Alerta de celular usado em caçada a suspeito de ataques assusta população de NY

J. David Goodman e David Gelles

  • AP

    Foto do alerta enviado a cidadãos de Nova York sobre a caça a Ahmad Khan Rahami

    Foto do alerta enviado a cidadãos de Nova York sobre a caça a Ahmad Khan Rahami

Por toda a Cidade de Nova York, celulares tocaram na manhã de domingo com o toque dissonante, mas familiar, de um alerta de emergência, tipicamente usado para avisos relacionados ao tempo ou crianças sequestradas. Mas dessa vez era diferente.

Pelo que se supõe que tenha sido a primeira vez, o sistema de Alertas de Emergência Sem Fio foi acionado como um pôster eletrônico de "Procurado", identificando um homem de 28 anos que teria ligação com as explosões em Manhattan e em Nova Jersey durante o fim de semana.

De repente, desde os trens metropolitanos até as calçadas da cidade, milhões estavam engajados na caçada. A mensagem era simples: "PROCURADO: Ahmad Khan Rahami, homem de 28 anos. Ver foto na mídia. Ligar para 911 se avistado."

Em um instante, o alcance e a onipresença da polícia em tempos de terrorismo e de tecnologia digital se tornaram evidentes.

Union County Prosecutor?s Office via AP
Ahmad Khan Rahami

O sistema, que existe há vários anos, foi usado para ajudar as autoridades em momentos de caos e perigo em potencial: depois da explosão de Boston em 2013, quando os suspeitos ainda estavam foragidos, e no mês passado em Los Angeles, durante o episódio do rumor de um atirador no aeroporto. Em ambos os casos, aqueles que recebiam a mensagem recebiam a orientação de procurar refúgio no próprio local ou atualizações de segurança.

A mensagem de "procurado" enviado na segunda-feira pareceu ser a primeira tentativa em grande escala de transformar os cidadãos de uma grande cidade americana em um olhar vigilante e quase onipresente para as autoridades. Ela deu um novo significado ao conceito de "se vir algo, diga algo", ainda que tenha causado certa preocupação de que pessoas inocentes possam ser confundidas com os procurados.

"Esta é uma ferramenta que voltaremos a usar no futuro", disse o prefeito de Nova York, Bill Blasio, em uma coletiva de imprensa. "Chega de pôsteres na parede das delegacias. Esta é uma abordagem moderna que realmente envolveu toda uma comunidade."

As mensagens de alerta são direcionadas de acordo com a localização de um celular usando as torres dos arredores, então o alerta na segunda-feira foi recebido por pessoas dentro e em torno da Cidade de Nova York, incluindo algumas em Nova Jersey.

Frank DiGirolamo estava saindo de uma delicatessen de Manhattan na Rua 37 com a 7ª Avenida, a caminho do trabalho, quando chegou o alerta. "De repente, ouvi os telefones das pessoas que andavam em todas as direções", ele disse. "Até o telefone do cara da banquinha de frutas tocou."

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Existem três grandes tipos de alertas no sistema nacional: alertas de emergência para tempestades e outras ameaças à segurança pública; os chamados Amber Alerts, que procuram engajar pessoas na busca por uma criança sequestrada; e os alertas emitidos pelo presidente. Os usuários de celulares podem optar por bloquear todos os alertas, exceto pelos presidenciais.

Até hoje, o presidente não enviou nenhum alerta usando esse sistema.

O sistema foi usado na Cidade de Nova York várias vezes desde 2012, de acordo com as autoridades: três vezes durante o Furacão Sandy, uma vez para uma proibição de viagens durante uma tempestade de inverno em 2015 e duas vezes durante as explosões de Chelsea—o alerta maior na segunda-feira, e um alerta mais restrito na noite de sábado, alertando as pessoas na área de Chelsea a se manterem longe de janelas enquanto a polícia verificava um dispositivo não detonado na Rua 27.

Eric F. Phillips, um porta-voz para De Blasio, disse que a decisão de enviar o alerta na segunda-feira requeria um alto grau de evidência de que Rahami tinha ligações com a explosão.

No começo da segunda-feira, as autoridades estavam confiantes o suficiente para identificar publicamente Rahami. Por volta das 7h, John J. Miller, o vice-comissário de inteligência e contraterrorismo do Departamento de Polícia de Nova York, orientou o escritório de assuntos públicos a divulgar a informação. O escritório contatou então a agência de gestão de emergências da cidade; os membros da equipe logo decidiram enviar um Alerta de Emergência Sem Fio, ou WEA (Wireless Emergency Alert).

"Essa era uma pessoa que eles consideraram como extremamente perigosa", disse Nancy Silvestri, secretária de imprensa para a agência de gestão de emergências.

As autoridades levaram cerca de 15 minutos para entrarem em um acordo quanto à linguagem a ser usada no alerta, e para darem a aprovação para a mensagem que foi enviada para a cidade inteira às 7h57.

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Brittany Rocco estava em uma aula de cinesiologia na Manhattan College no Bronx quando aparentemente todos os telefones da sala tocaram ao mesmo tempo. "Pensei, 'Nossa, acho que eu deveria prestar atenção hoje'", ela disse.

Xinyue Zhang, uma pianista que vive em New Brunswick, Nova Jersey, disse que ela e seu noivo estavam planejando ir para o cartório de registro de casamentos da Cidade de Nova York na segunda-feira para se casarem, quando o alerta fez com que sua família ficasse preocupada com sua segurança. Eles decidiram adiar o casamento para terça-feira.

p> Nem todo mundo acredita que o uso de tais alertas por celular seja apropriado.

"Foi muito perturbador", disse Bandana Kar, uma professora de geografia na Universidade do Sul do Mississippi que estudou o sistema de alertas. "O alerta era muito pouco específico e vago", ela disse ainda. "Eles incentivam as pessoas a irem procurar por uma foto na mídia. E se alguém identificasse a pessoa errada?"

Quando Shuja Haider ouviu o alerta em sua casa, no bairro de Bushwick, no Brooklyn, ele inicialmente entrou em pânico, achando que seu prédio estava pegando fogo ou sob ameaça eminente. Seus pais ligaram do Paquistão, preocupados que ele pudesse estar na área da explosão. 

Mas eles também manifestaram preocupação que seu filho pudesse ser visado pelo perfil da raça após o episódio. Quando Haider viu o nome e a idade do homem, ele imediatamente procurou por uma imagem, para ver se o suspeito se parecia com ele. Ele ficou aliviado ao ver que não.

"Hoje, caras pardos como eu andam por aí preocupados com a ameaça de terrorismo como todo mundo", disse Haider. "Mas também estamos preocupados em sermos culpados por isso."

Os alertas de emergência podem ser enviados para o sistema nacional por autoridades federais, estaduais ou locais que tenham autorização para tal.

Em um estudo publicado recentemente no "The Journal of Contingencies and Crisis Management", um grupo de professores investigou como as pessoas interpretavam os WEAs durante um acontecimento extraordinário, como uma situação fictícia na qual uma bomba suja explodisse. Os resultados não foram muito animadores: os participantes do estudo consideraram as mensagens, limitadas a 90 caracteres, confusas além de amedrontadoras.

A chave para o sucesso é usar os alertas em momentos adequados e não abusar deles, diz Josh Gottheimer, que foi uma figura importante na Comissão de Comunicações Federais durante a criação do sistema de alerta na Cidade de Nova York, que foi inaugurado em 2011.

"Obviamente, se tivermos um terrorista lobo solitário à solta, considero essa uma circunstância urgente", diz Gottheimer, que está concorrendo ao Congresso de Nova Jersey.

Rahami já havia sido capturado no final da manhã, quando praticamente todos os nova-iorquinos e muitos outros em todo o país já conheciam seu rosto.

*Com contribuição de Emma G. Fitzsimmons e Samantha Schmidt.

Tradutor: UOL

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