-se de mim."

O presidente disse aos afro-americanos neste fim de semana que consideraria um "insulto pessoal" se não votassem em Hillary, colocando implicitamente seu nome na linha de fogo enquanto sua ex-secretária de Estado tem dificuldades em reproduzir o apoio que lhe proporcionou as vitórias em 2008 e 2012.

"Meu nome pode não estar na cédula, mas nosso progresso está", disse Obama na noite de sábado, no jantar de gala da Fundação da Bancada Negra no Congresso, em Washington, antes de Hillary discursar para o público. "A tolerância está na cédula. A democracia está na cédula. A justiça está na cédula."

Obama já fez a defesa de Hillary durante paradas de campanha e em seu discurso na Convenção Nacional Democrata. Mas seus comentários no sábado apresentaram um tom mais pessoal e um reconhecimento tácito de que ele pode ser o único capaz de atrair os votos dos eleitores jovens, negros e latinos com os quais os democratas contam em 8 de novembro.

"Aquele discurso foi além daquela sala. Foi além daquele momento", disse Donna Brazile, a presidente interina do Comitê Nacional Democrata. "Foi o presidente basicamente dizendo: 'Não entreguem à sorte'."

O swing pode definir a eleição nos EUA (mas não é o que você está pensando)



Durante as primárias democratas, Hillary desfrutou de tremendo apoio dos eleitores afro-americanos, especialmente de mulheres negras mais velhas, que a ajudaram a vencer o senador Bernie Sanders de Vermont.

E agora Hillary conta com uma imensa vantagem de 83 pontos percentuais sobre o candidato presidencial republicano, Donald Trump, entre os eleitores negros, segundo a pesquisa "New York Times/CBS News" divulgada na semana passada.

Mas muitos democratas dizem que a vantagem estatística de Hillary esconde as preocupações com a apatia dos eleitores e o comparecimento deles para votar.

Os eleitores negros mais jovens, em particular, nutrem desconfiança em relação a Hillary devido a algumas políticas do governo de seu marido.

Esses eleitores apontam especificamente para a lei do crime de 1994, que colocou mais policiais nas ruas, mas também levou a sentenças mais duras por infrações não violentas envolvendo drogas, e pela reforma do bem-estar social, que reduziu a assistência federal aos pobres em quase US$ 55 bilhões ao longo de seis anos.

Além disso, é difícil para Hillary reproduzir a profunda afeição pessoal e orgulho que muitos afro-americanos sentem por Obama.

"As pessoas dizem: 'Não importa, pois Hillary Clinton vai ficar com 90% dos votos afro-americanos'", disse Charlie King, um proeminente democrata de Nova York. "A questão é, 90% do quê? O comparecimento faz toda a diferença."

A menos de 50 dias até a eleição, Minyon Moore, uma importante conselheira da campanha de Hillary, chamou os comentários de Obama no sábado de "um verdadeiro chamado para despertar" à coalizão de apoiadores.

Em  parte, o discurso refletiu a disposição do presidente de usar a enorme influência que tem junto aos eleitores negros, especialmente os mais jovens que não se interessavam por política antes da candidatura dele à Casa Branca.

Mas nos últimos dias, disseram assessores de Obama, o presidente tem ficado irritado com o tom da campanha, incluindo o ressurgimento de questões sobre seu local de nascimento, uma questão que ele e muitos de seus apoiadores há muito consideram racista. Apesar de seus assessores terem sugerido que seu papel mais poderoso na campanha de Hillary é o de um convertido, alguém que passou a respeitar sua antiga rival, Obama também está determinado a alertar seus apoiadores a respeito dos riscos de não comparecerem para votar e basicamente cederem a presidência a Trump.

O discurso de Obama coincidiu neste fim de semana com os imensos esforços da campanha de Hillary para mobilização dos eleitores para votarem, incluindo o envio de 55 mil voluntários para liderarem mais de 2.000 eventos de registro de eleitores na Pensilvânia, Carolina do Norte e Ohio.

"Estamos no ponto que precisamos? Provavelmente não", disse Moore. "Conseguiremos chegar ao ponto que precisamos? Com certeza."

A linguagem direta e pessoal de Obama pareceu repercutir. Às 9h da manhã de domingo, o reverendo Al Sharpton começou a receber chamadas de ouvintes negros em seu programa de rádio "Keepin' It Real", que disseram desconfiar de Hillary, mas não ousariam insultar Obama. "Transformar não votar em sinônimo de um insulto ao presidente é um estímulo poderoso", disse Sharpton em uma entrevista.

Após dedicar grande parte dos últimos meses tentando atrair os eleitores suburbanos brancos que não gostam de Trump, a campanha de Hillary mudou o foco de seus esforços para uma grande mobilização dos eleitores para que votem, direcionados principalmente aos eleitores jovens e negros.

Nas semanas desde o feriado do Dia do Trabalho (comemorado na primeira segunda-feira de setembro nos Estados Unidos), Hillary tem realizado comícios para plateias em grande parte negras em Cleveland, em uma faculdade historicamente negra em Charlotte, Carolina do Norte, e em uma faculdade em Greensboro, Carolina do Norte.

Ela falou sobre seus laços profundos com as igrejas negras quando esteve na Convenção Nacional Batista, em Kansas City, Missouri; participou do programa de rádio de Tom Joyner enquanto estava em casa se recuperando da pneumonia; e, no último fim de semana, discursou para o Simpósio da Agenda das Mulheres Negras.

A campanha de Hillary planeja empregar Obama e a primeira-dama, Michelle Obama, o máximo possível nas próximas semanas, usando o casal principalmente na Flórida, Ohio e Carolina do Norte, nas áreas nesses Estados em que Obama venceu com folga em 2008 e 2012.

Após assessores de campanha terem insistido em junho que Obama não seria usado apenas para atrair os eleitores afro-americanos, cujo apoio parecia certo para Hillary, a campanha pareceu reconhecer que a ajuda dele é necessária, o enviando para cidades como Filadélfia e Charlotte, que contam com muitos eleitores negros.

"Alguns pensam que sem ele na chapa, o mesmo entusiasmo pode não estar presente a favor de Hillary Clinton", disse o deputado Charles B. Rangel, democrata de Nova York. "Acho que é muito inteligente o presidente dizer que não se resume a Hillary Clinton no futuro; significa a eliminação de todo o progresso que conseguimos ao longo não apenas dos anos Obama, mas ao longo de muitos, muitos anos."

Se a agenda permitir, a campanha pretende organizar outro comício com a presença de Obama e Hillary lado a lado. "Há uma certa magia quando ambos estão juntos no palco", disse Moore.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos